O
quadro clínico de infecção pelo novo coronavírus cursa com diversas
características, dentre elas a febre está entre os principais sinais de
infecção. Aproximadamente 80% dos pacientes que desenvolvem a infecção
apresentam febre no cursar da doença. A febre não é só um sinal de alerta, mas
se não for controlada de maneira adequada traz uma série de riscos para o
paciente, promovendo complicações como desidratação, mal-estar geral e
prostração, desregulação sobre metabolismo orgânico e risco de convulsões
febris em quadros graves.
Quanto a sua classificação, a febre é considerada baixa
quando está em 37,8 a 38°C. A moderada chega até os 39°C. E a alta é superior a
39°C. Na COVID-19 o quadro clínico apresenta normalmente febre acima de 38°C
associada ou não a outros sintomas como tosse, cansaço e dificuldade para
respirar em casos mais graves da doença.
Durante os últimos meses houve uma mobilização mundial
voltada para avalições clínicas e patológicas na tentativa de estabelecer
terapêuticas contra o coronavírus. Os diversos estudos trouxeram vários
avanços, contestações e novas dúvidas sobre a terapêutica farmacológica, seja
ela voltada ao combate do vírus ou ao tratamento paliativo da patologia. Dentre
as dúvidas levantadas por alguns estudos inconclusivos, houve o questionamento
que aponta para o aumento do risco de complicações clínicas no paciente com
COVID-19 e o uso de anti-inflamatórios como o ibuprofeno.
O ibuprofeno é um agente anti-inflamatório não esteroidal que inibe a produção de prostaglandinas (substâncias que estimulam a inflamação) o que gera atividade anti-inflamatória, analgésica e antipirética. Seu mecanismo de ação não diverge de outros agentes da mesma classe terapêutica, o que os remete a um pensamento direto.
Para essa pergunta que ainda não temos a resposta concreta, apesar do mecanismo ação dos AINES serem semelhantes, estas drogas possuem características cinéticas diferentes e podem agir em tecidos e locais diferentes do nosso organismo, o que aponta para efeitos divergentes e alterações clínicas diversas no uso destas drogas.
Um exemplo clássico
disso é a ação do paracetamol e da dipirona, os quais atuam no sistema
hipotalâmico e sobre o controle efetivo da dor, agindo na redução da febre do
paciente que necessita destes fármacos. Porém, estas duas drogas possuem
pequena ação periférica e consequentemente não promovem efeitos sobre a
regulação da inflamação.
O que aconteceu com o ibuprofeno em relação à COVID-19?
Algumas análises
realizadas por pesquisadores franceses apresentaram como resultado o aumento da
expressão da enzima ACE2, promovido pela possível ação do ibuprofeno. Esta
enzima está presente em células epiteliais do pulmão, intestino, rim e vasos
sanguíneos, sendo que o vírus utiliza a enzima como mecanismo de entrada em
suas células-alvo. Considerando este fator, a ação do ibuprofeno poderia
agravar o quadro clínico de pacientes infectados pela SARS-CoV-2 facilitando a
entrada do vírus em suas células.
Por se tratarem de
estudos preliminares e não definitivos, devemos lembrar que este é um possível
mecanismo ainda não consolidado. Além disso, a Organização Mundial da Saúde não
proíbe a utilização do ibuprofeno para pacientes com COVID-19. Entretanto, o
Ministério da Saúde no Brasil recomenda a indicação do paracetamol e dipirona
como terapêutica no controle da febre destes pacientes.
Com o avançar da doença e dos estudos científicos, esperamos que em breve tenhamos mais respostas do que perguntas. O que podemos deixar como recomendação clínica é a prevenção contra a infecção através de todas as formas divulgadas pelos órgãos de saúde.
Quanto à febre, medidas não farmacológicas podem ajudar no controle da temperatura, como um banho morno abaixo da temperatura do corpo e hidratação que é essencial; além do uso de antitérmicos, neste caso do paracetamol como primeira escolha e dipirona como uma outra opção, deve ser empregado. Lembrando que em febre constante e insistente, devemos intercalar o uso de dois antitérmicos, como a dipirona e o paracetamol, o que resulta em uma redução mais efetiva no controle da temperatura.
Contra a COVID-19 a prevenção ainda continua sendo o melhor remédio.
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Autor: Juares de Souza, Farmacêutico.
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