Olá, querido leitor!
Todos sabemos a enxurrada de informações a que somos submetidos, diariamente, e como sua ocorrência pode ser exaustiva. No entanto, algumas temáticas ainda são abordadas de forma limitada, dada a sua complexidade e ausência de consenso em seu entendimento global.
Uma delas é a Hipóxia Silenciosa (“Happy Hypoxia”), amplamente divulgada e muito pouco entendida pelo público em geral com tendência a ser compreendida apenas como foco de aplicação regular de oxímetros de pulso no monitoramento do estado geral do paciente. Assim, para esclarecer o mecanismo geral de instalação desse distúrbio orgânico, é necessário entender o conceito base da fisiopatogenia.
Desse modo, a que se referem os termos Hipóxia e Hipoxemia?
Hipóxia: é definida pela redução na oferta de oxigênio aos tecidos orgânicos, em decorrência dos mais diversos eventos, sejam eles: baixa pressão parcial de oxigênio, déficit na capacidade de transporte ou inibição do uso.
Hipoxemia: tende a ser abordada de forma simplista, sendo definida apenas pela deficiência anormal de concentração de oxigênio no sangue arterial (PaO2), contudo a simples alteração dos parâmetros não deve ser considerada, unicamente, visto que fatores adicionais, como a idade do paciente, podem modificar os padrões de “normalidade” a serem considerados.
Após compreendermos os conceitos que definem este fenômeno, surge a questão:
Então, qual o aspecto diferencial de sua ocorrência em pacientes com COVID-19?
Para responder a esse questionamento, é preciso compreender que a identificação de padrões fora da regularidade do cotidiano clínico depende do conhecimento prévio acerca do perfil de apresentação comum, logo, devemos ser capazes de identificar os sinais clínicos de hipóxia, para diferenciá-la de seu caráter em alguns pacientes infectados pelo SARS-COV 2.
Sinais clínicos de hipóxia / hipoxemia:
- Dispneia (“falta de ar).
- Cefaleia (“dor de cabeça)
- Fadiga mental
- Deficiência visual
- Tonturas, náuseas ou conculsões
- Cianose

Ao conhecer os pródomos de identificação, define-se que o aspecto distintivo da Hipóxia Silenciosa é a ausência de dispneia, ou seja, o paciente não relata queixa de dificuldade para a manutenção do padrão respiratório regular, o que dificulta o achado de distúrbio orgânico que acompanha a ocorrência de hipoxemia nos diversos tecidos orgânicos, sendo o sinal clínico focal de representação de gravidade extrema e de risco acentuado para a ocorrência de insuficiência respiratória.
Entretanto, nem todos os pacientes apresentam esse extremo clínico, então:
Quais são os fatores predisponentes a sua ocorrência?
Fatores de risco
- Pessoas acima de 65 anos.
- Diabéticos.
- Pacientes com ocorrência de anosmia ou hiposmia.
Além da dificuldade para a identificação clínica de sua presença, o diagnóstico de hipóxia silenciosa por exames complementares também pode ser dificultado, em razão das limitações do uso de oxímetros de pulso, aplicados na prática médica e pela equipe de saúde. Desse modo, deve-se evitar os vieses de aplicação por meio do conhecimento de quais seriam eles.
Portanto, quais as limitações dos dados clínicos fornecidos pela aferição por oxímetro de pulso?
- Detecção de alteração limitada em casos de saturação de oxigênio abaixo de 80% (SaO2 < 80%).
- Pouca confiabilidade nos resultados obtidos em pacientes em estado geral crítico.
- Aferição afetada pela pigmentação da pele ou erros na aferição.
- Afetada pela presença de febre que altera as relações de concordância entre PaO2 e SaO2 na definição de ocorrência de hipóxia.
Dessa forma, a Hipóxia Silenciosa necessita de abordagem específica para que os dados clínicos do paciente sejam coletados com a melhor alternativa e com o menor viés de aferição possível de forma a facilitar a detecção precoce e correta do distúrbio, antes que eventos de desfecho de risco aumentado venham a ocorrer e ocasionar debilidade ou aumento da probabilidade de morte neste indivíduo.
Mas, qual é realmente a explicação neurofisiológica para a sua ocorrência?
Para compreendermos o mecanismo alterados, vamos abordar o mecanismo regular de sinalização da hipóxia primeiramente:
Mecanismo normal

Mecanismo alterado (Hipóxia Silenciosa)

Mesmo com a compreensão do mecanismo geral de ocorrência, informações essenciais ainda se mantêm obscurecidas em relação aos detalhes minuciosos do distúrbio de sinalização que permite a instalação da hipoxemia, sem a demonstração de sinais clínicos de isquemia ou esforço respiratório, ainda que algumas teorias sejam citadas como prováveis.
Quais as possíveis explicações para a resposta diferencial em pacientes COVID com hipóxia silenciosa?
- Pacientes com manifestação de anosmia ou hiposmia podem ser apresentar sinalização defeituosa aos quimiorreceptores sensíveis à oxigênio pela expressão diferencial da enzima conversora de angiotensina 2 (ECA 2) nas células que a expressam, nas quais o vírus se fixa e provoca uma tempestade de citocinas, responsável pela sinalização da infecção respiratória aguda pelo Coronavírus, apesar de seus mecanismos minuciosos ainda necessitarem de maiores estudos e descrição mais profunda.
- Invasão direta do sistema cortico-límbico pelo vírus em decorrência de seu neurotropismo pelas células cerebrais com expressão de ECA 2
- Gatilho de fenômenos neurológicos ou pulmonares autoimunes

FONTE DA IMAGEM: NOURI-VASKEH et al.,2020
Todas as três teorias podem ser consideradas e necessitam de aprofundamento para maior compreensão.
O que sabemos até o momento é que a detecção precoce é imprescindível e pode salvar vidas, por esta razão não se recomenda aguardar melhora clínica em ambiente domiciliar, em caso de sinais de isquemia, de hipoxemia ou de ausência de mudança do quadro, busque ajuda no serviço de saúde indicado!
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
REFERÊNCIAS:
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NOURI-VASKEH, Masoud; SHARIFI, Ali; KHALILI, Neda; ZAND, Ramin; SHARIFI, Akbar. Dyspneic and non-dyspneic (silent) hypoxemia in COVID-19: Possible neurological mechanism. Clinical Neurology and NeurosurgeryElsevier B.V., 2020. ISSN: 18726968. DOI: 10.1016/j.clineuro.2020.106217. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32947193/. Acesso em: 6 abr. 2021.
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