A hipotermia neonatal permanece como um dos distúrbios mais frequentes e potencialmente perigosos no período pós-natal imediato. Apesar dos avanços tecnológicos e organizacionais nas unidades obstétricas e neonatais, muitos recém-nascidos ainda enfrentam algum grau de perda térmica logo após o nascimento.
Além disso, a hipotermia se relaciona diretamente ao aumento de mortalidade, de distúrbios metabólicos e de complicações cardiovasculares, o que exige das equipes assistenciais uma abordagem sistemática e imediata.
Fisiologia térmica neonatal
O recém-nascido enfrenta um desafio térmico singular desde o primeiro minuto de vida. A transição de um ambiente intrauterino estável, com temperatura média entre 37°C e 37,5°C, para um ambiente extrauterino muito mais frio gera um rápido gradiente de perda de calor. Como consequência, o RN depende de mecanismos próprios de termorregulação. Entretanto, esses mecanismos ainda se mostram imaturos, principalmente nos prematuros e nos pequenos para a idade gestacional.
Além disso, diversos fatores amplificam a vulnerabilidade térmica:
- Elevada relação superfície corporal/massa
- Limitada reserva de gordura subcutânea
- Dificuldade de vasoconstrição periférica sustentada
- Dependência da termogênese química por gordura marrom.
Portanto, o RN perde calor facilmente por evaporação, condução, radiação e convecção, e essa perda ocorre de forma cumulativa se a equipe não interrompe o ciclo rapidamente.
Definição e classificação da hipotermia neonatal
A literatura utiliza consenso internacional que define hipotermia neonatal como temperatura axilar ou central < 36,5°C. Embora muitos profissionais considerem valores entre 36,0°C e 36,4°C apenas como alerta moderado, esses valores já indicam estresse térmico e aumentam o risco de evolução para hipotermia moderada.
Assim, a classificação mais utilizada se organiza da seguinte forma:
- 36,0°C a 36,4°C: hipotermia leve
- 32,0°C a 35,9°C: hipotermia moderada
- < 32,0°C: hipotermia grave
Essa estratificação facilita o manejo clínico, pois o risco metabólico, cardiovascular e infeccioso cresce proporcionalmente à queda da temperatura.
Fatores de risco e mecanismos de perda de calor
Diversos fatores aumentam a probabilidade de hipotermia neonatal, e a compreensão desses fatores permite a construção de protocolos mais eficientes. Entre os principais, destacam-se:
- Prematuridade
- Baixo peso ao nascer
- Parto cesáreo sem contato pele a pele imediato
- Necessidade de reanimação neonatal
- Ambientes com temperatura inadequada
- Umidade elevada associada a ventilação insuficiente
- Atraso no secamento pós-natal
- Procedimentos prolongados na mesa de reanimação
- Infecções congênitas
- Distúrbios metabólicos
Além disso, a presença de comorbidades, como asfixia perinatal, sepse, hemorragias ou hipoglicemia, reduz a capacidade termogênica, aumentando a gravidade dos quadros.
Sinais clínicos
O reconhecimento precoce dos sinais clínicos determina o sucesso do manejo. Entretanto, a apresentação da hipotermia neonatal varia conforme a intensidade e a velocidade da perda térmica. Como resultado, o profissional deve manter vigilância contínua, especialmente durante a primeira hora de vida.
Os principais sinais incluem:
Sinais centrais
- Temperatura < 36,5°C
- Palidez ou moteamento cutâneo
- Extremidades frias
- Respiração irregular
- Episódios de apneia
- Bradicardia
- Sucção fraca
- Irritabilidade seguida de letargia
Sinais metabólicos
O RN em hipotermia utiliza rapidamente suas reservas de glicogênio para gerar calor. Portanto, a hipoglicemia aparece com frequência e pode provocar convulsões, hipotonia e coma se não houver intervenção oportuna. Além disso, a acidose metabólica surge como consequência da produção de lactato decorrente do metabolismo anaeróbico.
Complicações e riscos associados a hipotermia neonatal
A hipotermia neonatal desencadeia uma cascata fisiológica que deteriora progressivamente a estabilidade cardiorrespiratória. Assim, diversos estudos demonstram que a mortalidade aumenta significativamente quando a temperatura do RN permanece abaixo de 36°C durante a admissão na UTIN.
Alterações cardiorrespiratórias
A queda térmica provoca vasoconstrição periférica, que inicialmente preserva a perfusão central. Entretanto, com o agravamento do quadro, essa resposta se torna inadequada, reduz o retorno venoso e compromete o débito cardíaco. Dessa forma, como consequência, o RN pode evoluir para bradicardia, hipotensão e necessidade de suporte inotrópico.
No sistema respiratório, a hipotermia aumenta o consumo de oxigênio e dificulta a expansão pulmonar. Assim, o risco de apneia, hipoxemia e insuficiência respiratória cresce de maneira significativa.
Alterações metabólicas
A hipoglicemia representa uma das complicações mais comuns. Além dela, há risco elevado de acidose metabólica, aumento de lactato e hipoxemia tecidual.
Alterações imunológicas
A hipotermia prejudica a função leucocitária e reduz a resposta inflamatória adequada. Como resultado, o RN apresenta maior vulnerabilidade a infecções, especialmente sepse precoce.
Diagnóstico da hipotermia neonatal
O diagnóstico de hipotermia neonatal depende essencialmente da medição direta da temperatura corporal. Portanto, a aferição deve ocorrer sempre na sala de parto, durante o transporte e nas primeiras horas de internação.
O uso de termômetro eletrônico axilar se mantém como padrão clínico. Entretanto, em casos de instabilidade grave, muitos serviços recomendam aferição retal para avaliação mais precisa de temperatura central.
Além disso, a investigação complementar inclui:
- Glicemia capilar seriada
- Gasometria para avaliação de acidose
- Lactato
- Hemograma e PCR quando há suspeita infecciosa
- Saturação contínua de oxigênio.
Condutas terapêuticas
O manejo da hipotermia neonatal exige rapidez, progressão controlada de temperatura e monitorização rigorosa. Portanto, condutas estruturadas favorecem a recuperação térmica e evitam efeitos adversos, como recidiva ou hipertermia.
Medidas imediatas
- Secar completamente o recém-nascido: a secagem remove líquido amniótico e reduz perda térmica por evaporação
- Garantir contato pele a pele: quando possível, o contato pele a pele melhora a estabilidade cardiorrespiratória e reduz a probabilidade de perda térmica adicional
- Aquecimento ativo em mesa radiant ou incubadora: neonatos com hipotermia moderada ou grave devem entrar imediatamente em incubadora aquecida com controle servo
- Uso de sacos plásticos ou envoltórios térmicos: amplamente adotados para prematuros < 32 semanas, reduzem perda evaporativa.
Aquecimento controlado
O aquecimento deve ocorrer de maneira gradual. A elevação rápida da temperatura pode causar vasodilatação abrupta, hipotensão e desequilíbrio metabólico. Assim, muitos protocolos recomendam incremento térmico de 0,5°C a 1°C por hora.
Reposição metabólica
- corrigir hipoglicemia com glicose EV, se necessário
- monitorizar glicemia a cada 30–60 minutos
- hidratação venosa conforme avaliação hemodinâmica
Tratamento de causas subjacentes
Se o RN apresenta sinais infecciosos, o profissional deve iniciar antibioticoterapia empírica. Além disso, em casos de asfixia perinatal, a equipe deve estabilizar função respiratória e hemodinâmica simultaneamente ao manejo térmico.
Prevenção da hipotermia neonatal
A prevenção se torna mais eficaz quando a equipe integra ações estruturadas. Portanto, algumas estratégias essenciais incluem:
- Manter sala de parto entre 23°C e 26°C
- Realizar secagem imediata e completa
- Garantir contato pele a pele precoce
- Utilizar touca térmica e cobertores pré-aquecidos
- Transportar o RN em incubadora aquecida
- Treinar equipes para reconhecer sinais precoces.
Além disso, recém-nascidos prematuros ou críticos devem contar com monitorização contínua de temperatura durante todo o período de estabilização.
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Referências bibliográficas
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