Introdução
Em 31 de dezembro de 2019, após notificações crescentes de pneumonia com causa desconhecida, em moradores da cidade de Wuhan, província de Hubei, na China, a Organização Mundial de Saúde (OMS) emitiu um comunicado sobre a circulação de uma possível nova doença. Em 11 de março de 2020, a COVID-19, doença causada pela infecção pelo vírus de RNA SARS-COV-2, foi declarada pela OMS como uma pandemia. Embora o vírus possa infectar indivíduos de qualquer faixa etária, os casos mais graves ocorreram principalmente em pessoas com 55 anos ou mais. Outrossim, aqueles que possuem comorbidades como hipertensão arterial sistêmica (HAS), diabetes mellitus e doenças cardiovasculares também apresentam risco elevado de evoluírem para forma mais grave.
Existe relação entre Hipertensão arterial e a infecção pelo SARS-COV-2?
Inicialmente, observou-se uma incidência elevada de pacientes hipertensos que foram contaminados pelo agente SARS-COV-2.Diante disso, a partir de estudos realizados na China foi constatado que de 2.877 pacientes que testaram positivo para COVID-19, 29,5% possuíam diagnóstico para HAS. Em outro estudo com 462 pacientes, 126 eram hipertensos, dos quais 25 evoluíram para estado grave da doença. Além disso, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), a mortalidade média da doença causada pelo Sars-Cov-2 para a população em geral gira em torno de 3%, índice que se eleva para 10,5% em pessoas portadoras de doenças cardiovasculares. Sendo assim, fica evidente a estreita ligação entre infectados pela COVID-19 e a hipertensão arterial sistêmica, sendo essa fator de risco para complicações.
O que a ciência sabe sobre COVID-19 relacionado à hipertensão arterial?
Diversos estudos continuam sendo realizados para elucidar a relação entre o vírus SARS-COV-2, agente etiológico da COVID-19, e a hipertensão arterial sistêmica(HAS). Nesse viés, embora a patogenia não esteja completamente descrita, evidências indicam que o vírus, a partir se sua proteína spike, penetra nas células epiteliais alveolares tipo II, por meio do receptor da enzima conversora de angiotensina (ECA 2). Sendo essa mais prevalente no organismo de pacientes portadores de HAS, visto que o uso de medicamentos como inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) e bloqueadores do receptor de angiotensina 2 (BRA), diariamente usados para controle da hipertensão, aumentam a expressão dos receptores da ECA-2 em diferentes tecidos, incluindo o pulmão.Por isso esses indivíduos estariam mais susceptíveis a infecção pelo vírus e também ao desenvolvimento das formas mais graves. A downregulation, ou diminuição, da atividade da ECA2 nos pulmões facilita a infiltração inicial de neutrófilos e pode resultar no acúmulo local de Angiotensina II, ativando o SRAA.Quanto a terapêutica, existem algumas divergências quanto à manutenção ou não do tratamento da hipertensão com essas classes de medicamentos. Parte dos pesquisadores defende a substituição por outras classes de anti-hipertensivos, tais como: inibidores dos canais de cálcio (que não parecem apresentar interferência no aumento da expressão de ECA2); bloqueadores beta-adrenérgicos (reduzem a liberação de renina pelos rins); inibidores de ECA1 (diminuem a clivagem de angiotensina I em angiotensina II).
O que é ECA-2 e qual seu papel na patogenia da COVID-19?
A enzima conversora de angiotensina II (ECA 2) é uma enzima homóloga à ECA e não uma isoenzima, como é confundida. Nesse sentido, a ECA encontra-se presente principalmente no pulmão, vasos sanguíneos, rim e coração, enquanto que a ECA 2 é prevalente no trato gastrointestinal, baço, fígado, pulmão, rim, coração e vasos sanguíneos.
No tocante às suas funções, a ECA é responsável pela conversão de angiotensina I (Ang I) em angiotensina II (Ang II) induzindo a vasoconstrição e remodelamento vascular. Ao passo que a ECA 2 cliva resíduo de angiotensina I, gerando angio 1-9 inativa e cliva, também um resíduo da ang II para gerar Ang 1–7, a qual atua nos receptores MAS como protetor cardiovascular, apresentando efeitos funcionais vasodilatadores, anti proliferativos e antifibróticos. Nesse viés, estudos indicam que além do SARS-COV-2 penetrar na célula via ECA II, o vírus reduz a expressão dessa enzima, incapacitando que essa exerça seus efeitos protetivos vasodilatadores e anti fibróticos, o que pode estar diretamente ligado ,conjuntamente com a tempestade de citocinas, ao quadro inflamatório intenso.
Fonte: https://www.informasus.ufscar.br/hipertensao-e-covid-19-abordagem-academica/
conclusão
Portanto, com base nos estudos realizados, evidencia-se a estreita relação existente entre pacientes portadores de hipertensão arterial sistêmica (HAS) e indivíduos sob o risco de desenvolver a forma mais grave da COVID-19. Acredita-se que esses pacientes possuem a concentração da enzima ECA-2 elevada, o que propicia mais sítios de ligação para o vírus SARS-COV-2 e por conseguinte maior infectividade e também quadros inflamatórios mais severos. Sendo assim, é de suma importância a prevenção, sendo a imunização acompanhada de distanciamento social e uso de máscaras, medidas necessárias e eficazes para o combate a disseminação da COVID-19.
Autora: Mariana Pimenta
Instagram:@maripimentta
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
Scholz, Jaqueline Ribeiro et al. COVID-19, Sistema Renina-Angiotensina, Enzima Conversora da Angiotensina 2 e Nicotina: Qual a Inter-Relação?. Arquivos Brasileiros de Cardiologia [online]. 2020, v. 115, n. 4 [Acessado 24 Agosto 2021] , pp. 708-711. Disponível em:
Silva MS, Pinheiro FSG, Higino KLS, Santos AP, Santos RL. Evidências científicas clínicas entre o novo Coronavírus e a hipertensão arterial: uma revisão integrativa. J. nurs. health. 2020;10(n.esp.):e20104035
ESPÓSITO.Maria Clara Cavalcante. Hipertensão e COVID-19:Uma abordagem acadêmica. Acesso em: 24 de Ago de 2021. Disponível em: https://www.informasus.ufscar.br/hipertensao-e-covid-19-abordagem-academica/