Herniação cerebral grave: confira o caso clínico e estude para esse tema tão importante para sua prática na emergência!
Caso clínico
Dados do Paciente
- Nome: João Silva
- Idade: 56 anos
- Sexo: masculino
- Ocupação: engenheiro
- História Médica Prévia: hipertensão arterial, diabetes mellitus tipo 2, hipercolesterolemia
- Medicações em uso: Losartana, Metformina, Atorvastatina
Queixa principal
Dor de cabeça intensa e súbita, acompanhada de vômitos e confusão mental.
História da doença atual
Paciente relata que estava em casa quando há 1 hora começou a sentir uma cefaleia intensa, descrita como a pior da sua vida, seguida de vômitos. Sua esposa notou que ele estava confuso e desorientado, com dificuldade para falar e andar. A dor de cabeça e a confusão pioraram rapidamente, levando a perda de consciência antes de chegar ao hospital. Esposa nega episódios anteriores. Nega outros sintomas.
Exame físico na admissão
- Estado geral: paciente inconsciente, sem resposta a estímulos verbais, Glasgow Coma Scale (GCS) 6.
- Sinais vitais:
- Pressão arterial: 190/110 mmHg
- Frequência cardíaca: 52 bpm
- Frequência respiratória: 10 rpm
- Saturação de oxigênio: 95% em ar ambiente
- Neurológico:
- Pupilas anisocóricas, com a pupila direita dilatada e não reativa à luz.
- Reflexos tendinosos profundos: hiperativos à esquerda, diminuidos à direita.
- Resposta plantar: extensora à direita (sinal de Babinski positivo), ausente à esquerda.
- Cardiovascular: ritmo cardíaco regular, sem sopros.
- Respiratório: murmúrio vesicular presente, sem ruídos adventícios.
- Abdômen: sem alterações significativas.
- Extremidades: sem edema, pulsos periféricos presentes e simétricos.
O que é herniação cerebral grave?
A herniação cerebral grave ocorre quando o tecido cerebral desloca-se anormalmente devido ao aumento da pressão intracraniana (PIC).
Assim, esse deslocamento pode comprimir estruturas cerebrais vitais, incluindo o tronco cerebral, levando a déficits neurológicos severos e risco de morte. As causas comuns incluem hemorragias intracerebrais, trauma craniano, tumores, infecções, e edema cerebral.
Fatores de risco
Os fatores de risco para herniação cerebral são variados e podem ser divididos em categorias de acordo com a etiologia. Primeiramente, condições que causam aumento da pressão intracraniana são as principais responsáveis. Entre elas, os traumatismos cranioencefálicos são especialmente relevantes, uma vez que podem levar a hematomas epidurais, subdurais ou intracerebrais, resultando em compressão do tecido cerebral. Além disso, acidentes vasculares cerebrais (AVC), tanto isquêmicos quanto hemorrágicos, podem causar edema cerebral significativo e aumento da pressão intracraniana.
Ademais, tumores cerebrais representam um importante fator de risco. Tumores primários do cérebro, como gliomas ou meningiomas, assim como metástases de neoplasias de outras partes do corpo, podem ocupar espaço dentro do crânio, levando a um aumento da pressão intracraniana. Da mesma forma, abscessos cerebrais, que são coleções de pus dentro do tecido cerebral devido a infecções, também podem causar herniação se não tratados adequadamente.
Outros fatores de risco incluem condições que levam ao acúmulo de líquido no cérebro. Por exemplo, a hidrocefalia, que é a acumulação de líquido cefalorraquidiano nos ventrículos cerebrais, pode aumentar a pressão intracraniana se o fluxo do líquido for obstruído. Do mesmo modo, infecções como meningite ou encefalite podem causar inflamação e edema cerebral, contribuindo para o risco de herniação.
Tipos de herniação cerebral grave
Os tipos de herniação cerebral são distintos e têm características específicas. Primeiramente, a herniação subfalcina ocorre quando há o deslocamento do giro do cíngulo sob a foice do cérebro. Em seguida, na herniação transtentorial descendente (uncal), caracteriza-se pelo deslocamento do lobo temporal medial através da tenda do cerebelo.
Por outro lado, na herniação transtentorial ascendente, observa-se o deslocamento do cerebelo para cima através da tenda do cerebelo. Além disso, a herniação tonsilar acontece quando as amígdalas cerebelares se deslocam através do forame magno. Por fim, na herniação extracraniana, verifica-se o deslocamento do tecido cerebral para fora do crânio através de uma fratura ou defeito cirúrgico.

Manifestações clínicas
Os sintomas de herniação cerebral grave são diversos e frequentemente severos. Primeiramente, as alterações no nível de consciência são comuns e podem incluir confusão, letargia e até coma. Além disso, uma cefaleia intensa é frequentemente descrita pelos pacientes como a pior dor de cabeça de suas vidas. Outro sintoma significativo são os vômitos, que comumente ocorrem em jato devido ao aumento da pressão intracraniana. Todos esses sintomas foram vistos no paciente do caso clínico.
Ademais, as pupilas anisocóricas são um sinal crítico, com uma pupila dilatada e não reativa à luz. Também, os déficits neurológicos focais podem manifestar-se como fraqueza ou perda de sensibilidade em partes do corpo. Convulsões, resultantes de episódios de atividade elétrica anormal no cérebro, são igualmente preocupantes.

Por fim, a respiração irregular é um sintoma grave, refletindo padrões respiratórios anormais devido à compressão do tronco cerebral. Assim, todos esses sintomas indicam a necessidade de intervenção médica urgente para evitar danos neurológicos permanentes ou morte.
Como é feito o diagnóstico da herniação cerebral grave?
O diagnóstico da herniação cerebral grave é um processo meticuloso que envolve várias etapas e exames complementares. Primeiramente, a avaliação clínica é fundamental, onde o médico observa os sinais e sintomas característicos da condição, como já citados anteriormente.
Exames de imagem
Além disso, exames de imagem são essenciais para confirmar o diagnóstico. A tomografia computadorizada (TC) de crânio é geralmente o primeiro exame solicitado, pois permite uma visualização rápida e detalhada do cérebro, revelando a presença de hemorragias, massas, edema cerebral e o deslocamento das estruturas cerebrais.
Em alguns casos, a ressonância magnética (RM) pode ser indicada para fornecer detalhes adicionais sobre a localização e extensão da herniação, bem como para identificar a causa subjacente, como tumores ou lesões vasculares.
Exames de imagem do paciente do caso clínico
A TC do paciente revelou uma hemorragia intracerebral extensa no lobo temporal direito com efeito de massa significativo e desvio da linha média de 8 mm. Evidência de herniação transtentorial descendente.
Já a RMN confirmou os achados da TC, mostrando compressão do tronco cerebral.
Monitorização PIC
Ademais, a monitorização da pressão intracraniana (PIC) é uma ferramenta essencial no manejo de pacientes com suspeita de herniação cerebral grave.
Através da inserção de um cateter no crânio, é possível medir diretamente a pressão dentro do crânio e ajustar o tratamento de acordo com os valores obtidos. Isso é particularmente importante para guiar intervenções terapêuticas e prevenir complicações adicionais.
Laboratoriais
Por fim, exames laboratoriais complementam o diagnóstico, avaliando possíveis causas subjacentes e complicações. Um hemograma completo pode revelar infecções ou anemia, enquanto um coagulograma é útil para avaliar a função de coagulação, especialmente em casos de hemorragia intracerebral. Exames bioquímicos podem também ajudar a identificar distúrbios eletrolíticos e metabólicos que podem contribuir para o quadro clínico.
Em conjunto, esses passos diagnósticos permitem uma avaliação abrangente e a formulação de um plano de tratamento adequado para pacientes com herniação cerebral grave.
Manejo do paciente com herniação cerebral grave na emergência
Ao chegar na emergência, o manejo do paciente deve ser da seguinte forma:
- Intubação orotraqueal para proteção das vias aéreas e controle da ventilação
- Administração de manitol 20% para reduzir a pressão intracraniana
- Elevação da cabeceira a 45º graus para facilitar o retorno venoso cerebral
- Monitorização contínua da pressão intracraniana (PIC).
Veja também:
Intervenção cirúrgica
Realizada craniectomia descompressiva emergencial para aliviar a pressão intracraniana e remover o hematoma.
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Referência bibliográfica
- Evaluation and management of elevated intracranial pressure in adults. Edward R Smith, MD. UpToDate.
- Líquido cefalorraquidiano: Fisiologia e utilidade de um exame em estados de doença. Kimberly S Johnson, MD. UpToDate.
Sugestão de leitura complementar
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