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Hepatócitos: funções e importância na prática clínica

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Os hepatócitos são as principais células funcionais do fígado, correspondendo a cerca de 80% da massa celular desse órgão vital. Dotados de alta capacidade metabólica, desempenham um papel central na manutenção da homeostase corporal, participando de processos como o metabolismo de carboidratos, lipídios e proteínas, a biotransformação de substâncias tóxicas e a síntese de proteínas plasmáticas essenciais. Além disso, são responsáveis pela produção e secreção da bile, fundamental para a digestão de gorduras e a eliminação de metabólitos.

A importância dos hepatócitos na prática clínica é ampla, uma vez que sua disfunção está associada a diversas condições patológicas, incluindo hepatites, esteatose, cirrose e insuficiência hepática aguda.

Dessa forma, compreender suas funções e mecanismos de lesão é essencial para o diagnóstico, tratamento e prevenção das doenças hepáticas que impactam significativamente a saúde pública e a qualidade de vida dos pacientes.

Estrutura e características dos hepatócitos

Os hepatócitos são as principais células do fígado e apresentam-se organizados em cordões de uma ou duas camadas, separados por sinusóides, capilares especializados que permitem intensa troca entre o sangue e o tecido hepático. Essa disposição garante a eficiência metabólica e funcional do órgão.

Cada hepatócito tem formato poligonal, mede cerca de 25 a 40 µm, possui citoplasma eosinofílico abundante e núcleo central único, geralmente redondo ou ovalado.

A membrana plasmática do hepatócito possui três superfícies funcionais distintas:

  • Basolateral (sinusoidal): voltada para os sinusóides e responsável pela troca com o sangue;
  • Canalicular (apical): forma os canalículos biliares junto a hepatócitos vizinhos;
  • Lateral: conecta-se a outras células por junções especializadas.

Ademais, o citoplasma contém retículo endoplasmático abundante, grande quantidade de glicogênio (detectável pela coloração PAS) e pigmentos como ferro e lipofuscina.

A bile, normalmente não observável, pode ser identificada em condições colestáticas, com coloração verde-amarelada, concentrando-se nos canalículos biliares da zona 3 e nos ductos portais. Os canalículos se conectam aos canais de Hering, que conduzem a bile até os ductos biliares intra-hepáticos.

A vascularização hepática é peculiar, pois o fígado recebe simultaneamente sangue arterial (25%) pela artéria hepática e sangue venoso (75%) pela veia porta, rico em nutrientes provenientes do trato gastrointestinal. Essa mistura flui pelos sinusóides fenestrados, que atravessam os cordões de hepatócitos, favorecendo trocas intensas em uma área de contato extremamente ampla.

Ademais, os lóbulos hepáticos são unidades estruturais hexagonais, organizadas em torno de uma veia central, permitindo a drenagem eficiente do sangue processado para a veia hepática e, depois, para a veia cava inferior. Essa disposição assegura que os hepatócitos sejam as primeiras células a entrar em contato com substâncias absorvidas pelo intestino, tanto nutrientes quanto toxinas.

Principais funções metabólicas dos hepatócitos

Os hepatócitos desempenham papel central no metabolismo energético e lipídico do organismo, sendo fundamentais para a homeostase da glicose e dos lipídios.

O fígado é um dos primeiros órgãos a captar insulina da circulação, removendo até 80% do hormônio antes que alcance os tecidos periféricos. A endocitose mediada por receptores de insulina desencadeia a ativação de vias de sinalização intracelulares responsáveis por promover o armazenamento de lipídios e glicose.

Após a ingestão alimentar, a insulina, secretada pelas células β pancreáticas, atua sobre os hepatócitos estimulando o armazenamento de glicose sob a forma de glicogênio, processo essencial para a regulação glicêmica. Esse efeito equilibra-se pela ação do glucagon, hormônio catabólico das células α pancreáticas, que promove a liberação de glicose através da via cAMP-PKA, assegurando o fornecimento energético durante o jejum.

Além do controle glicídico, os hepatócitos têm papel essencial no metabolismo lipídico, sendo responsáveis pela captação, armazenamento e liberação de lipídios. Eles absorvem remanescentes de quilomícrons provenientes da dieta e secretam lipoproteínas de densidade muito baixa (VLDL), que transportam triglicerídeos e colesterol para os tecidos periféricos.

Os hepatócitos também são responsáveis pela remoção de lipoproteínas plasmáticas, principalmente as de baixa densidade (LDL). Além disso, outra função vital dos hepatócitos é o transporte reverso do colesterol, no qual lipoproteínas de alta densidade (HDL) removem o colesterol dos tecidos periféricos e o devolvem ao fígado para excreção biliar.

Por fim, os hepatócitos armazenam triglicerídeos sob a forma de gotículas lipídicas (GLs) no citoplasma, que funcionam como reservas energéticas utilizadas em períodos de jejum. Contudo, o acúmulo excessivo dessas gotículas está relacionado à doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA), condição altamente prevalente e potencialmente evolutiva para esteato-hepatite e cirrose.

Função de desintoxicação e biotransformação

Os hepatócitos exercem papel essencial na desintoxicação e biotransformação de substâncias potencialmente nocivas, funcionando como uma verdadeira barreira protetora do organismo.

Graças à sua rica vascularização, todo o sangue proveniente do trato gastrointestinal passa primeiramente pelo fígado, o que permite que o órgão processe e neutralize toxinas endógenas e exógenas provenientes de alimentos, bebidas, medicamentos e do ambiente.

Essas substâncias, em sua maioria lipossolúveis, transformam-se no interior dos hepatócitos em compostos hidrossolúveis por meio da ação de um amplo conjunto de enzimas do citocromo P450, localizadas na membrana do retículo endoplasmático. Portanto, esse sistema enzimático converte as toxinas em metabólitos menos tóxicos e mais facilmente elimináveis pelo suor, urina ou bile, garantindo a manutenção da homeostase metabólica.

Entretanto, quando há excesso de substâncias tóxicas, a capacidade de metabolização hepática é ultrapassada, levando ao acúmulo de metabólitos reativos, que podem danificar estruturas celulares e desencadear lesões hepatocelulares. Um exemplo clássico é o consumo crônico de álcool, que sobrecarrega o metabolismo hepático e gera subprodutos altamente lesivos.

Função secretora: síntese de proteínas e produção da bile

Os hepatócitos são células altamente secretoras, repletas de organelas membranosas como retículo endoplasmático (RE), complexo de Golgi e mitocôndrias, o que reflete seu intenso metabolismo e papel essencial na síntese e exportação de proteínas e na produção de bile.

O RE rugoso e o Golgi atuam em conjunto no processamento, dobramento e glicosilação das proteínas recém-sintetizadas, antes que sejam empacotadas em vesículas e liberadas pela membrana basolateral.

Entre as principais proteínas secretadas pelos hepatócitos estão:

  • Albumina.
  • Transferrina.
  • Fibrinogênio.
  • α-fetoproteína.
  • Plasminogênio.
  • Diversos fatores de coagulação.

A membrana apical (canalicular), por sua vez, está envolvida na formação da bile, um fluido composto por colesterol, fosfolipídios, bilirrubina conjugada, eletrólitos e ácidos biliares, com papel fundamental na digestão e absorção de gorduras e na eliminação de toxinas e metabólitos endógenos.

A síntese da bile inicia-se no hepatócito, e seus constituintes são transportados para os canalículos biliares, pequenos espaços formados entre hepatócitos adjacentes. O fluxo biliar é impulsionado por gradientes osmóticos e segue pelos ductos biliares intra-hepáticos, onde é modificado por colangiócitos. Durante a digestão, a bile é liberada no intestino delgado através do ducto colédoco.

Em síntese, a função secretora dos hepatócitos envolve uma integração precisa entre síntese proteica, transporte vesicular, polaridade celular e atividade de transportadores de membrana. Essa organização garante tanto a produção contínua de proteínas plasmáticas vitais quanto a formação e excreção da bile, indispensável para a digestão lipídica e a eliminação de substâncias tóxicas do organismo.

Disfunção dos hepatócitos e implicações clínicas

A disfunção dos hepatócitos representa um dos principais mecanismos fisiopatológicos das doenças hepáticas e está intimamente ligada a alterações metabólicas, inflamatórias e estruturais do fígado. Esses prejuízos podem ser desencadeados por uma variedade de agentes, como toxinas, vírus, álcool, fármacos ou sobrecarga metabólica.

Diante das agressões, os hepatócitos ativam respostas de estresse celular que envolvem principalmente o retículo endoplasmático e as mitocôndrias, organelas essenciais para a síntese proteica e o metabolismo energético. O estresse do retículo endoplasmático e a disfunção mitocondrial promovem a liberação de espécies reativas de oxigênio (ROS) e de padrões moleculares associados a dano (DAMPs), que desencadeiam inflamação local e sistêmica.

Assim, o hepatócito, além de alvo do processo lesivo, torna-se também um agente ativo da inflamação hepática. Ele passa a liberar citocinas, quimiocinas e vesículas extracelulares que recrutam células imunes e ativam vias como NF-κB e NLRP3, intensificando o dano tecidual.

A inflamação persistente leva à ativação de células estreladas hepáticas e à deposição de matriz extracelular, eventos que culminam na fibrose. Em estágios mais avançados, pode levar à cirrose.

Com a progressão da lesão hepática, há diminuição da massa funcional dos hepatócitos e comprometimento do microambiente hepático, o que limita a regeneração celular. Essa falência funcional manifesta-se clinicamente por hipoglicemia, hipoalbuminemia, icterícia, coagulopatia e retenção de toxinas nitrogenadas. Em casos mais graves, surgem complicações como hipertensão portal, ascite e susceptibilidade aumentada a infecções.

Além de refletir o estágio evolutivo das doenças hepáticas, como hepatite alcoólica, doença hepática gordurosa não alcoólica e carcinoma hepatocelular, a disfunção dos hepatócitos também influencia diretamente o prognóstico. Nesse contexto, utiliza-se marcadores laboratoriais como tempo de protrombina, bilirrubinas e níveis de albumina para avaliar o grau de comprometimento hepatocelular e orientar decisões terapêuticas.

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Referências

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  • Krishna M. Anatomía microscópica del hígado. Clin Liver Dis (Hoboken). 2014 Jan 13;2(Suppl 5):109-112. Spanish. doi: 10.1002/cld.287. PMID: 31333838; PMCID: PMC6448680.
  • Schulze RJ, Schott MB, Casey CA, Tuma PL, McNiven MA. The cell biology of the hepatocyte: A membrane trafficking machine. J Cell Biol. 2019 Jul 1;218(7):2096-2112. doi: 10.1083/jcb.201903090. Epub 2019 Jun 14. PMID: 31201265; PMCID: PMC6605791.

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