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Hepatite Misteriosa – o que sabemos até o momento? | Colunista

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Notícia global nas últimas semanas, casos de hepatite aguda em crianças têm sido relatados em vários países da Europa, sobretudo Reino Unido, bem como nos Estados Unidos e Asia. Sejam casos individuais ou acometendo grupos maiores, essa doença tem causado grande preocupação. 

A investigação laboratorial dos agentes comuns de hepatite viral (HAV, HBV, HCV, HDV e HEV) produziu resultados negativos, levando ao uso do termo “hepatite aguda não hepA-E” ou, popularmente, “hepatite misteriosa” para descrever essa condição.

Epidemiologia

A hepatite aguda de origem desconhecida vem acometendo crianças em ao menos 20 países. Muito severa, acomete crianças entre 3-4 anos. A maioria dos casos exigem internação e cerca de 10% exige transplante de fígado. De acordo com especialistas da Universidade de Nottingham a doença não é nova, apesar de normalmente apresentar uma baixa incidência.

A partir do final de abril de 2022, mais de 200 casos foram notificados em todo o mundo: Reino Unido (n=114), Itália (n=17), Espanha (n=13), Israel (n=12), EUA (n=9), Dinamarca (n=6), Holanda e Irlanda (n=4), Japão (n=3), Áustria, Bélgica, França e Noruega (n=2),  Alemanha, Polônia e Romênia (n=1).

Apresentação Clínica

O quadro se caracteriza por dor abdominal, vômitos e diarreia. Sintomas respiratórios superiores (tosse, coriza, espirros, odinofagia) foram relatados em alguns pacientes. Dentre os casos que exigiram internação, sintomas com ictérica cutânea e esclerótica também foram relatados, além de hepatomegalia e um caso de encefalopatia. 

Os exames laboratoriais revelam aumento dos níveis de enzimas hepáticas (aspartato transaminase (AST) ou alanina aminotransaminase (ALT) acima de 500 UI/L. Os valores de bilirrubina total e frações apresenta-se normal ou levemente aumentado. Febre, a princípio, não foi um sintoma descrito. 

Causas infecciosas comuns para hepatite, como infecção pelos tipos A, B, C, D e E foram descartadas, além de componentes autoimunes. De acordo com a OMS, viagens internacionais também não atuam como provável fator associado. 

Manejo

Ainda sem protocolos de tratamento específicos, as medidas iniciais visão aliviar os sintomas e manter a estabilidade do paciente. A OPAS orienta cuidados gerais básicos de higiene como forma de prevenção. 

Um estudo realizado com nove paciente pediátricos do hospital Children’s of Alabama, nos Estados Unidos, demonstrou que, dos três pacientes que evoluíram com falência hepática aguda, dois foram tratados com cidofovir e corticoides e apenas um necessitou.  

Possível Fisiopatologia

Neste estudo realizado no Alabama, com participação da CDC (Centers for Disease Control and Prevention), o adenovírus foi detectado em amostras de sangue de todos os pacientes por teste de PCR em tempo real. O adenovírus tipo 41 foi identificado na amostra de cinco pacientes. 

Sete pacientes apresentaram coinfecção com outros patógenos virais. Seis receberam testes positivos para o vírus Epstein-Barr (EBV). Contudo, os resultados para anticorpos de imunoglobulina M (IgM) para EBV foram negativos.

Isso sugere, que provavelmente, não eram infecções agudas, mas sim nível de reativação de infecções anteriores. Coinfecção por SARS-cov 2 durante o quadro de hepatite aguda foi descartado em todos os pacientes deste estudo.

Um estudo realizado em Kyoto, no Japão, apresenta uma hipótese relacionada à variante Omicron do SARS-COV2. Estudos prévios já comprovaram o tropismo do SARS-COV2 por células hepáticas. Assim, acredita-se que esta variante esteja relacionada a mecanismos moleculares que desencadeiam uma resposta exacerbada do hospedeiro ao adenovírus. 

O adenovírus tipo 41 é disseminado principalmente pela via fecal-oral e afeta predominantemente o intestino. É uma causa comum de gastroenterite aguda pediátrica, cursando tipicamente com diarreia, vômito e febre, muitas vezes acompanhada de sintomas respiratórios. 

O adenovírus é reconhecido como causa de hepatite entre crianças imunocomprometidas. Pode ser um contribuinte pouco reconhecido para lesão hepática entre crianças saudáveis; no entanto, a magnitude dessa relação permanece sob investigação.

Organização Mundial de Saúde (OMS)

De acordo com a OMS, o adenovírus foi detectado em pelo menos 74 casos e, do número de casos com informações sobre testes moleculares, 18 foram identificados como adenovírus tipo 41. O SARS-CoV-2 foi identificado em 20 casos dos pacientes testados. Além disso, 19 pacienetes foram detectados com uma co-infecção por SARS-CoV-2 e adenovírus.

O Reino Unido, onde a maioria dos casos foi relatada até o momento, observou recentemente um aumento significativo nas infecções por adenovírus na comunidade (particularmente detectada em amostras fecais em crianças) após baixos níveis de circulação no início da pandemia de COVID-19. A Holanda também relatou um aumento simultâneo da circulação de adenovírus na comunidade.

De acordo com o professor de virologia  da Universidade de  Nottingham, Inglaterra, Will Irving, o fim do lockdown e a retomada da interação social pode estar associada ao aumento dos casos de contaminação por adenovírus, o que não vinha sendo observado de forma tão intensa nos anos de pandemia. 

Outra hipótese apresentada é que, devido a testes laboratoriais aprimorados para adenovírus, o número de casos pode representar a identificação de um resultado raro existente ocorrendo em níveis não detectados anteriormente e que agora está sendo reconhecido devido ao aumento dos testes.

Conclusão: 

A hepatite aguda de etiologia desconhecida tornou-se um novo desafio para os profissionais de saúde no cenário global pós-pandemia. Cabe às agências reguladoras incentivarem as pesquisas e desenvolver protocolos de tratamento. 

Aos profissionais, cabe estar atento aos principais sintomas para agir prontamente, além de informar os responsáveis acerca de sinais de alerta, incentivando a busca por atendimento médico especializado. 

A vacinação contra o COVID -19 também pode atuar como aliada na prevenção, além, de claro, atuar como fator de proteção contra complicações causadas pelo COVID. 

  1. Sallam, M.; Mahafzah, A.; Şahin, G.Ö. Clusters of Hepatitis of Unknown Origin and Etiology (Acute Non HepA–E Hepatitis) Among Children in 2021/2022: A Review of the Current Findings. Preprints 2022, 2022050024 (doi: 10.20944/preprints202205.0024.v1).
  2.  Baker JM, Buchfellner M, Britt W, et al. Acute Hepatitis and Adenovirus Infection Among Children — Alabama, October 2021–February 2022. MMWR Morb Mortal Wkly Rep 2022;71:638–640. DOI: http://dx.doi.org/10.15585/mmwr.mm7118e1external icon.
  3. A alta carga populacional da variante Omicron (B.1.1.529) está associada ao surgimento de hepatite severa de etiologia desconhecida em crianças – HiroshiNishiuraSung-mokJungKatsumaHayashi -Escola de Pós-Graduação em Medicina, Universidade de Kyoto, Kyoto, Japão.
  4. Multi-Country – Acute, severe hepatitis of unknown origin in children – World Health Organization, WHO – 23 April, 2022.
  5. Hepatitis in children: What’s behind the outbreaks? BMJ 2022; 377; 26, April 2022.

Colunista: 

ILLANA MACHADO BRAGA

INSTAGRAM: @MED.ILLA


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


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