Para começar, você sabia que o Brasil é o segundo país no mundo em número de casos de hanseníase, contribuindo com 13,8% dos diagnósticos globais? Sim, estamos no topo de uma lista indesejável. Isso já é motivo suficiente para colocar a hanseníase como pauta prioritária na Atenção Primária à Saúde (APS). Nosso papel como médicos de família é fundamental, porque somos nós que podemos dar o primeiro passo para quebrar esse ciclo, diagnosticando precocemente, tratando adequadamente e monitorando de perto a evolução dos pacientes.
A APS é o primeiro contato, a porta de entrada do paciente ao sistema de saúde. É aqui que temos a chance de olhar o paciente em sua integralidade e construir uma relação de confiança que permita a adesão ao tratamento e o cuidado contínuo. Afinal, o médico de família é muito mais do que o “encaminhador” – somos os gestores do cuidado e os protagonistas na luta contra doenças como hanseníase. E essa luta passa também por questões mais sutis, como reduzir o estigma que ainda cerca a doença.
Hanseníase na APS: um problema de saúde pública no Brasil
Hanseníase: uma palavra pequena que carrega um peso histórico imenso. É uma das doenças mais antigas documentadas, com registros desde 600 a.C. em civilizações da Índia e da China. E, por séculos, a hanseníase – ou “lepra”, como era conhecida – foi cercada por superstições e preconceitos que levaram ao isolamento social daqueles acometidos pela doença. No Brasil, as colônias de hanseníase foram uma realidade até a década de 1970. Esse contexto histórico reforçou um estigma duradouro e dificultou o enfrentamento da doença.
A virada começou em 1995, quando a OMS introduziu a poliquimioterapia (PQT) como tratamento padrão, combinando rifampicina, dapsona e clofazimina para interromper a transmissão. Com essa medida, as metas globais de erradicação da hanseníase como problema de saúde pública foram estabelecidas. Mas, como você sabe, na prática, os desafios continuam. Mesmo com avanços, o Brasil segue como um dos líderes em casos de hanseníase. Por quê? A resposta está na desigualdade: regiões com baixa renda e menor acesso à saúde são as mais afetadas. E é aí que entra o nosso trabalho: atuar na linha de frente para identificar, tratar e, sobretudo, apoiar nossos pacientes.
Hanseníase na APS nos dias atuais?
Apesar de todos os esforços, a hanseníase continua sendo um desafio. Regiões como o Norte e o Nordeste são as mais impactadas, onde fatores biopsicossociais criam um ambiente propício para a manutenção da endemia.
Em 2019, quase 80% dos novos casos no Brasil foram classificados como multibacilares – a forma mais grave e transmissível da doença. Infelizmente a pandemia de COVID-19 só piorou o cenário, reduzindo em 35% o número de diagnósticos no país, o que indica que muitos casos estão por aí, sem tratamento, evoluindo para incapacidade física. Em tempos de crise, o acesso aos serviços de saúde é limitado e os diagnósticos ficam comprometidos. E o que isso significa para a hanseníase? Significa mais pacientes com diagnóstico tardio e, possivelmente, com sequelas irreversíveis. A detecção precoce é essencial para evitar essas incapacidades, e é na APS que esse trabalho precisa acontecer. A pergunta é: estamos prontos para essa missão?
Como suspeitar e diagnosticar de hanseníase na APS?
Diagnosticar a hanseníase na APS pode ser desafiador, mas não impossível. Existem três sinais cardinais que o Ministério da Saúde nos orienta a buscar:
- Lesões cutâneas com alteração de sensibilidade térmica, dolorosa ou tátil. Se encontrar uma lesão que “não sente nada” ao toque quente ou frio, suspeite.
- Espessamento de nervos periféricos com alterações sensitivas, motoras ou autonômicas.
- Presença do Mycobacterium leprae, confirmada em baciloscopia ou biópsia cutânea.
Esses sinais podem parecer sutis, mas são reveladores. É aqui que o médico de família precisa afinar a escuta e o olhar clínico. Na APS, o exame dermatoneurológico é nosso principal aliado. O paciente vem com queixas vagas, que podem até passar despercebidas em uma consulta apressada. Porém, quando damos atenção à história do paciente e fazemos testes de sensibilidade nas lesões, temos grandes chances de identificar a doença em seu estágio inicial. Se houver dúvidas, a orientação é matriciar com o serviço de referência em hansenologia ou dermatologia. Mas lembre-se: doenças de magnitude e relevância como essa são da nossa alçada também como especialistas em medicina de família!
Como tratar e monitorar?
O tratamento da hanseníase é realizado com a poliquimioterapia (PQT), uma combinação de rifampicina, dapsona e clofazimina, que muda a vida dos pacientes. O regime depende da classificação do paciente:
- Paucibacilar (PB): 6 doses mensais supervisionadas ao longo de 6 meses.
- Multibacilar (MB): 12 doses mensais supervisionadas ao longo de 12 meses.

E não podemos esquecer das reações hansênicas, que são como tempestades no meio do tratamento. Podem surgir antes, durante ou até depois da PQT. A reação tipo 1 (ou reversa) e o eritema nodoso hansênico (reação tipo 2) são respostas do sistema imunológico que, se não monitoradas e tratadas com corticoides ou imunossupressores, podem comprometer a função neurológica. Estar atento a essas manifestações é parte crucial do manejo.
Estigma e discriminação
A hanseníase é mais do que uma doença; é uma condição que carrega séculos de estigma. Esse “fantasma” do passado afeta o tratamento, a busca por ajuda e a aceitação social dos pacientes. Esse estigma está tão enraizado que, muitas vezes, nossos pacientes nem se permitem a chance de melhorar. Alguns chegam a esconder os sintomas por medo de discriminação, e aqui entra o papel do médico de família. A APS oferece o espaço ideal para acolher, desmistificar e encorajar o paciente a seguir o tratamento com dignidade e apoio social.
Reflexão final
Como médicos de família, não basta apenas tratar a hanseníase; temos o compromisso de “tratar” também a desinformação, o medo e a exclusão que a acompanham. A hanseníase consiste em uma doença tratável e curável, mas isso precisa ser reforçado todos os dias, em cada consulta, em cada orientação. O diagnóstico precoce salva vidas e previne incapacidades.
Referências
- UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA. Abordagem da Hanseníase na Atenção Básica. Núcleo Telessaúde Santa Catarina, 2019.
- SECRETARIA MUNICIPAL DE SAÚDE DO RIO DE JANEIRO. Hanseníase: manejo diagnóstico e terapêutico. Coleção Guia de Referência Rápida, Rio de Janeiro, 2020.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.