Gonorreia: aprenda a manejar esses pacientes na atenção primária!
A gonorreia é uma das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) mais comuns no mundo, causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae. Essa bactéria gram-negativa tem alta capacidade de infectar as mucosas do trato genital, mas também pode afetar outras áreas, como garganta, olhos e articulações.
A sua alta transmissibilidade e a resistência antimicrobiana emergente tornam seu manejo uma prioridade na atenção primária à saúde.
Epidemiologia
A gonorreia é prevalente em diversas regiões do mundo, afetando majoritariamente adultos jovens, entre 15 e 24 anos. No Brasil, conforme dados do Ministério da Saúde, estima-se que ocorram cerca de 500 mil novos casos de gonorreia por ano, sendo a maioria não diagnosticada, devido ao sub-relato e à falta de busca por atendimento médico. Isso ressalta a importância de aumentar o rastreamento e a educação em saúde na atenção primária, especialmente entre os grupos mais vulneráveis.
Nos últimos anos, a preocupação com a resistência antimicrobiana da Neisseria gonorrhoeae aumentou significativamente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta para cepas resistentes a antibióticos de primeira linha, o que torna o controle da infecção mais difícil. Isso implica na importância de um diagnóstico preciso e no tratamento adequado, seguindo protocolos atualizados.
Fisiopatologia e transmissão da gonorreia
A Neisseria gonorrhoeae é transmitida principalmente por contato sexual desprotegido, seja vaginal, anal ou oral. Durante a infecção, a bactéria adere ao epitélio das mucosas e inicia um processo inflamatório, que, se não tratado, pode se estender aos órgãos pélvicos internos, causando doenças mais graves, como a doença inflamatória pélvica (DIP) nas mulheres, e epididimite nos homens.
A disseminação para outras áreas, como o sangue e as articulações, pode causar formas mais severas da doença, conhecidas como gonorreia disseminada.
Sinais e sintomas da gonorreia
A identificação precoce dos sintomas da gonorreia é importante para impedir sua propagação e evitar complicações graves. Em homens, a manifestação mais comum é a uretrite, caracterizada por secreção purulenta de cor amarelada e dor ao urinar. Aproximadamente 90% dos homens infectados desenvolvem sintomas evidentes em poucos dias. Nas mulheres, contudo, os sintomas podem ser mais leves ou ausentes. As manifestações mais frequentes incluem aumento do corrimento vaginal, disúria e, ocasionalmente, dor abdominal baixa. A vaginite e cervicite são manifestações comuns em mulheres.
Uma característica preocupante da gonorreia é que até 50% das mulheres infectadas podem ser assintomáticas, o que aumenta o risco de progressão da doença para quadros mais graves, como DIP, que pode resultar em infertilidade. Nos casos de gonorreia retal e faríngea, os sintomas são ainda mais inespecíficos, com dor anal, secreção retal, dor de garganta ou linfadenopatia cervical, sendo facilmente confundidos com outras condições.
Diagnóstico
Na atenção primária, o diagnóstico da gonorreia pode ser realizado através de diferentes métodos, sendo o teste de amplificação de ácido nucleico (NAAT) o padrão-ouro, devido à sua alta sensibilidade e especificidade. O NAAT pode ser realizado em amostras de urina em homens ou em amostras de swab cervical em mulheres, além de amostras faríngeas e retais, quando houver suspeita de infecção nessas áreas.
Outras técnicas diagnósticas incluem a cultura bacteriana, que ainda é importante para a identificação de cepas resistentes a antibióticos. A microscopia direta de secreção uretral também pode ser utilizada como uma ferramenta de triagem rápida, embora seja menos sensível em mulheres. O diagnóstico precoce e o tratamento imediato são fundamentais para evitar a disseminação da infecção e complicações a longo prazo.
Manejo e tratamento da gonorreia
Deve-se iniciar o tratamento da gonorreia na atenção primária imediatamente após a confirmação do diagnóstico. De acordo com as diretrizes do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde, deve-se tratar a gonorreia não complicada com uma dose única de ceftriaxona 500 mg intramuscular, combinada com azitromicina 1 g via oral. Esta combinação terapêutica visa, além de tratar a infecção por Neisseria gonorrhoeae, cobrir a possível coinfecção por Chlamydia trachomatis, frequentemente associada.
Assim, é importante que o paciente seja orientado a evitar relações sexuais até que ele e seus parceiros sexuais tenham completado o tratamento e estejam livres da infecção. No caso de pacientes com gonorreia disseminada ou envolvimento articular, o manejo pode incluir hospitalização e terapia intravenosa com ceftriaxona.
Resistência antimicrobiana
Nos últimos anos, a resistência antimicrobiana da Neisseria gonorrhoeae tornou-se uma preocupação significativa em todo o mundo. Cepas resistentes a antibióticos, como penicilinas, tetraciclinas e fluoroquinolonas, foram identificadas em várias regiões. Atualmente, a ceftriaxona é o único antibiótico recomendado para o tratamento de gonorreia, mas já existem relatos de cepas com resistência a essa droga em alguns países.
A vigilância constante e a realização de testes de cultura para monitoramento de resistência são essenciais, especialmente em casos de falha terapêutica. Assim, a introdução de novos antibióticos para o tratamento da gonorreia está sendo estudada, mas, por enquanto, a prevenção e o uso criterioso de antimicrobianos permanecem as melhores estratégias para controlar a resistência.
Notificação de Contatos
Um aspecto importante do manejo da gonorreia é a notificação de todos os parceiros sexuais do paciente. Deve-se informar todos os parceiros dos últimos 60 dias, necessitando de testes e tratamento, mesmo que estejam assintomáticos, para evitar a reinfecção e a disseminação da doença. Pode-se realizar a notificação diretamente pelo paciente ou pelo serviço de saúde, tratada de maneira sigilosa, preservando a privacidade do paciente.
A notificação é particularmente importante em contextos de alta prevalência de gonorreia, onde pode-se interromper a cadeia de transmissão apenas com o rastreamento ativo de contatos. Além disso, deve-se realizar a retestagem do paciente após três meses do tratamento inicial, visto que a taxa de reinfecção é alta.

Educação em saúde e prevenção
A prevenção da gonorreia depende da educação contínua em saúde sexual. Deve-se informar pacientes sobre o uso consistente de preservativos como a medida mais eficaz para prevenir a transmissão de ISTs. Além disso, é essencial incentivar a população de risco a realizar testes regulares para ISTs, especialmente se houver múltiplos parceiros sexuais.
As campanhas de saúde pública e a distribuição de preservativos gratuitos em unidades básicas de saúde são estratégias fundamentais para reduzir a incidência da gonorreia, bem como outras ISTs. Assim, profissionais da atenção primária têm um papel importante em educar os pacientes sobre práticas seguras e sobre a importância do rastreamento e tratamento precoces.
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Referências bibliográficas
- BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Controle de Doenças Sexualmente Transmissíveis. Brasília, DF, 2020.
- CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines. Atlanta: CDC, 2021. Disponível em: https://www.cdc.gov/std/treatment-guidelines/gonorrhea.htm. Acesso em: 20 out. 2024.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Global action plan to control the spread and impact of antimicrobial resistance in Neisseria gonorrhoeae. Geneva: WHO, 2016.
