Hoje iremos colocar em pauta um
tema tão amplo e multifacetado que me custou alguns dias de reflexão desde que
recebi a proposta temática até o start no processo de escrita, que,
agora, humildemente, divido com vocês, leitores.
Cabe, nesse momento, antes de
qualquer explicação, uma breve introdução com auto-apresentação: sou médica, trabalho
com o SUS e vivo diariamente os ganhos e as agruras do sistema. Das unidades de
pronto atendimento (UPAs) até a Unidade Básica de Saúde (UBS), muito já vi e
vivi, ainda que na minha pouca experiência de um ano de formada. Sou defensora
do SUS e, muito além disso, uma usuária dessa ferramenta, assim como você, que
está aqui agora lendo esse texto.
Falar do processo de trabalho na gestão do
Sistema único de saúde envolve muitas perguntas. O que é a gestão do SUS? Como
se dá o processo de trabalho? De que forma participo enquanto profissional de
saúde e cidadão? Vamos responder cada uma delas.
A gestão, no sentido mais
abrangente da palavra, prega que todos aqueles envolvidos direta ou
indiretamente com o SUS são gestores, com responsabilidades e deveres para seu
crescimento e bom funcionamento. Desse modo, somos todos gestores, já que, como
dito anteriormente, eu e você utilizamos e dependemos do SUS, independentemente
do fato de você ter ou não plano de saúde. Do restaurante que frequentamos (fiscalizado
pela vigilância sanitária, que é atribuição do SUS), até a vacinação e os dados
epidemiológicos levantados anualmente que fazem com que tenhamos menos chance
de adoecer através de métodos de prevenção e promoção de saúde, em tudo estamos
repousando sob a sombra desse sistema.
No sentido mais restrito, a gestão pode ser entendida como uma responsabilidade administrativa, que engloba as três esferas: municipal, estadual e federal, através dos seus gestores legais, que respondem por todos os procedimentos jurídico-institucionais do SUS na esfera de governo sob sua responsabilidade, conforme ilustra abaixo figura retirada do próprio Manual de Gestão Pública em Saúde (2016, p. 12).
Gestores diretamente responsáveis pelo SUS (instituições e cargo).

A gestão, enquanto espaço
coletivo e democrático, é uma responsabilidade de todos, e não apenas uma
atribuição da minoria dotada de poder. Desse modo, Campos (2000) traz à tona o
conceito de cogestão, que norteia a conduta de solidariedade entre as equipes em
um modo de administrar que pense e faça pelo coletivo, democratizando as
relações em saúde em prol da universalidade. Segundo o autor, esse conceito
decorre da necessidade de nos afastarmos da reprodução mecânica e alienante do
trabalho, aos moldes tayloristas-fordistas, a partir da compreensão de que o
trabalho individualizado e acolhedor reflete em ações melhores e mais duradouras
na saúde e qualidade de vida da população.
Agora que já compreendemos os
conceitos básicos de gestão, vamos voltar nossos olhares para o processo do
trabalho em saúde. Este, força motriz do SUS, compreende os significados
ligados às necessidades biológicas relacionadas com a manutenção da vida e o ligado
às necessidades sociais relacionadas com o aperfeiçoamento da vida. “Trocando
em miúdos”, o trabalho em saúde é realizado em equipe, é coletivo; é consumido
no exato momento em que é executado e é mediado por tecnologias, normas e
máquinas (PEDUZZI; SCHRAIBER, 2009; FRANCO; MERHY, 2003). Para bem realizá-lo,
é necessário que o trabalhador se muna de diferentes saberes, tais como:
- Saber manusear materiais e
equipamentos; - Saber aplicar conhecimentos
científicos e tecnológicos; - Saber estabelecer relações
com os outros.
Por si só, apenas deter um
dos conhecimentos acima não é suficiente para o estabelecimento de um processo
de trabalho saudável e efetivo. É aí que entra o trabalho em equipe, quando os
diferentes profissionais somam habilidades, conhecimentos e experiências em
busca de soluções permanentes para a dinâmica de saúde do sistema. Conhecer as
minúcias de seu local de trabalho e traçar o perfil populacional adscrito na
unidade, bem como manter uma relação de horizontalidade com todos os
colaboradores e gestores diretos figuram como protocolo básico para melhor
atender a quem mais nos interessa, que é a população.
Ao encarar o processo de trabalho no ciclo saúde-doença da gestão SUS, há que se preparar, todavia, para duas realidades que, nesse momento e deixando de lado os conceitos norteadores que já mencionamos, os convido para analisar:
1. A realidade encontrada não é a que estudamos nos livros e diretrizes
Isso te decepciona? A mim
também já decepcionou muito. Manejar o fluxo de condutas na atenção básica é
difícil, uma vez que sabemos que por mais que a teoria seja bem escrita, na
prática, nosso trabalho se dá melhor no campo da “Medicina baseada no que tem
no momento para ser ofertado”. Emergências lotadas, falta de medicamentos,
dificuldade de realização de exames e marcação de consultas, ainda que de
retorno na UBS, são alguns dos vários empecilhos que nos sabotam na hora de
praticar a boa medicina atenta e efetiva. Entendo sua decepção do fundo do
coração de quem sempre lida com isso. Só que aí eu te apresento a nossa
realidade de número dois.
2. Dá para fazer MUITO pela saúde independente da realidade encontrada
Já que encontramos problemas,
agora daremos soluções. Meus amigos, exercer a função de médico exige de nós
conhecimento teórico e prático para saber fazer não só o que é preconizado em
diretrizes e guidelines, mas também o que nos cabe enquanto seres
humanos preocupados com seus semelhantes. O olhar generoso, a escuta ativa, o
exame físico apurado que evita exames complementares desnecessários e acelera o
manejo das comorbidades do doente, a busca pela compreensão do paciente sobre
sua patologia de forma integral e o simples ensinamento do modo correto de tomar
as medicações prescritas, ainda que você leve 30 minutos para desenhar na
receita um sol e uma lua para nortear os horários de ingestão dos remédios,
fazem uma diferença absurda no cuidado. Se querem fazer diferença na vida das
pessoas, comecem pelo básico. O básico é muito.
Certa feita, voltando de uma
visita domiciliar, ouvi da agente comunitária de saúde ao meu lado: “Doutora,
os pacientes ficam felizes com o carinho e a escuta, veja como dona Maria
chorou ao se despedir de nós”, ao passo que eu, pensando em tudo que poderia
fazer e não fiz pelas defasagens do sistema, questionei como poderia haver
gratidão no que pra mim era tão pouco, ante às necessidades extremas que aquela
paciente exigia do cuidado em saúde, até que fui, fortuitamente, interrompida:
“Às vezes, o que pensamos ser pouco, doutora, é tudo o que eles precisam
naquele momento”. E foi.
O processo de trabalho na
gestão do SUS é complexo, em constante evolução e prioritariamente vital para a
sociedade. Entender que somos participantes ativos dessa cadeia e que devemos
investir conhecimento em prol da saúde coletiva é também se colocar em posição
de protagonismo da cena da saúde pública nacional. Seja parceiro do seu
paciente. Seja parceiro da gerência do seu posto, dos seus colegas de trabalho.
Procure entender as necessidades do seu distrito de saúde e, mais do que isso,
atue de forma direta na mudança que você deseja ver no sistema. O SUS é nosso,
é necessário, é imprescindível.
Do lado de cá, continuarei
fazendo minha parte para juntos entendermos e atuarmos cada vez mais alinhados
nessa construção do conhecimento tão necessária para a execução de um bom
trabalho, seja ele na Medicina ou na vida, que, para falar a verdade, me parecem
sinérgicas.
Até o próximo tema!
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