O gastrinoma é um tumor neuroendócrino raro, originado principalmente no pâncreas ou no duodeno, caracterizado pela hipersecreção do hormônio gastrina. Essa produção exacerbada de gastrina leva à síndrome de Zollinger-Ellison (SZE), condição clínica marcada pela hipergastrinemia e pela formação de úlceras pépticas múltiplas e de difícil controle.
Estima-se que a incidência do gastrinoma seja de 0,5 a 2 casos por milhão de pessoas ao ano, predominando entre 30 e 50 anos de idade. Além disso, aproximadamente 25% dos casos estão associados à neoplasia endócrina múltipla tipo 1 (MEN1), um distúrbio genético autossômico dominante que predispõe ao desenvolvimento de múltiplos tumores nas glândulas endócrinas.
Classificação do gastrinoma
O gastrinoma é classificado como um tumor neuroendócrino (TNE) funcional, uma vez que seu crescimento se associa diretamente à produção hormonal. Embora cerca de 60% dos gastrinomas sejam malignos, a evolução clínica varia conforme o local de origem e a presença de metástases, especialmente hepáticas.
O local mais comum de surgimento do gastrinoma é o chamado “triângulo do gastrinoma”, região anatômica delimitada pela junção do ducto cístico e ducto colédoco, segunda e terceira porções do duodeno e colo do pâncreas. Essa informação anatômica é relevante, pois direciona a investigação e a abordagem cirúrgica do tumor.
Dessa forma, a secreção descontrolada de gastrina leva à hiperprodução de ácido clorídrico pelo estômago, desencadeando as manifestações clínicas típicas e complicações da síndrome de Zollinger-Ellison.
Sinais clínicos e complicações do gastrinoma
Os sinais clínicos do gastrinoma decorrem, principalmente, da hipergastrinemia e da consequente hipersecreção gástrica ácida. A manifestação mais comum é a doença ulcerosa péptica refratária ao tratamento convencional, muitas vezes múltipla e localizada em áreas atípicas como jejuno.
Principais sintomas do gastrinoma:
- Dor abdominal epigástrica: geralmente a queixa inicial mais frequente, de caráter crônico e relacionada à presença de úlceras
- Diarreia crônica: ocorre em cerca de 50% dos pacientes e resulta da inativação de enzimas pancreáticas pelo ácido gástrico excessivo, levando à má digestão e esteatorreia
- Piroses e refluxo gastroesofágico severo: sintomas comuns, que muitas vezes simulam doença do refluxo gastroesofágico (DRGE)
- Perda de peso: reflexo da diarreia crônica, hiperalgesia abdominal e má absorção
- Hemorragias digestivas: provocadas pelas úlceras pépticas profundas e de difícil cicatrização
- Náuseas e vômitos: associados ao quadro de hiperacidez gástrica.
Em casos avançados, o paciente pode apresentar sinais de metástase hepática, como icterícia e dor no hipocôndrio direito. A história de múltiplas endoscopias digestivas com achados de úlceras refratárias deve sempre levantar a suspeita de gastrinoma.
Além disso, outro ponto importante é a associação com a neoplasia endócrina múltipla tipo 1 (MEN1). Nesses casos, além do gastrinoma, o paciente pode apresentar adenomas de paratireoide (hiperparatireoidismo) e tumores hipofisários. Por isso, o rastreamento genético e a investigação sistemática são fundamentais.
A síndrome de Zollinger-Ellison é responsável por até 1% dos casos de doença ulcerosa péptica. Dessa forma, devido ao seu caráter raro e quadro clínico inespecífico, o diagnóstico muitas vezes é tardio, o que aumenta o risco de complicações graves como perfuração intestinal, estenose pilórica e metástases.
Diagnóstico e exames complementares
O diagnóstico do gastrinoma é baseado na associação entre o quadro clínico e exames laboratoriais e de imagem.
Exames laboratoriais
- Dosagem de gastrina sérica basal: valores acima de 1000 pg/mL são altamente sugestivos de gastrinoma. Entretanto, níveis menores também podem ocorrer, exigindo investigação complementar
- Teste de estímulo com secretina: considerado o padrão-ouro para confirmar a produção anômala de gastrina. Um aumento superior a 200 pg/mL após a administração de secretina sugere gastrinoma
- pH gástrico: valores abaixo de 2 reforçam a hipótese de hipersecreção ácida.
Exames de imagem
- Tomografia computadorizada de abdômen: útil para localizar o tumor e avaliar metástases hepáticas. Na TC abaixo é possível visualizar um nódulo hepático:

- Ressonância magnética: alternativa à TC para estudo detalhado de lesões hepáticas e pancreáticas
- Endoscopia digestiva alta: revela úlceras múltiplas, especialmente além do bulbo duodenal
- Ultrassonografia endoscópica: sensível na detecção de pequenos tumores duodenais e pancreáticos
- PET-CT com 68Ga-DOTATATE: indicado para estadiamento e avaliação da extensão do gastrinoma, explorando a captação de análogos da somatostatina pelos tumores neuroendócrinos.
A diferenciação entre gastrinoma esporádico e associado à MEN1 também é fundamental. Na suspeita de MEN1, devem-se investigar hipercalcemia, dosar PTH, e realizar ressonância de hipófise.
O diagnóstico precoce impacta diretamente no prognóstico do paciente, uma vez que o tratamento adequado reduz a morbimortalidade e as complicações graves da doença.

Abordagens de tratamento do gastrinoma
O tratamento do gastrinoma visa controlar a hipersecreção gástrica, aliviar os sintomas e, sempre que possível, promover a ressecção completa do tumor. A escolha terapêutica depende da localização, extensão do tumor e presença de metástases.
Controle da hipersecreção gástrica
O controle da hipersecreção ácida é essencial no manejo clínico do gastrinoma, sendo responsável pela melhora dos sintomas e pela prevenção de complicações como úlceras perfuradas e sangramentos digestivos. Assim, os inibidores da bomba de prótons (IBP) representam a base do tratamento medicamentoso; esses fármacos atuam bloqueando de forma eficaz a enzima H+/K+ ATPase presente nas células parietais gástricas, reduzindo significativamente a produção de ácido clorídrico.
Dessa forma, nos pacientes com gastrinoma, a dose necessária costuma ser muito superior à utilizada em quadros de refluxo gastroesofágico ou úlcera péptica comum, devido à hipersecreção extrema induzida pelos níveis elevados de gastrina. Medicamentos como omeprazol, esomeprazol e pantoprazol são os mais empregados na prática clínica. As doses variam conforme a gravidade da síndrome de Zollinger-Ellison, podendo ser ajustadas para garantir que o pH gástrico se mantenha acima de 3, favorecendo a cicatrização das lesões e o alívio dos sintomas.
Além disso, outra classe importante no tratamento do gastrinoma são os análogos da somatostatina, como octreotida e lanreotida. Essas medicações atuam reduzindo a liberação de gastrina pelos tumores neuroendócrinos e, consequentemente, diminuindo a secreção ácida. Seu uso é indicado principalmente em pacientes com doença metastática, quando o controle da hipersecreção é mais difícil de alcançar apenas com os IBPs, ou naqueles que apresentam intolerância a altas doses de inibidores da bomba de prótons. Além do efeito sobre a gastrina, os análogos da somatostatina também podem exercer ação antiproliferativa sobre as células tumorais, contribuindo para a estabilização da doença em alguns casos.
Tratamento cirúrgico
- Ressecção do tumor primário: indicada sempre que possível, especialmente nos casos sem metástases. A cirurgia é o único tratamento potencialmente curativo
- Duodenotomia e pancreatectomia parcial: podem ser necessárias dependendo da localização do tumor
- Linfadenectomia regional: realizada para reduzir risco de recidiva.
Dessa forma, nos casos de gastrinoma associado à MEN1, a abordagem cirúrgica deve ser mais criteriosa, devido ao risco de múltiplos tumores e maior chance de recidiva.
Tratamento das metástases
- Quimioembolização hepática, radioablação ou ressecção das metástases podem ser consideradas para controle dos sintomas e aumento da sobrevida
- Terapia com radionuclídeos: pode ser indicada em casos avançados com expressão de receptores de somatostatina.
Assim, o acompanhamento clínico regular com dosagens de gastrina e exames de imagem é essencial para monitorar a resposta ao tratamento e detectar recidivas.
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