Fungo no ouvido: tudo o que você precisa saber sobre a otomicose na sua prática clínica!
A otomicose, conhecida popularmente como “fungo no ouvido”, é uma infecção superficial do meato acústico externo causada por fungos oportunistas. Embora seja frequentemente subestimada na prática clínica, sua prevalência tem aumentado, especialmente em ambientes quentes e úmidos. Além disso, seu manejo inadequado pode levar à cronicidade, piora dos sintomas e perda auditiva temporária.
Portanto, o conhecimento atualizado sobre a etiologia, os fatores predisponentes, o diagnóstico diferencial e as opções terapêuticas é essencial para médicos generalistas e especialistas.
O que é otomicose?
A otomicose é uma forma de otite externa fúngica caracterizada por inflamação, prurido e presença de secreção no conduto auditivo externo. Assim, diferentemente das otites bacterianas, a infecção fúngica evolui de maneira mais insidiosa e tende a ser recorrente. Essa condição é mais comum em países tropicais e subtropicais, onde a umidade favorece a proliferação fúngica.
Embora não represente risco vital, a otomicose pode causar intenso desconforto ao paciente. A sensação de ouvido entupido, associada ao prurido e à otorreia, interfere significativamente na qualidade de vida, especialmente quando não é diagnosticada corretamente.
Epidemiologia e fatores predisponentes do “fungo no ouvido”
Estudos indicam que a otomicose representa de 9% a 25% dos casos de otite externa em clínicas otorrinolaringológicas, com variações geográficas importantes. Dessa forma, essa condição é mais prevalente em adultos jovens, particularmente entre 20 e 40 anos.
Entre os principais fatores predisponentes, destacam-se:
- Clima quente e úmido (regiões tropicais e litorâneas)
- Uso de cotonetes bem como objetos inadequados no conduto auditivo
- Uso crônico de antibióticos tópicos ou sistêmicos
- Diabetes mellitus
- Imunossupressão (HIV, uso de imunossupressores)
- Uso de aparelhos auditivos ou tampões auriculares
- Natação frequente
Além disso, alterações na flora natural do conduto auditivo — causadas por limpezas excessivas ou uso de medicamentos — criam um ambiente propício à colonização fúngica.
Principais agentes etiológicos
Diversas espécies de fungos são capazes de colonizar o meato acústico externo. Entretanto, os principais agentes são:
- Aspergillus niger (mais comum, responsável por até 90% dos casos)
- Aspergillus fumigatus
- Candida albicans
- Penicillium spp.
- Fusarium spp. (mais raramente)
Dessa forma, o Aspergillus niger é identificado pelo aspecto negro com pontos esbranquiçados e filamentos visíveis no conduto auditivo. Já a Candida albicans costuma gerar um exsudato esbranquiçado, semelhante ao leite coalhado, e é mais prevalente em imunodeprimidos.
Manifestações clínicas do “fungo no ouvido”
O quadro clínico da otomicose é caracterizado por sintomas localizados no ouvido externo. Os principais são:
- Prurido intenso: geralmente é o primeiro sintoma relatado
- Otorreia: secreção espessa, filamentosa ou grumosa, com coloração variável (negra, branca ou acinzentada)
- Otalgia: dor leve a moderada, menos intensa que nas otites bacterianas
- Sensação de plenitude auricular
- Hipoacusia condutiva: devido à obstrução do canal pelo material fúngico
- Eritema e descamação da pele do conduto auditivo.
Além disso, o exame otoscópico pode revelar a presença de detritos fúngicos, hifas visíveis e inflamação localizada, sem pus purulento como nas infecções bacterianas.
Diagnóstico diferencial
É fundamental considerar outras causas de otite externa antes de confirmar a otomicose. Entre os principais diagnósticos diferenciais, destacam-se:
Otite externa bacteriana
Geralmente causada por Pseudomonas aeruginosa ou Staphylococcus aureus. Apresenta otalgia intensa, edema importante do conduto e secreção purulenta. O prurido é menos proeminente.
Dermatite seborreica
Causa descamação, prurido e eritema, mas sem secreção espessa. Afeta outras áreas além do ouvido, como couro cabeludo e face.
Eczema ótico
Quadro inflamatório crônico com descamação seca e prurido. Pode simular otomicose, porém sem detritos fúngicos.
Psoríase
Doença autoimune que pode afetar o canal auditivo, cursando com placas espessas e prurido.
Corpo estranho
Pode gerar inflamação e secreção, especialmente em crianças, devendo ser excluído por otoscopia.
Neoplasias do conduto auditivo
Lesões malignas, embora raras, podem mimetizar quadros infecciosos crônicos. Suspeita-se em casos refratários.
Dessa forma, o diagnóstico diferencial adequado evita tratamentos equivocados, como o uso de antibióticos que agravam a infecção fúngica.
Exames complementares para diagnóstico do “fungo no ouvido”
Embora o diagnóstico seja predominantemente clínico, o exame micológico direto e a cultura para fungos podem ser realizados em casos persistentes ou duvidosos. A microscopia com KOH (hidróxido de potássio) permite visualizar hifas fúngicas, enquanto a cultura identifica a espécie envolvida.
Assim, exames de imagem, como a tomografia de ossos temporais, são indicados apenas em casos com suspeita de extensão para o ouvido médio ou complicações.
Abordagem terapêutica
O tratamento da otomicose envolve três pilares fundamentais:
Limpeza do conduto auditivo
A desobstrução mecânica é essencial. A aspiração sob visualização direta (com microscopia ou otoscópio) remove o material fúngico, secreções e debris. Essa etapa, embora muitas vezes negligenciada, aumenta significativamente a eficácia dos antifúngicos tópicos.

Uso de antifúngicos tópicos
Após a limpeza, o uso de antifúngicos tópicos por 7 a 14 dias é a conduta padrão. Dessa forma, os medicamentos mais utilizados incluem:
- Clotrimazol 1% (eficaz contra Candida e Aspergillus)
- Miconazol 2%
- Tioconazol + Corticoide (em casos com inflamação intensa)
- Nistatina (mais específica para Candida)
É fundamental aplicar o medicamento com o conduto limpo e seco. Deve-se evitar o uso de soluções otológicas em óleo, pois podem dificultar a visualização e promover umidade.
Em casos refratários ou com imunossupressão, o uso de antifúngicos orais como itraconazol ou fluconazol pode ser indicado, sempre sob supervisão médica.
Prevenção de recorrência
Para evitar novos episódios, recomenda-se:
- Evitar o uso de cotonetes ou objetos no ouvido.
- Manter os ouvidos secos após banho e natação.
- Suspender o uso de antibióticos tópicos prolongadamente.
- Tratar doenças de base, como diabetes.
- Avaliar uso de agentes acidificantes do conduto (ácido acético) em pacientes com tendência à recorrência.
Quando encaminhar ao otorrinolaringologista?
Nem todos os casos exigem avaliação com especialista. Contudo, o encaminhamento é indicado em:
- Casos recorrentes (mais de duas vezes ao ano)
- Persistência dos sintomas após tratamento completo
- Presença de complicações (perfuração timpânica, otite média)
- Pacientes imunocomprometidos ou com doenças de base descompensadas
- Suspeita de diagnóstico alternativo.
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Referências bibliográficas
- PORTO, M. A. R. et al. Otomicose: aspectos clínicos e terapêuticos. Revista Brasileira de Otorrinolaringologia, São Paulo, v. 66, n. 1, p. 14-18, 2000. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rboto/a/HsCKZJKcwZGx6ZG4VbHktXc. Acesso em: 21 abr. 2025. DOI: 10.1590/S0034-72992000000100004.
- HO, T. et al. The role of topical antifungal therapy in the treatment of otomycosis. Laryngoscope, [S.l.], v. 116, n. 1, p. 44-48, 2006. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1097/01.mlg.0000190695.17034.7f. Acesso em: 21 abr. 2025. DOI: 10.1097/01.mlg.0000190695.17034.7f.
