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Fluidoterapia: o que não te contaram sobre a veia cava

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A regra dos 30 ml/kg ainda faz sentido na medicina atual?

Se você atua no cuidado ao paciente crítico, especialmente no manejo da sepse, certamente já ouviu — ou aplicou — a recomendação clássica: administrar 30 ml/kg de cristaloide nas primeiras 3 horas.

Essa diretriz foi consolidada nas Diretrizes do Surviving Sepsis Campaign (2012) e tem origem no estudo de Emanuel Rivers, publicado no New England Journal of Medicine em 2001, que introduziu o conceito de Early Goal-Directed Therapy (EGDT) no choque séptico.

O estudo demonstrou redução da mortalidade em pacientes submetidos a um pacote de cuidados guiado por metas, no qual a administração precoce e agressiva de fluidos teve papel central. A partir disso, reforçou-se a ideia de que ressuscitação volêmica agressiva salva vidas.

O excesso de fluidos também mata

Com a evolução da ciência, da monitorização hemodinâmica e das tecnologias à beira-leito, novas evidências começaram a emergir. Estudos mais recentes demonstraram que o excesso de fluidos está associado a piores desfechos, incluindo:

  • Maior tempo de ventilação mecânica
  • Maior necessidade de terapia renal substitutiva
  • Aumento da mortalidade

Hoje sabemos que a ressuscitação volêmica segue uma curva em U:
tanto a subressuscitação quanto a overressuscitação estão relacionadas com piores desfechos.

Existe, portanto, uma zona ideal de administração de fluidos, e ela não é igual para todos os pacientes.

Da medicina “one size fits all” à medicina personalizada

Na prática clínica contemporânea, nos afastamos de protocolos rígidos e caminhamos para a medicina personalizada e de precisão. Isso significa:

  • Conhecer profundamente o paciente
  • Definir objetivos terapêuticos claros
  • Utilizar ferramentas confiáveis para tomada de decisão

A grande pergunta deixa de ser “quanto fluido dar?” e passa a ser:

  • O paciente ainda precisa de fluidos?
  • Ele tolera receber mais volume?
  • Ele responde à administração de fluidos?

Aqui surgem dois conceitos fundamentais — e distintos:

Fluidotolerância x Fluidorresponsividade

O que é fluidotolerância?

A fluidotolerância refere-se à capacidade do paciente de receber fluidos sem desenvolver efeitos deletérios, como:

  • Edema intersticial
  • Congestão pulmonar
  • Síndrome compartimental
  • Anemia dilucional

Pacientes com excesso de fluidos apresentam elevação da pressão venosa, redução do gradiente arteriovenoso e pior perfusão tecidual, além de edema que dificulta a difusão de oxigênio.

Resultado: piora da oxigenação e da função orgânica, mesmo com volume elevado.

O que é fluidorresponsividade?

A fluidorresponsividade diz respeito à capacidade do organismo de aumentar o débito cardíaco após a administração de volume, conforme a curva de Frank-Starling.

Importante:

  • Um paciente pode ser fluidotolerante e não fluidorresponsivo
  • Os dois mecanismos são independentes

Após a ressuscitação inicial, até 50% dos pacientes não são mais fluidorresponsivos.

O papel do ultrassom point-of-care (POCUS)

A ultrassonografia à beira-leito se consolidou como uma das principais ferramentas para avaliação dinâmica do estado volêmico, por ser:

  • Segura
  • Reprodutível
  • Disponível
  • Livre de radiação

Mas atenção: avaliar apenas a Veia Cava Inferior (VCI) não prediz fluidorresponsividade.

Hoje sabemos que a VCI é, no máximo, um marcador indireto de pressão venosa central, com inúmeras limitações.

Sabemos que mesmo a PVC não é fidedigna ao status volêmico, então é preciso ter cuidado ao interpretar o diâmetro e variabilidade da VCI. Interferentes externos como: insuficiência cardíaca, hipertensão pulmonar, hiperinsuflação pulmonar, podem levar a uma VCI pletórica sem que isso seja decorrente de excesso de volume; por outro lado, interferentes como aumento de pressão intrabadominal, esforço respiratório, podem levar a uma VCI colapsada sem que isso signifique depleção de volume.

Portanto, sua interpretação sempre deve ser feita dentro do contexto clínico do paciente. Para interpretar a VCI, costuma-se considerar que um diâmetro < 1.5cm com uma variabilidade > 50%, na ausência de outros sinais que sugiram congestão (como padrão B pulmonar), pode representar tolerância a volume. Por outro lado, VCI > 2.5cm e sem variabilidade respiratória, provavelmente representa intolerância a volume, ou ao menos, ausência de benefício.

Avaliação da fluidotolerância com POCUS

Os principais recursos incluem:

1. Ultrassonografia pulmonar (Lung Ultrasound Score)

Sinais de intolerância a fluidos:

  • Padrão B bilateral
  • Distribuição gravitacional (predomínio basal)
  • Possível derrame pleural

Esses achados indicam extravasamento para terceiro espaço. Nesses casos, mais fluidos tendem a causar dano.

2. Avaliação de congestão venosa – VExUS

O Venous Excess Ultrasound Score (VExUS) avalia congestão sistêmica por meio do Doppler das veias:

  • Hepática
  • Porta
  • Interlobares renais

É aplicável em pacientes com VCI > 2 cm e permite estratificar a gravidade da congestão venosa de forma mais precisa.

Figura. Como realizar VExUS. Refrencia: PMID: 35369665
Figura. Como interpretar VExUS. Refrencia: PMID: 32270297

Avaliação da fluidorresponsividade: Passive Leg Raising (PLR)

O método mais confiável à beira-leito é a manobra de elevação passiva dos membros inferiores, que simula uma autotransfusão de aproximadamente 300–400 ml.

Critério:

  • Aumento ≥ 10% do débito cardíaco → paciente fluidorresponsivo

Como medir o débito cardíaco no ecocardiograma

O DC é calculado pela fórmula:

DC = Volume Sistólico x FC

Para calcular o volume sistólico é preciso conhecer o diâmetro da Via de Saída do Ventrículo Esquerdo e o seu VTI, ou integral de velocidade, um cálculo indireto da distância alcançada pela coluna de sangue ejetado do ventrículo.

Vamos partir do pressuposto que a VSVE é um cilindro e que o volume sistólico corresponde ao volume desse cilindro.

Figura. Via de saída do VE. Diâmetro medido em janela paraesternal eixo longo

Para calcular o volume vamos precisar primeiro calcular a área da base e em seguida multiplicar pela altura do cilindro.

A área da base = πr² onde r é o diâmetro/2 e pi é um valor fixo.

Para obter o VTI, que corresponde a altura do cilindro, precisaremos de uma janela apical 5 câmaras e do doppler pulsado.

Figura. Doppler pulsado na via de saída do VE e medida do VTI.

O VTI é então obtido contornado a curva dada pelo doppler pulsado. O cálculo final do DC é:

DC = VTI x πr² x FC

Faremos isso com o paciente sentado a 45º. Em seguida, realizaremos uma elevação passiva de seus membros inferiores – que corresponderá a uma autotransfusão de cerca de 300 a 400ml de sangue da circulação inferior para circulação central, e mediremos novamente o VTI, recalculando então o DC. Caso haja aumento de 10% do DC, consideramos o paciente fluidorresponsivo e provavelmente há benefício em administrar fluidos.

Figura. Manobra de elevação passiva das pernas

Vamos retomar o passo a passo:

O uso do doppler é difícil e requer treinamento avançado em ultrassonografia point-of-care, por isso, se você ainda não se sente preparado para tomar decisões usando essa ferramenta, a minha sugestão para simplificar é:

Se paciente segue sem sinais de congestão pulmonar ao POCUS e se a sua VCI não está pletórica (diâmetro > 2cm e sem variabilidade respiratória), você pode seguir administrando pequenas alíquota de fluido (250 a 500ml) e reavaliando o pulmão e a VCI sequencialmente, suspendendo a administração caso o paciente deixe de precisar das medidas ou caso deixe de ser tolerante. Uma dica: avalie sempre a função cardíaca do paciente. Aqueles com disfunção importante irão tolerar menos fluido, portanto você deve fazer alíquotas menores e reavaliar ainda com mais frequência.

Mensagens-chave para a prática clínica

  • Fluidos são medicações e possuem efeitos adversos
  • O ultrassom não deve atrasar a ressuscitação inicial
  • VCI não prediz fluidorresponsividade
  • Fluidotolerância ≠ Fluidorresponsividade
  • Avalie sempre necessidade, tolerância e resposta

Referências:

KORATALA, Abhilash; RONCO, Claudio; KAZORY, Amir. Diagnosis of fluid overload: from conventional to contemporary concepts. Cardiorenal Medicine, Basel, v. 12, n. 3, p. 141–154, 2022. DOI: 10.1159/000526902.

ARGAIZ, Eduardo R.; KORATALA, Abhilash; REISINGER, Nathaniel. Comprehensive assessment of fluid status by point-of-care ultrasonography. Kidney360, Washington, DC, v. 2, n. 8, p. 1326–1338, 2021. DOI: 10.34067/KID.0006482020.

KATTAN, Eduardo et al. The emerging concept of fluid tolerance: a position paper. Journal of Critical Care, Philadelphia, v. 71, p. 154070, 2022. DOI: 10.1016/j.jcrc.2022.154070.

MARIK, Paul E.; BARAM, Michael; VAHID, Bobbak. Does central venous pressure predict fluid responsiveness? A systematic review of the literature and the tale of seven mares. Chest, Chicago, v. 134, n. 1, p. 172–178, 2008. DOI: 10.1378/chest.07-2331.

MALBRAIN, Manu L. N. G.; VAN REGENMORTEL, Niels; SAUGEL, Bernd; DE TAVERNIER, Brecht; VAN GAAL, Pieter-Jan; JOANNES-BOYAU, Olivier; TEBoul, Jean-Louis; RICE, Todd W.; MYTHEN, Monty; MONNET, Xavier. Principles of fluid management and stewardship in septic shock: it is time to consider the four D’s and the four phases of fluid therapy. Annals of Intensive Care, London, v. 8, n. 1, p. 66, 2018. DOI: 10.1186/s13613-018-0402-x.









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