Fitocanabinoides na saúde mental: confira o artigo da Dra. Maitê Dahdal sobre esse tema cada vez mais recorrente no campo da medicina.
Nos últimos anos, a cannabis medicinal tem emergido como uma opção terapêutica promissora em diversas áreas da saúde, incluindo a saúde mental. Mas o que exatamente é a cannabis medicinal, como ela pode impactar o cérebro, e quais condições de saúde mental podem se beneficiar de seu uso? Vamos explorar essas questões e entender o que o futuro nos reserva.
O que é cannabis medicinal?
Cannabis medicinal refere-se ao uso dos fitocanabinoides—compostos encontrados na planta cannabis—com fins terapêuticos. A planta contém mais de 100 canabinoides, sendo o THC (Δ9-tetrahidrocanabinol) e o CBD (canabidiol) os mais estudados. Ambos possuem potenciais efeitos terapêuticos em distúrbios de saúde mental.
No Brasil, o uso medicinal da cannabis pode envolver extratos ou produtos específicos que contêm quantidades padronizadas de THC, CBD, ou uma combinação de ambos. Esses produtos são utilizados para tratar uma variedade de condições, que vão desde dores crônicas até doenças neurológicas e mentais. Se você quiser saber mais detalhes sobre os fitocanabinoides e o sistema endocanabinoide, confira outro texto na minha coluna que explora esses tópicos em profundidade.
Por que o cannabis medicinal pode ter efeito na saúde mental?
O impacto da cannabis medicinal na saúde mental está diretamente relacionado ao sistema endocanabinoide (SEC), uma rede complexa de receptores e substâncias químicas endógenas que desempenha um papel crucial no sistema nervoso central (SNC). O SEC regula uma série de processos fisiológicos, como humor, memória, apetite e dor.
Os receptores do SEC, especialmente os receptores CB1 e CB2, estão amplamente distribuídos no cérebro e interagem com os canabinoides. O THC, por exemplo, se liga aos receptores CB1, afetando a liberação de neurotransmissores e, assim, modulando o humor e a percepção. O CBD, por outro lado, parece atuar como um modulador, possivelmente aumentando os níveis de endocanabinoides como a anandamida, que está associada ao alívio de sintomas depressivos e ansiosos.
Quais doenças podem ser beneficiadas pelo cannabis medicinal?
Embora ainda sejam necessários mais estudos para estabelecer recomendações clínicas definitivas, várias condições de saúde mental têm mostrado respostas promissoras ao tratamento com cannabis medicinal:
Depressão
Estudos sugerem que a modulação do SEC pode ter efeitos antidepressivos, especialmente com o uso de CBD. No entanto, o uso prolongado de THC pode agravar os sintomas depressivos, destacando a importância da dosagem e do acompanhamento médico.
Ansiedade
O CBD tem demonstrado propriedades ansiolíticas em doses baixas, sendo eficaz na redução de sintomas de transtornos de ansiedade, como o transtorno de ansiedade social.
Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)
A cannabis, particularmente o CBD, tem mostrado potencial na redução de sintomas de TEPT, como pesadelos e hipervigilância, ao regular a resposta ao estresse através do SEC.
Esquizofrenia
O uso de CBD como um tratamento adjunto tem mostrado benefícios em reduzir sintomas psicóticos, embora o THC deva ser evitado em pacientes esquizofrênicos devido ao risco de exacerbação dos sintomas.
O que esperar da cannabis medicinal na saúde mental no futuro?
O futuro da cannabis medicinal na saúde mental é promissor, mas também repleto de desafios. Assim, a pesquisa clínica precisa continuar, com ensaios mais robustos que possam esclarecer as melhores práticas em termos de dosagem, forma de administração e populações-alvo. Além disso, o desenvolvimento de novos medicamentos baseados em canabinoides pode oferecer alternativas terapêuticas mais seguras e eficazes.
Enquanto aguardamos mais evidências, é crucial que o uso de cannabis medicinal seja feito sob orientação médica rigorosa, especialmente em pacientes com transtornos psiquiátricos. Com mais pesquisas bem como regulamentações adequadas, a cannabis medicinal pode se firmar como uma ferramenta valiosa no arsenal terapêutico para a saúde mental.
Então, vamos estudar, participar dessa vanguarda e explorar as possibilidades de adicionar os fitocanabinoides à nossa caixinha de ferramentas de trabalho.
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Referências bibliográficas
- Fadda, P., et al. (2020). Cannabinoids and their therapeutic applications in mental disorders. Dialogues in Clinical Neuroscience, 22(3), 271-279. doi:10.31887/DCNS.2020.22.3/pfadda.
- Hill, M.N., et al. (2008). Serum endocannabinoid content is altered in females with depressive disorders: a preliminary report. Pharmacopsychiatry, 41(2), 48-53.
- Leweke, F.M., et al. (2012). Cannabidiol enhances anandamide signaling and alleviates psychotic symptoms of schizophrenia. Translational Psychiatry, 2(1), e94.
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