1. Definição
As hemácias, também chamadas de glóbulos vermelhos ou eritrócitos, embora sejam anucleadas, são células que desempenham uma importante e complexa função no organismo: por meio da hemoglobina, carregam oxigênio dos pulmões aos tecidos e dióxido de carbono dos tecidos aos pulmões, assim, garantem uma boa perfusão tecidual.
Elas são as células mais abundantes no sangue, possuem forma homogênea circular e bicôncavas. A sua produção, que será esclarecida ao longo desse resumo, é denominada Eritropoese e para que ela ocorra é necessário eritropoetina e fatores nutricionais adequados.
2. Eritropoese
Em condições normais, a Eritropoese, que é a produção e maturação de hemácias, ocorre na medula óssea, sendo produzidos lá cerca de 200 bilhões de glóbulos vermelhos por dia.
Para que ocorra essa produção, há uma sequência na medula óssea que antecede as células da linhagem eritroide. Primeiro, é produzida a célula-tronco hematopoética pluripotente (PHSC), a qual pode originar todas as células presentes no sangue. Após essa célula, há a sua transformação em uma unidade formadora de colônia-baço (CFU-S), depois em uma unidade formadora de colônia-blasto (CFU-B) e, finalizando essa parte do processo, em uma unidade formadora de colônia-eritrócitos (CFU-E).
Após essa parte, acontece uma sequência de desenvolvimento celular. A linhagem eritroide é, por ordem de maturação, composta por: Pró-eritroblasto, Eritroblasto basófilo (ou iniciais), Eritroblasto policromatófilo e Eritroblasto ortocromático (ou desenvolvidos). A medida que essas células vão se desenvolvendo, o núcleo vai amadurecendo, diminuindo e deixando a cromatina mais condensada, até que a célula perde a capacidade de divisão. (Figura 1)
Esses percursores têm intensa capacidade proliferativa, além de intensa síntese proteica – os eritroblastos, por exemplo, tem como principal proteína sintetizada a hemoglobina.
O Eritroblasto ortocromático, último da linhagem eritroide, perde o núcleo e torna-se um Reticulócito, que é chamado de hemácia imatura. O reticulócito permanece de um a três dias na medula óssea e é liberado para a circulação sanguínea. Após um ou dois dias na circulação, ele perde as organelas, o volume é um pouco reduzido, cessa a síntese proteica e ele adquire coloração própria de hemácia (vermelho).

Fonte: https://www.sanarmed.com/resumo-eritropoiese-processo-componentes
3. Eritropoese Ineficaz
Quando, por diversos motivos, os eritroblastos não completam a maturação, eles são destruídos pela própria medula óssea e esse processo representa a parte da eritropoese ineficaz. Em condições normais, a porcentagem dessa “ineficácia” é de 4 a 12%. Algumas patologias fazem com que essa porcentagem aumente, são elas: talassemias, anemias megaloblásticas, eritoleucemia e síndromes mielodisplásicas.
Nos exames laboratoriais, o aumento da eritropoese ineficaz pode apresentar hiperplasia eritroide da medula óssea, reticulócitos baixos e pequeno aumento da bilirrubina indireta.
4. Eritropoetina
A Eritropoetina em sua maior parte é produzida pelo tecido renal e uma pequena parte é produzida por hepatócitos.
É também um hormônio glicoproteico, sendo o principal fator de crescimento da regulação das hemácias.
Havendo pouca oxigenação nos rins a produção de eritropoetina pode aumentar em até mil vezes como mecanismo de compensação, sendo denominada de Policitemia secundária. Isso pode ocorrer por diversas patologias, como em algumas anemias, na doença pulmonar obstrutiva crônica, na apneia do sono, no tabagismo, na cardiopatia congênita, entre outras, ou pode ocorrer como um mecanismo de adaptação, como em indivíduos que moram em grandes altitudes.
Quando um paciente apresenta anemia, mas os níveis de eritropoetina não estão aumentados, demostra que há uma produção deficiente desse hormônio, já que há grande sensibilidade do rim para essa detecção. Além disso, outras anormalidades podem causar essa deficiência de produção, como doenças autoimunes, neoplasias e AIDS.
5. Fatores Nutricionais
Para a produção das hemácias é primordial uma boa alimentação, isso porque, como iremos detalhar mais a frente, a falta de alguns nutrientes pode desfavorecer as etapas de sua maturação.
Algumas carências nutricionais acarretam anemia (definida pela baixa quantidade de hemoglobina no sangue), como, por exemplo, a anemia megaloblástica e a anemia ferropriva.
5.1 Vitamina B12 e Folatos
A carência da vitamina B12 e de folatos é hoje menos encontrada na prática médica, mas quando ocorre, atinge principalmente grávidas, alcóolatras, idosos e pessoas de baixa renda. As alterações na produção das hemácias devido à falta desses nutrientes podem desencadear uma anemia megaloblástica.
A vitamina B12 e o folato são indispensáveis na formação de timina (uma das bases nitrogenadas encontradas no DNA), ou seja, para a síntese de novas células é preciso que esses nutrientes estejam presente no nosso organismo. Concluímos que para a eritropoese acontecer normalmente, precisamos ter em quantidade adequada desses dois nutrientes.
Quando há carência desses nutrientes, ocorre uma desordem na maturação nuclear, principalmente na série eritroide, fazendo com que apenas 10 a 20% dos eritrócitos sobrevivam e tornem-se viáveis, portanto, sendo a maior parte eritropoese ineficaz. Gerando, assim, anemia, que nesse caso é denominada Anemia Megaloblástica.
5.2 Ferro
A hemoglobina (proteína presente na hemácia responsável pelo transporte de oxigênio) é composta por quatro grupos heme. O ferro atua justamente na síntese do heme, ou seja, sem a presençaa desse fator nutricional não há formação do grupo heme e, consequentemente, não há formação de hemácias.
A deficiência de ferro está presente principalmente na população de baixa renda e é, de acordo com a OMS, responsável por 75% das causas de anemia, sendo denominada anemia falciforme. A principal causa dessa carência é a baixa ingestão desse nutriente.
6. Conclusão
Conhecer o mecanismo de produção e maturação das hemácias é necessário, visto que é uma célula complexa e primordial para o funcionamento do organismo, sem o conhecimento sobre ela, não é possível entender como ocorre a perfusão de todos os tecidos do corpo.
Autor: Bianca Reis
Instagram: @biancareisf
Referências
ZAGO, Marco Antonio; FALCÃO, Roberto Passetto; PASQUINI, Ricardo. Hematologia: fundamentos e prática. [S.l: s.n.], 2014.
Guyton A, Hall J. Tratado de Fisiologia Médica. 13 Ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2006.
https://www.sanarmed.com/uma-breve-revisao-sobre-a-fisiologia-dos-globulos-vermelhos-colunistas
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