Visão Geral
Embora seja o único evento pelo qual todo ser humano passará, ainda é frequente a estigmatização do óbito. A morte e a finitude ainda causam pânico, tristeza e angústia, sobretudo, na cultura ocidental.
Comumente, o medo da morte e as reflexões intrínsecas são mais comuns em doentes crônicos, em pessoas no processo de envelhecimento e em pacientes com risco de morte iminente, excluindo a população geral dessa preocupação constante.
Todavia, essa perspectiva se altera em cenários de mortes coletivas e imprevisíveis, como a presente pandemia do coronavírus, o qual aproxima toda a população da consciência de sua finitude.
Além da finitude consciente e potencialmente próxima, lidar com o luto e com o medo da perda de pessoas amadas acomete negativamente a saúde mental. O isolamento social imposto pela transmissão viral agrava o impacto psíquico da pandemia, tornando o adoecimento mental uma importante questão em saúde, paralelamente à Covid-19.
A espiritualidade e a busca de sentido da vida ascendem como fatores de proteção e recuperação dos danos psíquicos nesse contexto.
Pandemia e Saúde Mental
Enquanto o coronavírus parecia ter um público-alvo (grupo de risco) para infecção, o acometimento psíquico foi observado nas diversas faixas etárias e nos diversos grupos sociais.
Torales et al (2020) demonstram que o medo do desconhecido provoca os mais altos níveis de ansiedade tanto em pessoas saudáveis quanto em pessoas com comorbidades mentais pré-existentes.
Em revisão sistemática da literatura, Vindegaard et al. evidenciam que pacientes diagnosticados com Covid-19 tiveram elevados índices de sintomas característicos de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e níveis ainda maiores de sintomas depressivos.
De modo geral, a literatura demonstra aumento generalizado de adoecimento mental após o surto viral, sendo o isolamento social e a mudança de hábitos os principais desencadeantes de sintomas depressivos e ansiosos em crianças e idosos. Já na população adulta, as principais causas de adoecimento psíquico são o medo do desconhecido, a exposição a informações de mortos e infectados e a proximidade da morte (consciência da finitude).
O medo em si é importante fator ansiogênico. Nesse sentido, Rodrigues evidencia a morte como um dos maiores medos da espécie humana:
A morte é, sem dúvida, a maior adversidade com que o homem se defronta. Não tanto a morte em si, mas o simples conhecimento de que sua vida se extinguirá irreversível e inescapavelmente. (Rodrigues, 1991, p. 181)
Sendo assim, estratégias de enfrentamento à proporção pandêmica da morte são necessárias para a manutenção da saúde mental diante do presente contexto.
Finitude
Segundo o Dicionário Online de Português, finitude é a “característica, particularidade ou condição do que é finito”.
A sociedade ocidental não tem a cultura de discutir ou pensar constantemente na morte alheia ou própria. Nada obstante, a alta mortalidade causada pelo coronavírus culminou num aumento considerável do processo de tomada de consciência da própria finitude por um público que outrora não lhe tinha como ideia fixa.
O Instituto Brasileiro de Direito da Família (IBDFAM), por exemplo, evidencia que a Covid-19 gerou uma “corrida” pela procura de elaboração de testamentos e planejamento sucessório.
A generalização da proximidade da morte torna necessária a discussão a respeito da finitude, o que, em outros contextos, era feito, majoritariamente, por pacientes e profissionais em cuidados paliativos.
Em tempo, faz-se necessário o apontamento de que “cuidados paliativos” consistem na abordagem especializada no alívio da dor e na promoção de bem-estar físico, mental e espiritual de pacientes que não respondem aos tratamentos curativos. Ou seja, consiste na promoção de dignidade e qualidade de vida no enfrentamento da morte.
A literatura enfatiza a importância dos mecanismos de enfrentamento para a manutenção da saúde física e, sobretudo, mental ante a morte. Entre as necessidades de pacientes graves e terminais, as mais emergentes consistem na espiritualidade e na busca de sentido da vida.
Para um conhecimento melhor acerca da espiritualidade, sugere-se a leitura do texto: Espiritualidade em saúde. Em suma, “espiritualidade consiste na individualidade expressa por cada ser humano por meio do que lhe traz bem-estar e significado à vivência.” (Simões, 2020).
Sentido da vida
O psiquiatra austríaco Viktor Emil Frankl fundou a chamada “Psicologia do Sentido da Vida” ou “Logoterapia”, ciência que explora a busca de liberdade e sentido da vida. É definida ainda como psicoterapia orientada para a conscientização espiritual.
Ressalta-se que o termo “espiritual”, na logoterapia, não tem menção religiosa. Sua significação consiste na vivência da liberdade e da responsabilidade diante da tomada de decisões.
Esta ciência está em ascensão na literatura, sobretudo, nos cuidados paliativos e nas discussões existenciais do fim da vida. Tendo em vista que a pandemia aproximou toda a população dessa condição, a discussão se populariza, sobremaneira, como um fator protetor da saúde mental e espiritual.
A espiritualidade é uma dimensão do ser humano e está intimamente associada à logoterapia, à significação da vida e a melhores índices de saúde mental, como cita a autora:
“ter um propósito/sentido da vida médio/elevado parece ser protetor de estados depressivos, assim como, ter um nível elevado de espiritualidade (sentido/paz), nomeadamente quando a doença está presente, é um fator protetor dos sintomas depressivos. Ter um nível superior de espiritualidade também está associado a um grau superior de propósito/sentido da vida.” (Marques, 2016)
Conclusões
Em síntese, o cenário pandêmico causado pelo coronavírus aproximou a população global da morte, acarretando maiores índices de adoecimento mental generalizado. Nesse sentido, a literatura evidencia a espiritualidade e o sentido da vida como importantes fatores de enfrentamento dos sintomas psíquicos e melhoria da qualidade de vida.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
REFERÊNCIAS
A COVID 19 e a (perigosa) corrida para a elaboração de testamentos. 2020. Disponível em: https://ibdfam.org.br/artigos/1392/A+CONVID+19+e+a+(perigosa)+corrida+para+a+elabora%C3%A7%C3%A3o+de+testamentos
Duarte, Michael de Quadros et al. COVID-19 e os impactos na saúde mental: uma amostra do Rio Grande do Sul, Brasil. Ciência & Saúde Coletiva [online]. v. 25, n. 9 [Acessado 22 Março 2021] , pp. 3401-3411. Disponível em:
Vindegaard N, Benros ME. COVID-19 pandemic and mental health consequences: Systematic review of the current evidence. Brain Behav Immun. 2020 Oct;89:531-542. doi: 10.1016/j.bbi.2020.05.048. Epub 2020 May 30. PMID: 32485289; PMCID: PMC7260522.
Torales J, O’Higgins M, Castaldelli-Maia JM, Ventriglio A. O surto de coronavírus COVID-19 e seu impacto na saúde mental global. Jornal Internacional de Psiquiatria Social . 2020; 66 (4): 317-320. doi: 10.1177 / 0020764020915212
Mata, IRS. The implications of the COVID-19 pandemic on children’s mental health and behavior. Disponível em https://cdn.publisher.gn1.link/residenciapediatrica.com.br/pdf/pprint377.pdf
Aydogdu, ALF. Children’s mental health during the pandemic caused by the new coronavirus: integrative review. Journal Health NPEPS. 2020 jul-dez; 5(2):e4891. http://dx.doi.org/10.30681/252610104891
EVANGELISTA, Carla Braz et al. Cuidados paliativos e espiritualidade: revisao integrativa da literatura. Rev. Bras. Enferm. [online]. 2016, vol.69, n.3 [cited 2021-03-22], pp.591-601. Available from:
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Marques, AM. Sentido da vida, espiritualidade e saúde mental – Que relação? Apresentado para a obtenção do grau de Mestre em Psiquiatria e Saúde Mental. Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, Porto, Setembro de 2016