Fibrilação atrial: entenda como ocorre a arritmia cardíaca mais comum! | Colunistas

  • dezembro 11, 2020
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A fibrilação atrial (FA) é um tipo de arritmia cardíaca – e é a mais comum. Essa alteração se dá quando o coração, por alguma razão, apresenta alteração de seu ritmo normal, chamado de ritmo sinusal.

As arritmias podem ocorrer na forma de bradicardias, quando a frequência cardíaca (FC) é reduzida (abaixo de 60 bpm); de taquicardias, quando a FC é elevada (acima de 100 bpm); ou ainda por irregularidade do ritmo.

A depender do local de origem da arritmia no coração, ela pode ser classificada como:

1) Arritmia supraventricular: aquela que tem origem nos átrios;

2) Arritmia ventricular: originada nos ventrículos.

Dito isso, a abordagem da FA pode apresentar algumas particularidades. Vamos conhecê-la melhor?

De onde vem a fibrilação atrial?

Essa conhecida arritmia trata-se de um ritmo irregular que tem origem nos átrios, como o nome já diz, né? Sua prevalência aumenta em pacientes portadores de doença cardíaca e com o avançar da idade, atingindo mais de 10% dos idosos acima de 70 anos. Homens e brancos têm maior probabilidade de desenvolvê-la do que mulheres ou negros.

Em vez de um único estímulo elétrico (originado no nó sinusal) viajar até o nó atrioventricular (AV) e depois aos ventrículos, para que aconteça o batimento cardíaco, há múltiplos pequenos estímulos elétricos ocorrendo de forma caótica dentro dos átrios, como pode ser observado na figura 1. Em muitos casos, o disparo de um foco ectópico dentro de estruturas venosas adjacentes aos átrios, como as veias pulmonares, é o responsável pelo início e manutenção da FA.

Na FA, os átrios não se contraem adequadamente e o sistema de condução AV é bombardeado por muitos estímulos elétricos, acarretando inconsistência na transmissão do impulso e consequentemente na frequência cardíaca, que fica irregular.

Figura 1. Comparação entre coração com ritmo sinusal e em circuitos de FA.
Fonte: http://abapaposentados.com.br/test/?p=280

E essa alteração apresenta sinais e sintomas?

A apresentação pode ser assintomática.

Quando há sintomas, os mais comuns são palpitação, fadiga, cansaço aos esforços, dispneia, tontura ou até mesmo síncope. O surgimento de FA pode exacerbar sintomas de doenças pré-existentes, como aumentar os episódios de angina em pacientes com doença coronariana ou agravar a dispneia, em casos de insuficiência cardíaca – isso ocorre, geralmente, em situações de FC elevada.

Às vezes, pode ocorrer a formação de trombos dentro dos átrios, devido à contratilidade inadequada destas câmaras e estase sanguínea. Por isso, a FA é um fator de risco importante para eventos tromboembólicos, com risco 5 a 7 vezes maior desses pacientes apresentarem um AVC, comparado à população normal.

Classificação

A FA pode ser classificada de acordo com sua duração.

  •  FA aguda: aquela que teve início há menos de 48 horas.
  • FA paroxística: é revertida espontaneamente ou com intervenção médica em até 7 dias de seu início, mas reaparece de forma intermitente.
  • FA persistente: duração maior que 7 dias e menor que 1 ano.
  • FA persistente de longa duração: duração maior que 1 ano.
  • FA permanente: casos em que as tentativas de reversão ao ritmo sinusal não serão mais instituídas, optando-se por controle da FC.

Além disso, também é importante classificar se a FA é de origem valvar ou não. 

  • FA valvar: ocorre secundariamente a doenças da válvula mitral (como na estenose mitral moderada ou severa).
  • FA não valvar: é aquela que aparece independentemente da presença de doença valvar.

Quais são as causas?

Alguns quadros podem predispor ao seu aparecimento, sendo fatores de risco: hipertensão arterial sistêmica, doença arterial coronariana, insuficiência cardíaca, doença valvar, doenças cardíacas congênitas, doença pulmonar crônica, doenças da tireoide e pós-operatório de cirurgia cardíaca.

O surgimento da FA também está associado à ingestão de bebida alcoólica em excesso, uso de drogas ou alterações nas concentrações de alguns eletrólitos sanguíneos.
Em alguns casos, a FA pode ser idiopática, ou seja, não ter um fator causal identificado.

Como é feito o diagnóstico?

Além do exame físico, com a realização da ausculta cardíaca, alguns exames podem auxiliar:

  • ECG: quando o ritmo de base é uma FA, os intervalos RR são irregulares e a onda P (impulso que representa a contração dos átrios) não é visualizada (figura 2). Pode-se verificar irregularidades da linha de base com frequência > 300 bpm, geralmente mais bem vistas na derivação V1 e nem sempre aparentes em todas as derivações (figura 3);
Figura 2 – Comparação entre ECG com FA e ritmo sinusal.
  • Holter 24 horas: trata-se de um aparelho portátil que faz monitorização do paciente através do ECG por 24 horas. É possível identificar casos em que a FA é paroxística;
  • Monitor de eventos (looper): aparelho que funciona de modo semelhante ao Holter, mas permanece por mais tempo. Como as crises de FA podem ser limitadas e intermitentes, dificultando o diagnóstico em alguns casos, pode ser necessário monitorar o ritmo por períodos prolongados (semanas ou meses);
  • Teste ergométrico: útil para diagnosticar a FA que surge durante esforços físicos.
  • Tem tratamento?

Sim!

O tratamento da fibrilação atrial consiste em alguns pontos chaves: tratar a causa básica, se houver, controlar a frequência cardíaca e restaurar o ritmo sinusal, em casos específicos, e prevenir a formação de trombos reduzindo o risco de complicações tromboembólicas.

A anticoagulação é sempre uma preocupação em pacientes que apresentam essa arritmia.

Quem deve ser anticoagulado?

Existe um escore de risco, o CHA2DS2-VASc, amplamente utilizado para orientar na definição de quais pacientes têm um benefício maior com a anticoagulação (figura 4):

Figura 4 – Escore para uso de anticoagulação.
Fonte: https://journal.chestnet.org/article/S0012-3692(10)60067-0/fulltext

A conduta, de acordo com a classificação, seria:

  • Alto Risco (2 pontos ou mais): anticoagulação plena;
  • Risco Intermediário (1 ponto): pode-se anticoagular, mas deve-se avaliar caso a caso;
  • Baixo Risco (0 pontos): não se deve usar anticoagulante. Há algum tempo, indicava-se o uso do AAS para esse grupo, porém seu benefício não está bem estabelecido e ainda pode ocorrer eventos adversos como sangramentos.

Além da anticoagulação, alguns pacientes receberão medicamentosapenas para controlar a FC e outros poderão ser submetidos a terapias que visem à reversão do ritmo de FA para o ritmo sinusal, que pode ser por meio de medicamentos, cardioversão elétrica ou ainda ablação por cateter.


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências:

  • Nascimento, V. M. V. et al. Manual de Cardiologia para Graduação. 1 ed. Salvador: Editora Sanar, 2018.
  • January CT, Wann S, Alpert JS, et al: 2014 ACC/AHA/HRS Guideline for the management of patients with atrial fibrillation: a report of the American College of Cardiology/American Heart Association Task Force of Practice Guidelines and the Heart Rhythm Society. Circulation130:2071-2104, 2014.

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