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Fibrilação atrial e hipertensão arterial sistêmica: há relação? | Colunistas

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Duas das principais patologias do sistema cardiovascular estão descritas no título deste artigo. Muitas vezes abordadas de maneira acadêmica e isoladas sistematicamente, a hipertensão arterial sistêmica (HAS) e a fibrilação atrial (FA) possuem alguns aspectos que sugerem uma fisiopatologia correlata entre elas, constituindo um ciclo inócuo a uma patologia de via final cardíaca. Neste presente artigo, elencarei as principais correlações entre estas patologias.

Relembrando conceitos

A hipertensão arterial sistêmica é definida como uma condição clínica multifatorial caracterizada por elevação sustentada dos níveis pressóricos sistólicos (PAS) maiores ou iguais a 140 e/ou níveis pressóricos diastólicos (PAD) maiores ou iguais a 90 mmHg a hipertensão arterial corresponde à patologia crônica não transmissível com maior morbimortalidade no mundo.

A fibrilação atrial, por sua vez, é definida como uma arritmia supraventricular por atividade elétrica atrial desorganizada intimamente relacionada com doenças cerebrovasculares e cognitivas (demência e acidente vascular cerebral principalmente).

Contextualizando o atual momento

Atualmente múltiplos estudos têm se direcionado à ambas patologias, principalmente por questões epidemiológicas transacionais sob a perspectiva de aspectos socioculturais tão significativamente expostos pela transição demográfica. Em especial, na distribuição das faixas etárias, principalmente as mais idosas ao longo do tempo, (figura 1 e figura 2) que reverbera nas questões de saúde pública com o aumento das doenças crônicas não transmissíveis.

Figura 1: Estrutura etária da população brasileira de 2010, segundo o censo demográfico do IBGE. Fonte: RIGOTTI, José Irineu Rangel. Transição demográfica. Educação & Realidade, v. 37, n. 2, p. 467-490, 2012.
Figura 2: Projeção demográfica da CENEPLAR para estrutura etária da população brasileira em 2050. Fonte: RIGOTTI, José Irineu Rangel. Transição demográfica. Educação & Realidade, v. 37, n. 2, p. 467-490, 2012.

A correlação entre epidemiologias

Mediante a todo este cenário de longevidade cronológica e aumento de prevalência das doenças crônicas não transmissíveis, devemos destacar as patologias abordadas pelos seguintes pontos:

  • A hipertensão arterial sistêmica é a principal causa cardiovascular de morbimortalidade no mundo. É mais prevalente em homens e têm como característica o aumento de sua prevalência com a idade, chegando a 71,7% para os indivíduos de 70 anos ou mais.
  • A fibrilação atrial vem sob uma perspectiva de crescente epidemiológica com uma prevalência esperada nos Estados Unidos de 15,9 milhões de doentes até 2050. O sexo masculino também é o mais acometido, com uma relação de 1,2:1 (Homem : Mulher). Possui uma importante relação com o avanço da idade, sendo a prevalência de 0,1% abaixo de 60 anos e 8% em maiores de 80 anos.

Como correlação entre elas, a hipertensão arterial é por si só, o fator de risco independente mais comum de FA tendo como principal implicação o dobro do risco de desenvolver FA.

Vale ressaltar também um importante estudo na literatura médica atual que nos traz à tona não só uma ferramenta de possível rastreio e consequentemente um aumento exponencial na prevalência de FA de aspecto mundial, mas também um paradoxo entre método de rastreio versus comprometimento com o tratamento da fibrilação atrial em questão.

O estudo foi feito sob a perspectiva dos usuários de Apple Watch que recebiam um alerta através do próprio wearable com ou sem qualquer tipo de sintomatologia, de um ritmo de fibrilação atrial, captado através de um algoritmo no software do próprio smartwatch sem a necessidade do eletrocardiograma convencional, o que por sua vez nos traria um aumento da incidência desta patologia sem necessariamente estar correlacionado com a idade ou qualquer outro fator que justificasse o rastreio epidemiológico.

Este é o famoso The Apple Heart Study (2019) que de maneira geral nos trouxe essa grande questão: devemos tratar uma fibrilação atrial silenciosa? A resposta ainda não está bem clara na literatura e precisamos de mais estudos para poder enfim traçar novos planos terapêuticos/diagnósticos advindos da nova tecnologia.

A correlação clínica

O conjunto da Hipertensão Arterial e a Fibrilação Atrial promovem uma série de modificações em diversos aspectos: mudanças estruturais, hemodinâmicas e mudanças no sistema nervoso autonômico (condução eletrofisiológica dos cardiomiócitos).

A fibrose e o consequente remodelamento cardíaco desencadeado pela Hipertensão arterial sistêmica geram em seu contexto um desarranjo estrutural e interferência no sistema de condução elétrica cardíaca.

A diminuição do potencial de ação ocasionado por tal interferência, reflete a inúmeras flutuações no potencial de ação que ocasiona principalmente diminuição da pressão arterial. Como todo processo de redução de pressão arterial há a ativação do sistema-renina-angiotensina-aldosterona.

Todo este processo reverbera em um aumento na fibrogênese com aumento da inflamação e de todo o processo apoptótico entre os miócitos e células da condução elétrica causando principalmente a fibrilação atrial persistente.

De maneira esquemática e adaptada do artigo de GUMPRECHT, J. et.al., trago-lhes o ciclo perpétuo entre HAS e FA (fluxograma 1):

Fluxograma 1- Relação esquemática entre Hipertensão Arterial Sistêmica, Fibrilação atrial e suas principais ações desencadeadoras do ciclo clínico-patológico. SRAA: Sistema Renina Angiotensina Aldosterona. Fonte: Adaptado de Gumprecht, J., Domek, M., Lip, G. Y. H., & Shantsila, A. (2019). Invited review: hypertension and atrial fibrillation: epidemiology, pathophysiology, and implications for management. Journal of Human Hypertension. doi:10.1038/s41371-019-0279-7

Conclusão

Ambas as patologias se correlacionam em diversos cenários fazendo entre eles um ciclo inócuo do qual aumentam exponencialmente um desfecho desfavorável.

Estudos sugerem que pacientes com as duas comorbidades se beneficiam simplesmente de um tratamento adequado de suas doenças de base, sendo recomendado preferencialmente anti-hipertensivos da classe dos iECAs que parecem ter uma correlação também na diminuição do aparecimento de novos episódios de fibrilação atrial. A anticoagulação também deve ser mantida sob critérios de estratificação de risco (CHA2DS2VASc), além do controle e do ritmo cardíaco preconizado no tratamento da fibrilação atrial.

Portanto, uma forte adesão ao tratamento e um rastreio precoce destas patologias podem garantir uma melhor sobrevida para estes pacientes.

Nome: José Héracles Rodrigues Ribeiro de Almeida

Instagram: @joseheracles


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências

  • RIGOTTI, José Irineu Rangel. Transição demográfica. Educação & Realidade, v. 37, n. 2, p. 467-490, 2012.
  • Magalhães LP, Figueiredo MJO, Cintra FD, Saad EB, Kuniyishi RR, Teixeira RA, et al. II Diretrizes Brasileiras de Fibrilação Atrial. Arq Bras Cardiol 2016; 106(4Supl.2):1-22
  • Turakhia MP, Desai M, Hedlin H, et al. Rationale and design of a large-scale, app-based study to identify cardiac arrhythmias using a smartwatch: The Apple Heart Study. Am Heart J 2019; 207:66.
  • January CT, Wann LS, Calkins H et al. 2019 AHA/ACC/HRS focused update of the 2014 AHA/ACC/HRS guideline for the management of patients with atrial fibrillation: a report of the American College of Cardiology/American Heart Association Task Force on Clinical Practice Guidelines and the Heart Rhythm Society. Circulation. 2019;139. doi:10.1161/CIR.0000000000000665
  • Gumprecht, J., Domek, M., Lip, G. Y. H., & Shantsila, A. (2019). Invited review: hypertension and atrial fibrillation: epidemiology, pathophysiology, and implications for management. Journal of Human Hypertension. doi:10.1038/s41371-019-0279-7

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