Tudo que você precisa saber sobre a fibrilação atrial de alta resposta ventricular!
Introdução:
A fibrilação atrial (FA) é definida como uma arritmia sustentada supraventricular com pleno desarranjo em sua atividade elétrica atrial que provoca uma incapacidade de contratilidade nas câmaras atriais e, consequentemente, não gera a sístole atrial. Essa alteração cardiovascular é a mais comum na prática clínica, sendo responsável por, aproximadamente, um terço das admissões em unidades hospitalares por distúrbios do sistema cardiovascular, no quesito do sistema de condução do coração.
Possui uma prevalência que tem sofrido elevação com o aumento da idade, assim como homens e caucasianos têm maiores probabilidades de desenvolver tal arritmia quando comparados em relação às mulheres e negros. Além disso, a FA possui a tendência de ocorrer em pessoas que sofrem com algum tipo de acometimento cardíaco.
A FA pode ser classificada de inúmeras maneiras, como etiológica (primária ou secundária), sintomatológica (sintomática ou silenciosa), com base na resposta ventricular (alta, adequada ou baixa), aspectos eletrocardiográficos (fina ou grosseira), pelo padrão temporal (aguda, paroxística ou crônica), entre muitas outras formas. Estaremos discutindo a seguir acerca da fibrilação atrial de alta resposta ventricular e suas correlações.
FA de alta resposta ventricular:
A FA de alta resposta ventricular, comumente relacionada com o fenômeno de Ashman, é um distúrbio de condução resultado das mudanças frequência-dependentes normais na refratariedade do sistema de condução, ou seja, ocorre por aumento da condução AV por via intrínseca cardíaca, cujo batimento que segue imediatamente um ciclo curto após um ciclo longo, em razão do aumento do período refratário no sistema de condução. Assim, seu ritmo é fortemente irregular, apresentando ausência de ondas P organizadas e alargamento do complexo QRS. Sendo assim, quando a frequência cardíaca (FC) está baixa (intervalo RR longo), a refratariedade do sistema é aumentada, ao mesmo tempo, quando as FC se elevam (intervalo RR curto), a refratariedade diminui. Quando ocorre uma mudança muito brusca na FC do indivíduo, a refratariedade do sistema de condução não consegue se adaptar ou muda imediatamente ao identificar a alteração, e, consequentemente, os complexos QRS são conduzidos com modificações. Assim, se a frequência cardíaca média é elevada por volta de 174 batimentos por minuto (bpm), teremos uma redução da refratariedade do sistema condutor.

Fonte: https://portugues.medscape.com/verartigo/6501100_2
Diagnóstico:
O diagnóstico de FA é feito através da coleta da história clínica e do exame físico do paciente, sendo correlacionado com o eletrocardiograma de repouso (ECG). A anamnese adequada e direcionada, geralmente, permite que seja feita a distinção entre variadas manifestações clínicas. É comum de se encontrar acometimentos cardiovasculares associados, como hipertensão arterial sistêmica (HAS), insuficiência cardíaca congestiva (ICC), valvulopatias, entre outros.
Já no ECG, exame considerado indispensável para realização do diagnóstico de FA, encontramos ausência de ondas P, presença de ondas f (de fibrilação) irregulares entre complexos QRS e intervalos R-R muito curtos. É possível utilizar outros tipos de exames para auxiliar no diagnóstico, como a radiografia de tórax, útil na avaliação da circulação pulmonar e nas dimensões do átrio esquerdo (AE), e o ecocardiograma transtorácico (ETT), capaz de avaliar a estrutura anatomofuncional dos átrios, do septo interatrial e das válvulas cardíacas.
Na investigação complementar, são utilizados alguns procedimentos para auxiliar na complementação da diagnose em algumas situações específicas, sendo exemplos deles o ECG Holter de 24 horas, o ecocardiograma transesofágico (ETE), o eletrocardiograma de alta resolução (ECGAR) e o estudo eletrofisiológico (EEF).
Terapêutica:
A terapêutica da FA é variável, sendo não-invasiva, como no restabelecimento do ritmo cardíaco sinusal, no controle da frequência cardíaca, na profilaxia de tromboembolia ou de recorrências, e invasiva, como na ablação por cateter, na estimulação cardíaca artificial e no tratamento cirúrgico.
Nos pacientes sintomáticos que têm FA com alta resposta ventricular, mas sem repercussão hemodinâmica, é recomendado a utilização de drogas intravenosas que irão diminuir rapidamente a frequência ventricular, como por exemplo os fármacos beta-bloqueadores ou os antagonistas dos canais de cálcio (bloqueadores dos canais de cálcio).
Já em casos de instabilidade hemodinâmica, deve ser considerada a indicação de cardioversão elétrica (CVE) imediata para reversão de FA para o ritmo sinusal cardíaco, ou de uso de drogas intravenosas, como beta-bloqueadores ou antagonistas dos canais de cálcio e, eventualmente, digitálicos, para que seja feita a redução da frequência cardíaca rapidamente.

Fonte:http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0066-782X2016003100001&lng=en&nrm=iso
Conclusão:
Diante de tudo que foi exposto e abordado, é de suma importância para levarmos em consideração os fatores de predisposição, a anamnese, o exame físico, os exames complementares e as terapêuticas disponíveis associados a FA e a FA de alta resposta ventricular, pois qualquer informação não coletada ou desatenção durante a análise dos exames pode influenciar fortemente no prognóstico do paciente em questão.
A fibrilação atrial, como muitas outras afecções do sistema cardiovascular, possui uma forte relação com as doenças de base, os hábitos de vida e a genética de cada indivíduo. Assim, mudanças positivas nos fatores ambientais predisponentes, como alimentação saudável, redução do consumo de sódio e de álcool, realização de atividades físicas regularmente, entre outros, podem ser medidas que auxiliam no combate ao desenvolvimento da FA, melhorando a qualidade e a expectativa de vida do paciente em questão.
Ademais, é importante ressaltar que, mesmo com os diversos tipos de classificações da FA, cada manifestação clínica é digna de nota e não deve ser subestimada. O diagnóstico da FA de alta resposta ventricular feito de maneira correta é um fator de suma relevância para que haja um manejo terapêutico adequado ao paciente, podendo ser invasivo ou não, dependendo da necessidade identificada pelo médico responsável no quadro do indivíduo em questão.
Lembre-se: Mantenha-se sempre atento aos sinais clínicos sugestivos de FA em seus pacientes! O diagnóstico é a melhor arma de prevenção!
Autor: Shaira Salvadora Cunha
Instagram: @shairasalvadora
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
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MAGALHAES, LP et al. II Diretrizes Brasileiras de Fibrilação Atrial. Arq. Bras. Cardiol., São Paulo, v. 106, n. 4, supl. 2, p. 1-22, Abril 2016. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0066-782X2016003100001&lng=en&nrm=iso>. http://dx.doi.org/10.5935/abc.20160055.
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