FAST no trauma abdominal representa uma das ferramentas mais valiosas na abordagem inicial do paciente politraumatizado, pois possibilita a identificação rápida e não invasiva de líquido livre na cavidade abdominal e no espaço pericárdico.
Diante da elevada morbimortalidade associada ao trauma, a utilização desse exame à beira-leito tornou-se essencial para orientar decisões imediatas, especialmente em indivíduos hemodinamicamente instáveis. Sua rapidez, repetibilidade e aplicabilidade mesmo em contextos de recursos limitados reforçam o papel do FAST como um método diagnóstico de grande impacto na conduta frente ao trauma abdominal.
Conceito e princípios do FAST
A Avaliação Focada com Sonografia para Trauma (FAST) é um exame ultrassonográfico rápido e direcionado, realizado ainda na fase inicial da ressuscitação de pacientes vítimas de trauma. Seu propósito principal é identificar a presença de líquido livre anormal em cavidades como a pericárdica, peritoneal e pleural, além de auxiliar na detecção de pneumotórax.
O método ganhou destaque por ser portátil, não invasivo, de baixo custo e isento de radiação ionizante, permitindo repetição seriada à beira do leito, o que favorece reavaliações frequentes do estado clínico do paciente.
A avaliação segue uma ordem padronizada de janelas: pericárdica, hepatorrenal (bolsa de Morison), periesplênica, pélvica e torácica. Segundo as diretrizes do ATLS, aplica-se o FAST no momento da análise da circulação e hemorragia (“C” do exame primário).
Indicações do FAST
Indica-se o FAST principalmente na avaliação inicial de pacientes vítimas de trauma, especialmente aqueles com suspeita de hemoperitônio ou hemopericárdio.
Além disso, recomenda-se a realização do FAST em situações de trauma contundente ou penetrante, quando há risco de sangramento intra-abdominal ou torácico, e em pacientes hemodinamicamente instáveis, nos quais a rapidez na detecção de líquido livre pode guiar a decisão por intervenção cirúrgica imediata.
Técnica do FAST
Realiza-se o FAST em modo B, em tempo real, com o paciente em decúbito dorsal. A sonda mais utilizada é a curvilínea (2–5 MHz), por permitir adequada penetração e visualização das cavidades. O examinador normalmente posiciona-se à altura da cintura do paciente, conduzindo a sonda com a mão direita e ajustando os parâmetros de imagem com a esquerda.
O exame segue uma sequência padronizada de janelas para garantir a avaliação das principais regiões onde o líquido livre tende a acumular-se:
- Quadrante superior direito (bolsa de Morrison): posiciona-se a sonda na linha axilar posterior entre a 8ª e 11ª costelas, explorando a interface hepatorrenal, a ponta do fígado e a goteira paracólica direita. É importante também examinar a região subdiafragmática. Inspiração profunda pode ajudar a deslocar as estruturas, facilitando a visualização.
- Janela pericárdica (subxifoide): coloca-se a sonda logo abaixo do processo xifoide, em orientação transversal, utilizando o fígado como janela acústica para melhor visualização do coração e detecção de líquido pericárdico. Se a janela subxifoide for limitada, pode-se recorrer a cortes alternativos, como paraesternais.
- Quadrante superior esquerdo (LUQ): realiza-se a varredura na linha axilar posterior, entre a 6ª e 9ª costelas, abrangendo os recessos esplenorrenal e periesplênico, além do espaço subfrênico e da goteira paracólica esquerda.
- Região suprapúbica (pélvica): posiciona-se a sonda logo acima da sínfise púbica em orientação transversal. Avalia-se o espaço retrovesical em homens e, nas mulheres, também as bolsas retouterina e vesicouterina (ponto mais dependente da cavidade peritoneal). Uma bexiga cheia aumenta a sensibilidade dessa avaliação.
Essa sequência sistematizada garante a detecção precoce de líquido livre em locais prioritários, tornando o FAST um exame rápido, objetivo e essencial na avaliação inicial de pacientes politraumatizados.
Interpretação dos achados do FAST no trauma abdominal
O objetivo principal do FAST é identificar líquido livre intraperitoneal, que em contexto de trauma é presumido como sangue, embora em casos específicos (como trauma pélvico) possa ser urina.

No exame, o líquido aparece geralmente como uma área anecoica. No entanto, o sangue coagulado pode se mostrar ecogênico.
Se o líquido for identificado em qualquer uma das janelas, considera-se o FAST como positivo. Portanto, o exame é negativo somente quando todas as janelas estão livres de líquido, e é indeterminado se alguma região não puder ser avaliada adequadamente.
A detecção do líquido depende de fatores como:
- Localização e tempo da lesão;
- Presença de aderências ou gases intestinais;
- Volume do fluido;
- Posição do paciente;
- Qualidade técnica do exame.
Devido à gravidade, o líquido acumula-se primeiro nas regiões mais baixas da cavidade peritoneal.
Ademais, estudos sugerem que o ultrassom pode identificar volumes relativamente pequenos: cerca de 160 mL na pelve, 620–670 mL na bolsa de Morison, ou em torno de 200–250 mL quando múltiplas janelas são avaliadas em conjunto.
Locais-chave de avaliação do FAST no trauma abdominal
- Flanco direito (bolsa de Morison): espaço entre fígado e rim direito, corresponde ao primeiro ou segundo ponto de acúmulo de sangue na maioria dos cenários.
- Flanco esquerdo (janela esplênica): recessos periesplênico e subfrênico, mais difíceis de avaliar devido ao tamanho e posição do baço.
- Região pélvica: área mais dependente em decúbito dorsal, com a bexiga funcionando como janela acústica.
Assim, a interpretação do FAST baseia-se na identificação precoce de líquido nos espaços, com destaque para a bolsa de Morison e a pelve, que são os locais mais sensíveis para detecção inicial.
Comparação com outros métodos diagnósticos
O exame FAST diferencia-se de outros métodos diagnósticos por ser rápido, portátil, não invasivo, de baixo custo e livre de radiação, podendo ser repetido várias vezes durante a reanimação, o que o torna ideal para pacientes instáveis.
Em contrapartida, métodos como a punção peritoneal diagnóstica e a lavagem peritoneal diagnóstica (LPD) apresentam alta sensibilidade para sangramento intraperitoneal, mas possuem risco de complicações (1 a 2%) e, por isso, raramente aplicam-se em pacientes hemodinamicamente estáveis.
Por outro lado, considera-se a tomografia computadorizada (TC) o padrão de excelência na avaliação de lesões intra-abdominais e de órgãos sólidos. No entanto, sua utilização requer estabilidade clínica, transporte do paciente para fora da sala de emergência, além de implicar maiores custos e exposição à radiação.
Assim, o FAST destaca-se como ferramenta inicial e prática, especialmente útil em cenários de instabilidade hemodinâmica. Já a TC permanece como exame definitivo em casos estáveis e, por fim, utiliza-se cada vez menos a LPD.
Limitações do FAST no trauma abdominal
O exame FAST apresenta limitações importantes que impedem seu uso como método definitivo para excluir lesões intra-abdominais. Por exemplo, sua sensibilidade é variável, oscilando entre 63% e 100% em diferentes estudos. Isso significa que um resultado negativo não afasta totalmente a possibilidade de lesão significativa, sendo necessária investigação complementar, geralmente com tomografia computadorizada, em pacientes estáveis.
Além disso, o FAST pode gerar falsos-negativos. Embora a taxa global seja relativamente baixa, parte desses casos envolve pacientes que ainda necessitam de tratamento cirúrgico ou angiográfico.
Outro ponto é que várias lesões não são detectáveis pelo método, como rupturas diafragmáticas, traumas pancreáticos, perfurações intestinais, lesões mesentéricas e abdominais sem acúmulo significativo de líquido livre. A detecção de lesões renais e retroperitoneais também é restrita, e o exame não consegue diferenciar urina de sangue, o que reduz sua precisão em traumas pélvicos graves.
Ademais, a qualidade da imagem ainda pode ser comprometida por condições clínicas do paciente, como obesidade, enfisema subcutâneo ou hiperinsuflação pulmonar decorrente de doença crônica, dificultando a visualização cardíaca e abdominal.
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Referências
- Bloom BA, Gibbons RC. Avaliação Focada com Sonografia para Trauma. [Atualizado em 24 de julho de 2023]. Em: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; jan. de 2025.
Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK470479/ - Pariyadath M. Emergency ultrasound in adults with abdominal and thoracic trauma. UpToDate, 2024.