A fase folicular corresponde à primeira etapa do ciclo menstrual e exerce papel central na regulação da fertilidade feminina. Ela se inicia no primeiro dia do sangramento menstrual e se estende até o momento da ovulação. Embora, na prática clínica, muitos enfoquem a ovulação como evento isolado, a fase folicular define, de forma antecipada, a qualidade do ovócito, a resposta endometrial e a probabilidade de concepção. Portanto, compreender em profundidade os mecanismos dessa fase permite uma avaliação mais precisa da função reprodutiva e das causas de infertilidade.
Além disso, a fase folicular apresenta grande variabilidade interindividual e intraindividual. Enquanto a fase lútea tende a manter duração relativamente constante, a fase folicular sofre influência direta de fatores hormonais, metabólicos, ambientais e patológicos. Por isso, alterações nessa etapa frequentemente explicam ciclos irregulares, anovulação e falhas de implantação.
Ativação do eixo hipotálamo-hipófise-ovário no início do ciclo
No início da fase folicular, ocorre a regressão do corpo lúteo do ciclo anterior. Consequentemente, os níveis circulantes de progesterona, estradiol e inibina A diminuem de forma significativa. Essa queda hormonal reduz o feedback negativo exercido sobre o hipotálamo e a hipófise anterior. Como resultado, o hipotálamo aumenta a liberação pulsátil do hormônio liberador de gonadotrofinas (GnRH).
Em seguida, a hipófise responde com aumento progressivo da secreção de FSH e, em menor grau, de LH. Nesse contexto, o padrão de pulsatilidade do GnRH assume papel determinante. Pulsos mais lentos favorecem a secreção de FSH, enquanto pulsos mais rápidos estimulam predominantemente o LH. Durante o início da fase folicular, predomina um padrão que favorece o FSH, o que viabiliza o recrutamento folicular.
Portanto, logo nos primeiros dias do ciclo, o organismo cria um ambiente hormonal propício para o crescimento de múltiplos folículos ovarianos, estabelecendo as bases para a seleção do folículo dominante.
Recrutamento e crescimento folicular
Com o aumento do FSH, um grupo de folículos antrais pequenos inicia o processo de crescimento. Esses folículos, previamente recrutados do pool de folículos primordiais ao longo de meses, tornam-se responsivos ao estímulo gonadotrófico. As células da granulosa proliferam, enquanto as células da teca interna passam a produzir andrógenos sob estímulo do LH.
Em seguida, as células da granulosa convertem esses andrógenos em estradiol por meio da ação da aromatase. Assim, os níveis de estradiol começam a se elevar gradualmente durante a fase folicular. Ao mesmo tempo, as células da granulosa passam a secretar inibina B, hormônio que exerce efeito regulador importante sobre o FSH.
Entretanto, nem todos os folículos recrutados continuam a se desenvolver. À medida que os níveis de estradiol e inibina B aumentam, ocorre uma redução progressiva da concentração de FSH circulante. Nesse cenário, apenas o folículo que apresenta maior sensibilidade ao FSH consegue manter seu crescimento. Os demais entram em processo de atresia.
Seleção do folículo dominante
A seleção do folículo dominante representa um dos eventos mais críticos da fase folicular. Esse processo ocorre, geralmente, entre o quinto e o sétimo dia do ciclo. O folículo dominante se diferencia dos demais por apresentar maior densidade de receptores de FSH e, posteriormente, de LH nas células da granulosa.
Além disso, esse folículo desenvolve maior capacidade de produção de estradiol, mesmo diante de níveis decrescentes de FSH. Dessa forma, ele sustenta seu crescimento enquanto os outros folículos não conseguem se adaptar à queda hormonal.
À medida que o folículo dominante cresce, ele atinge diâmetros progressivamente maiores, podendo alcançar cerca de 18 a 29 mm antes da ovulação. Durante esse período, o ambiente intrafolicular favorece a maturação nuclear e citoplasmática do oócito, o que influencia diretamente sua competência reprodutiva.
Portanto, qualquer fator que interfira na seleção folicular, como:
- Alterações hormonais
- Inflamação crônica
- Resistência insulínica o
- Ou distúrbios metabólicos
Pode comprometer a qualidade do ovócito e reduzir a fertilidade.
Fase folicular: produção de estradiol e efeitos sistêmicos
O estradiol produzido pelo folículo dominante exerce efeitos amplos e coordenados. Inicialmente, ele mantém feedback negativo sobre a hipófise, o que contribui para a supressão dos folículos não dominantes. No entanto, à medida que sua concentração aumenta de forma sustentada, o estradiol passa a modular diferentes tecidos-alvo.
No endométrio, o estradiol estimula intensamente a fase proliferativa. As glândulas endometriais se alongam, o estroma prolifera e os vasos espirais se desenvolvem. Como consequência, o endométrio aumenta sua espessura e se prepara para responder posteriormente à progesterona da fase lútea.
Além disso, o estradiol altera o muco cervical, tornando-o mais fluido, elástico e alcalino. Essa modificação facilita a migração e a sobrevivência dos espermatozoides no trato genital feminino. Ao mesmo tempo, o estradiol influencia o comportamento, a libido e até a sensibilidade neurossensorial, criando um contexto favorável à reprodução.
Transição do feedback negativo para positivo e pico de LH
Um dos aspectos mais sofisticados da fisiologia reprodutiva feminina ocorre no final da fase folicular. Quando os níveis de estradiol permanecem elevados acima de um limiar crítico por tempo suficiente, o eixo hipotálamo-hipófise sofre uma inversão do padrão de feedback. Nesse momento, o estradiol passa a exercer feedback positivo.
Como consequência, ocorre liberação abrupta e intensa de LH, conhecida como pico de LH. Esse evento marca o fim da fase folicular e desencadeia uma cascata de processos essenciais para a ovulação. O LH induz a retomada da meiose do oócito, promove a expansão do cúmulus oophorus e estimula a produção local de prostaglandinas e enzimas proteolíticas.
Portanto, cerca de 36 horas após o início do pico de LH, ocorre a ruptura do folículo e a liberação do ovócito para a tuba uterina.
Importância da fase folicular para a fertilidade
A fase folicular determina, de maneira direta, a competência ovocitária e a receptividade endometrial subsequente. Quando essa fase ocorre de forma adequada, o organismo sincroniza ovulação e preparo uterino de maneira eficiente. No entanto, quando surgem disfunções, a fertilidade sofre impacto significativo.
Fases foliculares curtas podem comprometer o crescimento adequado do folículo dominante e a produção suficiente de estradiol. Por outro lado, fases foliculares prolongadas frequentemente se associam à anovulação, como ocorre em distúrbios endócrinos específicos.
Além disso, a qualidade do estradiol produzido durante essa fase influencia a expressão de receptores de progesterona no endométrio. Assim, alterações precoces podem repercutir negativamente na fase lútea, mesmo que a ovulação ocorra.
Relação entre fase folicular e síndrome dos ovários policísticos
Na síndrome dos ovários policísticos (SOP), a fase folicular sofre profundas alterações. O aumento da secreção pulsátil de GnRH favorece a produção de LH em detrimento do FSH. Como resultado, ocorre estímulo excessivo das células da teca, com produção aumentada de andrógenos.
Esses andrógenos, por sua vez, interferem na maturação adequada dos folículos. Embora vários folículos iniciem crescimento, poucos alcançam diferenciação suficiente para se tornarem dominantes. Assim, o ciclo permanece frequentemente em estado folicular crônico, sem ovulação.
Além disso, a resistência insulínica comum na SOP potencializa a produção androgênica e reduz ainda mais a sensibilidade folicular ao FSH. Dessa forma, a fase folicular se prolonga, o pico de LH não ocorre de maneira fisiológica e a fertilidade fica comprometida.
Implicações clínicas e abordagem médica
Na prática clínica, a avaliação da fase folicular exige análise integrada de história menstrual, exames hormonais e métodos de imagem. A dosagem de FSH, LH, estradiol e inibina B nos primeiros dias do ciclo fornece informações valiosas sobre a reserva ovariana e a dinâmica folicular.
Além disso, a ultrassonografia transvaginal permite acompanhar o crescimento folicular e avaliar a seleção do folículo dominante. Em contextos de infertilidade, intervenções farmacológicas frequentemente visam corrigir disfunções dessa fase, seja por indução da ovulação, seja por modulação hormonal.
Portanto, compreender a fisiologia da fase folicular permite intervenções mais precisas, individualizadas e eficazes.
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Referência bibliográfica
- UpToDate. Normal menstrual cycle. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/normal-menstrual-cycle
- UpToDate. Diagnosis of polycystic ovary syndrome in adults. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/diagnosis-of-polycystic-ovary-syndrome-in-adults.
