“A doença de Crohn é uma doença inflamatória séria do trato gastrointestinal. Ela afeta predominantemente a parte inferior do intestino delgado (íleo) e intestino grosso (cólon), mas pode afetar qualquer parte do trato gastrointestinal. A doença de Crohn habitualmente causa diarréia, cólica abdominal, febre e sangramento retal. Também pode ocorrer perda de apetite e de peso subsequente. Os sintomas podem variar de leve à grave, mas em geral, as pessoas com doença de Crohn podem ter vida ativa e produtiva. A doença de Crohn é crônica. Não sabemos qual é a sua causa.”.
Fonte: Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn.
Etiologia
Patologia sistêmica de caráter imunológico, que acomete principalmente o trato gastrointestinal, podendo comprometer outros órgãos e sistemas. Caracterizadas pela desordem que alteram e causam inflamação crônica em todo o trato gastrointestinal (TGI). Uma vez que existem hospedeiros geneticamente mais suscetíveis que possuem células imunes e que reagem a microbiota intestinal. Os quadros podem ser agudos seguido por períodos de melhora e reincidência clínica. A etiologia não é totalmente esclarecida, todavia, estudos revelam que a patologia se dá por desordens imunológicas na microbiota, além de fatores ambientais, genéticos e estilo de vida que também podem estar relacionados ao aparecimento da doença.
Epidemiologia
46.546 internações por Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa no Brasil, no período de janeiro de 2009 a dezembro de 2019.
Maior prevalência
- Na idade de 30-39 anos – bimodal, inicia-se na quarta década de vida com um segundo pico entre sétima e nona década de vida. Entretanto, pode aparecer em qualquer idade.
- No sexo feminino – 53,55%.
- Na Região Sudeste do Brasil.
- Nos países do norte da Europa, Estados Unidos e Reino Unido.
- Em brancos (2 a 5x mais que os não-brancos).
- Nas classes socioeconômicas mais altas.
Fatores de risco
- Tabagismo.
- Uso de anticoncepcionais orais.
- Uso de antibióticos no primeiro ano de vida.
- Gastrenterites infecciosas por patógenos (salmonelle, shigella, clostridium difficile).
- História familiar de 5 a 10% (concordância dos locais anatômicos e tipos clínicos entre as famílias).
Anatomia e localização
A doença de Crohn é conhecida como enterite regional, pode ocorrer em qualquer área do trato gastrointestinal, com maior tendência de surgir na última parte do intestino delgado (íleo) e no grosso, mas também aparece em outros locais do trato digestivo, desde a boca ao ânus. Veja, por exemplo, a Ileite, quando a doença afeta o íleo e a Colite de Crohn quando a doença afeta o cólon. Ou seja, percentualmente, a distribuição se dá em 35% intestino delgado individualmente, 20% intestino grosso individualmente e 45% tanto na parte terminal do intestino delgado quanto no intestino grosso.
Doença de crohn x Colite Ulcerativa
Doença de Crohn: as lesões são salteadas, com aparência espessa, inflamação transmural e úlceras profundas.
Colite ulcerativa: as lesões são difusas, com aparência fina, inflamação limitada na mucosa e submucosa e úlceras superficiais.
Patogenia
As causas permanecem incertas, no entanto, a maioria dos pesquisadores acreditam que seja resultado de uma combinação de interações errantes do hospedeiro. Ou seja, combinação entre a microbiota intestinal, disfunção epitelial intestinal, respostas imunes da mucosa aberrantes.
O modelo se dá por hospedeiros geneticamente suscetíveis, seguindo para disfunção da barreira da junção íntima que permite o fluxo de componentes bacterianos, ativando a imunidade da mucosa que suprime a imunorregulação e aumenta a permeabilidade e o fluxo de material, sensibilizando o indivíduo para a doença.
Patologia geral – lesões
Macroscópia
- Úlcera aftosa: lesão mais antiga, pode evoluir para lesões múltiplas que se fundem a outras, gerando úlceras alongadas.
- Gordura rastejante: gordura mesentérica se estende em torno da superfície serosa do intestino, ocorre em casos com doença transmural extensa.
- Pedra de calçamento: se dá pela presença de edema de mucosa entre as úlceras. O tecido doente é deprimido abaixo do nível da mucosa normal.
- Estenose: parede intestinal espessada como consequência de outras lesões, como: edema transmural, inflamação, fibrose da submucosa, hipertrofia da muscular própria.
- Fissuras: desenvolve-se entre as pregas da mucosa e podem estender-se profundamente causando perfuração ou tratos fistulares.
A. Estreitamento do intestino delgado.
B. Úlceras da mucosa lineares e parede intestinal espessada.
C. Gordura rastejante.
Microscopia
Neutrófilos: em abundância, infiltram e danificam o epitélio da cripta.
Cripta: normalmente retas e paralelas, assumem estranhas formas de ramificação e orientação incomum.
Granuloma não caseoso: uma característica da doença de Crohn, assim são encontrados em aproximadamente 35% dos casos e podem surgir em áreas de doença ativa ou regiões não envolvidas.
A. Organização aleatória da cripta resulta de lesões repetidas e regeneração.
B. Granuloma não caseoso.
C. Doença de Crohn transmural com granulomas na submucosa e serosa.
Sinais e sintomas
Os sintomas envolvem dor abdominal acompanhada de cólicas, diarreia crônica, febre, perda de apetite, perda de peso.
Em crianças outros sintomas podem estar em conjuntos com os já citados, como crescimento lento, inflamação nas articulações, febre, anemia e fadiga.
Complicações
As mais comuns são no intestino como o bloqueio intestinal (obstrução), perfuração, abcessos, fístulas, fissuras anais, câncer do cólon, megacólon tóxico e peritonite. Entretanto, outros tecidos e sistemas podem ser acometidos em conjunto ou como consequência das complicações intestinais, veja-se, por exemplo, a absorção inadequada de nutrientes, o depósito de proteínas amiloides em diversos órgãos (amiloidose), episclerites e uveítes nos olhos, pedras, fístulas, infecção e hidronefrose nos rins, eritemas e gangrenas na pele, aftas e estomatite na boca, esteatose no fígado, cálculos biliares e colangite esclerosante na vesícula, espicondilite, sacroileíte e artrite nas articulações e flebites na circulação.
Diagnóstico
De início é importante uma anamnese bem elaborada devido ao quadro clinico evolutivo da doença, assim, o diagnóstico se dá através de uma boa história clínica, exame físico e testes laboratoriais. Na confirmação diagnóstica são necessários exames de imagem para determinar a localização da doença e o grau de acometimento. Assim, tem-se a confirmação radiológica através de raio x (trânsito intestinal), ultrassonografia, tomografia e ressonância e a confirmação endoscópica através de colonoscopia, enteroscopia, cápsula endoscópica, endoscopia alta e biopsia.
Tratamentos
A escolha terapêutica varia de acordo com a evolução das lesões, após a falta de respostas determinadas terapias e após a necessidade de cirurgia, o transplante de células hematopoiéticas pode ser necessário.
- Medicamentos antidiarreicos
- Aminossalicilatos
- Corticosteroides
- Medicamentos imunomoduladores
- Agentes biológicos
- Antibióticos
- Regimes alimentares
- Cirurgia
Referências
ROBBINS, S. L.; KUMAR, V. (ed.); ABBAS, A.K. (ed.); FAUSTO, N. (ed.). Patologia: Bases Patológicas das doenças. 9ª ed.
NETTER, Frank H.. Atlas de anatomia humana. 7ª ed. RIO DE JANEIRO: Elsevier, 2019.
BRITO, Renata. Doenças inflamatórias intestinais no Brasil: perfil das internações, entre os anos de 2009 a 2019. Revista educação em saúde. Goianésia – Brasil. P. 127 – 135. Maio de 2020.
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