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Existe evidência no uso do plasma convalescente como terapia da COVID-19? | Colunistas

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O plasma convalescente é considerado uma estratégia de imunização passiva que vem sendo utilizada na prevenção e no manejo de doenças infecciosas desde o início do século XX. O seu uso foi documentado em surtos de algumas doenças de etiologia viral, como influenza espanhola, influenza aviária, ebola e síndrome respiratória aguda grave (SARS-CoV). O plasma convalescente é obtido através do processo de aférese em indivíduos que apresentaram infecções e desenvolveram anticorpos contra o patógeno causador da doença. Dessa forma, o principal objetivo do plasma convalescente é neutralizar o agente para que haja sua erradicação.

Durante a coleta do plasma, além dos anticorpos neutralizantes, pode-se obter citocinas anti-inflamatórias, fatores de coagulação e anticorpos naturais. Portanto, a transfusão pode trazer benefícios adicionais aos receptores do plasma, devido à imunomodulação a partir da melhora da resposta inflamatória grave. É conhecido que a COVID-19 (SARS-CoV-2) causa resposta imunológica excessiva, podendo desencadear uma hiperinflamação sistêmica (tempestade de citocinas), favorável ao desenvolvimento de danos orgânicos graves, sobretudo pulmonares.

O plasma convalescente de indivíduos que se recuperaram da COVID-19 pode ser mais efetivo se usado como profilaxia ou em administração logo após o início dos sintomas – dentro de 14 dias – com proteção que pode durar de semanas a meses.

Características de coleta e uso do plasma convalescente

A obtenção do plasma ocorre por meio da aférese – centrifugação contínua do sangue doado para coletar seletivamente o plasma. Após o procedimento, em apenas uma doação, consegue-se obter de 400 a 800 ml de plasma, que é armazenado em bolsas de 200 a 250 ml e congelado em até 24 horas após a coleta. A composição do plasma é constituída de mistura de sais inorgânicos, compostos orgânicos, água e proteínas – albumina, imunoglobulinas, proteínas do complemento e da coagulação, além de fatores antitrombóticos.

Em vários estudos sobre o uso do plasma em pacientes com COVID-19, a administração varia nas doses entre 200 e 500 ml. Entretanto, a recomendação é de 3 ml/kg em dois dias a fim de favorecer a distribuição das unidades do plasma e proporcionar uma opção padronizada para uso. Os doadores do plasma convalescente devem ser indivíduos entre 16 e 65 anos sem sintomas da doença e com teste negativo para COVID-19 após 14 dias de recuperação, que deve ser repetido no momento da doação e 48 horas depois.

Alguns estudos sobre o uso do plasma convalescente em pacientes com COVID-19

Um estudo chinês realizado com cinco pacientes diagnosticados com COVID-19 em estado crítico – síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) e em uso de ventilação mecânica –, e em uso de antivirais e de metilprednisolona, receberam transfusão do plasma entre 10 e 22 dias após a internação.

No mesmo dia da administração do plasma, foi observada redução da carga viral e, em 12 dias essa carga viral estava negativada. Evidenciou-se aumento dos anticorpos neutralizantes, com variação da titulação de 40 a 80 para 80 a 320 após 7 dias da transfusão do plasma. Além disso, houve melhora gradual das lesões pulmonares nos cinco pacientes 3 dias após a transfusão do plasma.

Dentre os pacientes, três foram retirados da ventilação mecânica e um paciente que estava recebendo ECMO no momento do tratamento com plasma não precisou mais dessa técnica de suporte no 5° dia após a transfusão. Vale salientar que três pacientes receberam alta e dois permaneceram internados, embora estivessem com melhora do quadro clínico.

Três séries de casos realizadas na China, com um total de 19 pacientes – todos apresentando estado grave e crítico da COVID-19 –, demonstraram melhora da oxigenação, da carga viral e redução da inflamação após uso do plasma convalescente. O estudo demonstrou que, após 3 dias de administração, os pacientes apresentaram aumento da saturação de oxi-hemoglobina e melhora clínica, além da redução da proteína C reativa e do aumento de linfócitos. Em todos os pacientes, foi observada elevação de anticorpo neutralizante nos receptores. Nesse estudo, fobservou-se que o plasma convalescente pode ser uma terapia promissora imediata para a doença.

Um ensaio clínico randomizado, também realizado na China, recrutou 103 pacientes – 52 pacientes em terapia com o plasma convalescente e 51 pacientes compondo o grupo controle. Dentre os pacientes avaliados, 45 apresentavam COVID-19 grave (dificuldade respiratória e hipoxemia) – 23 em uso do plasma e 22 no grupo controle – e 58 apresentavam COVID-19 com risco de vida (choque ou necessidade de ventilação mecânica) – 29 em uso do plasma e 29 no grupo controle.

Em 28 dias, houve melhora de 52% (27) e 43% (22) dos pacientes em uso do plasma e em uso apenas da terapia padrão, respectivamente. Nos pacientes com doença grave, 91,3% (21/23) do grupo do plasma convalescente apresentou melhora clínica, enquanto 68,2% (15/22) do grupo controle apresentou o mesmo desfecho. Entre os pacientes com risco de vida, houve melhora em 20,7% (6/29) do grupo do plasma, em relação a 24,1% (7/29) do grupo controle. Ainda, a terapia com o plasma convalescente foi associada a uma negativação do PCR viral em 72 horas em 87,2% e 37,5% do grupo do plasma e do grupo controle, respectivamente.

Conclusões

O plasma convalescente tem o potencial de fornecer uma opção terapêutica eficaz com evidências promissoras sobre segurança, melhora dos sintomas clínicos e redução da mortalidade em pacientes com COVID-19 em estado grave. Entretanto, embora tenha sido observada uma progressão positiva na melhora clínica dos pacientes analisados, devido à limitação das amostras, não se pode apresentar uma conclusão definitiva sobre a eficácia da transfusão do plasma convalescente.

Desse modo, é importante que haja estudos maiores a partir de ajustes na capacidade dos testes, ensaios suficientes para realizar uma triagem adequada, tanto de pacientes diagnosticados com COVID-19 quanto dos doadores elegíveis, e otimização dos protocolos de dosagem do plasma convalescente. Assim, será possível uma abordagem mais significativa com relação à segurança e à real efetividade dessa estratégia de tratamento.

Autora: Gabriela Carvalho

Instagram: gabrielaavcarvalho


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências

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