Toxoplasmose IgG e IgM: Interpretação Clínica e Indicações
A sorologia para toxoplasmose, composta pela dosagem de anticorpos IgG e IgM anti-Toxoplasma gondii, é o exame fundamental para o diagnóstico da infecção aguda e para a avaliação do estado imune prévio. A toxoplasmose é uma zoonose cosmopolita causada por um protozoário intracelular obrigatório, cuja infecção primária na gestante pode levar à transmissão vertical com graves sequelas fetais (toxoplasmose congênita). Em imunossuprimidos, especialmente transplantados e pacientes com AIDS, a reativação de infecção latente pode causar doença disseminada grave, como encefalite. O exame é indicado no rastreio pré-natal, na investigação de síndromes febris de origem indeterminada, em linfadenopatias e em quadros neurológicos compatíveis. A interpretação conjunta dos títulos de IgG e IgM, aliada à avaliação da avidez da IgG, permite diferenciar infecção recente (aguda) de infecção antiga (latente), direcionando a conduta clínica e terapêutica.
Quando solicitar este exame?
- Rastreio sorológico no primeiro trimestre da gestação para identificar gestantes suscetíveis (IgG negativo) e estabelecer vigilância. CID Z34
- Investigação de infecção aguda em gestante com soroconversão (IgG que se torna positivo) ou IgM positivo no pré-natal. CID O98.6
- Avaliação de imunossuprimido (transplantado, quimioterápico, AIDS) com suspeita de toxoplasmose cerebral (alteração do estado mental, cefaleia, déficit focal). CID B58.2
- Investigação de linfadenopatia cervical ou generalizada persistente e febril em adulto jovem (síndrome mononucleose-like). CID R59.9
- Avaliação de paciente com uveíte posterior (coriorretinite) de etiologia indeterminada. CID H30.9
- Triagem de doador de órgãos sólidos para risco de transmissão de toxoplasmose ao receptor. CID Z00.8
- Investigação de miocardite ou pericardite de origem infecciosa em contexto epidemiológico compatível. CID I41.2
- Avaliação de estado imune prévio em paciente que iniciará terapia imunossupressora potente (ex: anti-TNF). CID Z71.8
- Investigação de hepatite aguda com sorologia negativa para vírus hepatotrópicos e autoimunidade. CID B58.1
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Hemólise intensa — pode interferir na leitura espectrofotométrica em métodos ELISA, causando resultados falso-positivos ou falso-negativos.
- Lipemia acentuada — interfere na dosagem por turbidez, podendo mascarar reações antígeno-anticorpo e gerar resultados inválidos.
- Icterícia grave (bilirrubina > 20 mg/dL) — pode causar interferência óptica em leituras colorimétricas, afetando a precisão quantitativa.
- Amostra contaminada por bactérias — degradação de imunoglobulinas pode reduzir títulos de IgG/IgM, levando a falso-negativos.
- Coleta em tubo com anticoagulante (EDTA, heparina) — pode alterar a conformação antigênica e inibir reações de aglutinação, invalidando o teste.
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| IgG anti-T. gondii | < 3 UI/mL (negativo); ≥ 3 UI/mL (positivo) | < 3 UI/mL (negativo); ≥ 3 UI/mL (positivo) | < 3 UI/mL (negativo); ≥ 3 UI/mL (positivo) — mesmo referencial de adulto | UI/mL |
| IgM anti-T. gondii | < 0,55 índice (negativo); ≥ 0,55 índice (positivo) | < 0,55 índice (negativo); ≥ 0,55 índice (positivo) | < 0,55 índice (negativo); ≥ 0,55 índice (positivo) | índice |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| IgG negativo e IgM negativo | Ausência de infecção prévia pelo T. gondii. Paciente suscetível, risco de infecção primária se exposto. | Em gestantes, orientar medidas preventivas (evitar carne malcozida, contato com fezes de gato). Em imunossuprimidos, considerar profilaxia se indicado. |
| IgG positivo e IgM negativo | Infecção antiga (latente). Imunidade provavelmente estabelecida. Risco de reativação apenas em imunossuprimidos graves. | Em gestantes, tranquilizar — risco de transmissão vertical é desprezível. Em imunossuprimidos, monitorar clínica e considerar profilaxia se CD4 < 100 células/μL. |
| IgG positivo e IgM positivo com avidez da IgG alta (> 60%) | Infecção provavelmente antiga (ocorrida há > 4 meses). IgM residual persistente. | Em gestantes, risco de toxoplasmose congênita é muito baixo. Pode-se suspender a investigação fetal invasiva. |
| IgG positivo e IgM positivo com avidez da IgG baixa (< 30%) | Infecção aguda ou recente (ocorrida nos últimos 3 a 4 meses). Alta probabilidade de transmissão vertical se em gestante. | Em gestantes, iniciar terapia com espiramicina e realizar amniocentese após 18 semanas para PCR de líquido amniótico. Encaminhar para infectologista e obstetra de alto risco. |
| IgG negativo e IgM positivo | Possível infecção muito recente (janela sorológica), falso-positivo de IgM ou reação cruzada. Raro. | Repetir a sorologia em 2 a 3 semanas para avaliar soroconversão de IgG. Investigar outras causas de IgM falso-positivo (ex: doenças autoimunes). |
| IgG e IgM positivos com avidez da IgG indeterminada (30–60%) | Zona cinzenta. Infecção pode ser recente ou antiga. Necessita de avaliação dinâmica. | Repetir a sorologia em 3 semanas. Se IgG aumentar ≥ 4 vezes o título inicial, sugere infecção aguda. Em gestantes, manejar como suspeita de infecção recente até esclarecimento. |
| IgG positivo com títulos muito elevados (ex: > 300 UI/mL) em imunossuprimido com sintomas neurológicos | Sugestivo de reativação de toxoplasmose cerebral, especialmente se associado a lesões anelares com realce em RM. | Solicitar RM de encéfalo com contraste e considerar punção lombar para PCR de T. gondii no LCR. Iniciar terapia empírica com sulfadiazina + pirimetamina + ácido folínico. |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| IgM positivo em gestante assintomática | Infecção aguda por T. gondii, falso-positivo de IgM, infecção por outros agentes (CMV, EBV). | Avidez da IgG, sorologia para CMV (IgG/IgM), PCR de líquido amniótico, ultrassom morfológico fetal. | Infectologia / Medicina Fetal |
| IgG positivo e IgM positivo em imunossuprimido com alteração do estado mental | Toxoplasmose cerebral reativada, linfoma primário do SNC, leucoencefalopatia multifocal progressiva, infecção por CMV. | RM de encéfalo com contraste, PCR de T. gondii no LCR, biópsia cerebral, sorologia para HIV. | Infectologia / Neurologia |
| Linfadenopatia cervical com IgM positivo | Toxoplasmose aguda, mononucleose infecciosa (EBV), citomegalovirose, linfoma, tuberculose ganglionar. | Sorologia para EBV (VCA IgM), CMV IgM, PCR para Mycobacterium tuberculosis, biópsia ganglionar. | Infectologia / Hematologia |
| Uveíte posterior com IgG positivo | Toxoplasmose ocular reativada, sífilis ocular, tuberculose ocular, doença de Behçet, sarcoidose. | Exame de fundo de olho, FTA-ABS, PPD, radiografia de tórax, angiofluoresceinografia. | Oftalmologia / Reumatologia |
| Miocardite com sorologia IgG positiva | Miocardite por T. gondii, miocardite viral (Coxsackie, adenovírus), doença de Chagas, miocardite autoimune. | Ecocardiograma, Ressonância Magnética cardíaca, sorologia para doença de Chagas, PCR viral no miocárdio. | Cardiologia / Infectologia |
Medicamentos e Interferentes
- Fator reumatoide elevado — pode causar falso-positivo para IgM por reação cruzada em ensaios de captura.
- Hipergamaglobulinemia policlonal (ex: hepatite crônica, lúpus) — elevação inespecífica de IgG e IgM, podendo mascarar soroconversão.
- Terapia com imunoglobulinas intravenosas (IVIG) — pode transferir anticorpos IgG anti-T. gondii, causando falso-positivo transitório.
- Gestação — alterações imunológicas podem modular títulos de IgG/IgM, mas não invalidam a interpretação padrão.
- Imunossupressores (corticoides, quimioterápicos) — reduzem a produção de anticorpos, podendo causar falso-negativo ou atraso na soroconversão.
Contextos Clínicos Especiais
Gestante
O rastreio sorológico no primeiro trimestre é mandatório no Brasil. Gestante suscetível (IgG negativo) deve repetir a sorologia mensalmente até o parto. Infecção aguda no primeiro trimestre tem menor taxa de transmissão vertical (10–15%) mas maior gravidade fetal (microcefalia, calcificações intracranianas). No terceiro trimestre, a transmissão é mais frequente (60–70%) mas as sequelas são menos graves. A avidez da IgG é fundamental para datação e conduta.
Imunossuprimido
Pacientes com AIDS e CD4 < 100 células/μL têm alto risco de reativação de toxoplasmose cerebral. IgG positivo indica infecção latente e necessidade de profilaxia primária com sulfametoxazol-trimetoprima. Em transplantados de órgãos sólidos, a sorologia do doador e receptor define o risco: receptor negativo com doador positivo (D+/R-) requer profilaxia por 6–12 meses. A sorologia pode ser falsamente negativa na imunossupressão profunda.
Criança
Toxoplasmose congênita pode ser assintomática ao nascimento e manifestar-se tardiamente com coriorretinite ou atraso neuropsicomotor. A sorologia neonatal (IgM no sangue do cordão ou no soro) tem sensibilidade limitada (70–80%). O diagnóstico definitivo requer PCR de líquido amniótico ou sorologia serial no primeiro ano de vida (persistência de IgG após 12 meses). Crianças imunocompetentes com infecção pós-natal geralmente têm doença leve ou assintomática.
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
Os valores de corte variam conforme o método e fabricante do kit. Em geral, para IgG, valores < 3 UI/mL são considerados negativos e ≥ 3 UI/mL positivos. Para IgM, um índice < 0,55 é negativo e ≥ 0,55 positivo. É essencial consultar os valores de referência do laboratório que emitiu o laudo, pois plataformas como Abbott Architect ou Siemens Advia podem usar unidades diferentes.
Não. IgM pode persistir por 6 a 18 meses após a infecção aguda, especialmente em gestantes. Um resultado IgM positivo isolado não define o momento da infecção. A avidez da IgG é o exame complementar crucial: avidez baixa ( 60%) indica infecção antiga. Em gestantes, essa distinção direciona a necessidade de amniocentese e terapia.
IgG positivo e IgM negativo indica infecção antiga (latente) pelo T. gondii. A gestante tem imunidade estabelecida e o risco de transmissão vertical é desprezível (< 0,1%). Não há necessidade de repetição sorológica mensal, medidas preventivas especiais ou terapia. É um resultado tranquilizador no pré-natal, permitindo focar em outros rastreios.
A avidez da IgG deve ser solicitada sempre que IgG e IgM forem positivos simultaneamente, especialmente em gestantes. Ela mede a força de ligação dos anticorpos IgG ao antígeno: avidez baixa ( 60%) infecção antiga, e avidez indeterminada (30–60%) requer repetição em 3 semanas. Esse exame é fundamental para datação da infecção e conduta no pré-natal.
Não. A dosagem de IgG e IgM anti-T. gondii não requer jejum. A coleta pode ser feita a qualquer hora do dia, em tubo para soro (tampa amarela ou vermelha). Interferentes pré-analíticos como hemólise intensa ou lipemia acentuada podem afetar o resultado, mas o jejum não é necessário. Em gestantes, a coleta é frequentemente realizada no primeiro trimestre junto com outros exames de rotina.
Ambas podem causar linfadenopatia cervical e febre. A toxoplasmose aguda apresenta IgM positivo para T. gondii e avidez baixa da IgG, sem linfócitos atípicos proeminentes no hemograma. A mononucleose infecciosa (por EBV) mostra VCA IgM positivo, teste do monospot positivo, e linfocitose com atipias no hemograma. A sorologia específica para cada agente é a chave do diferencial, podendo ser solicitada em conjunto na investigação.
O PCR de líquido amniótico para T. gondii é indicado em gestante com infecção aguda confirmada (IgG e IgM positivos com avidez baixa) após 18 semanas de gestação, para diagnóstico de transmissão vertical. Não substitui a sorologia materna, que é o exame inicial. A repetição sorológica é útil em casos de avidez indeterminada ou para monitorar gestantes suscetíveis (IgG negativo). O PCR fetal é invasivo e reservado para confirmação quando a infecção materna é definida.
Não. Em pacientes com AIDS e imunossupressão grave (CD4 < 100 células/μL), a sorologia para toxoplasmose pode ser falsamente negativa devido à anergia humoral. A ausência de IgG não exclui toxoplasmose cerebral reativada. O diagnóstico nesses casos baseia-se na clínica (cefaleia, déficit focal), imagem (RM com lesões anelares) e resposta ao tratamento empírico. A punção lombar para PCR de T. gondii no LCR pode confirmar mesmo com sorologia negativa.
Referências
- Ministério da Saúde (BR). Protocolo de Notificação e Investigação: Toxoplasmose Gestacional e Congênita. Secretaria de Vigilância em Saúde, 2018.
- Montoya JG, Liesenfeld O. Toxoplasmosis. Lancet. 2004;363(9425):1965-1976. doi:10.1016/S0140-6736(04)16412-X. 10.1016/S0140-6736(04)16412-X
- Sociedade Brasileira de Infectologia. Diretrizes para o Manejo da Toxoplasmose em Gestantes e Imunossuprimidos. 2020.
- Robert-Gangneux F, Dardé ML. Epidemiology of and diagnostic strategies for toxoplasmosis. Clin Microbiol Rev. 2012;25(2):264-296. doi:10.1128/CMR.05013-11. 10.1128/CMR.05013-11
- Maldonado YA, Read JS; AAP Committee on Infectious Diseases. Diagnosis, Treatment, and Prevention of Congenital Toxoplasmosis in the United States. Pediatrics. 2017;139(2):e20163860. doi:10.1542/peds.2016-3860. 10.1542/peds.2016-3860