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Infectologia

Toxoplasmose IgG e IgM: Interpretação Clínica e Indicações

A sorologia para toxoplasmose, composta pela dosagem de anticorpos IgG e IgM anti-Toxoplasma gondii, é o exame fundamental para o diagnóstico da infecção aguda e para a avaliação do estado imune prévio. A toxoplasmose é uma zoonose cosmopolita causada por um protozoário intracelular obrigatório, cuja infecção primária na gestante pode levar à transmissão vertical com graves sequelas fetais (toxoplasmose congênita). Em imunossuprimidos, especialmente transplantados e pacientes com AIDS, a reativação de infecção latente pode causar doença disseminada grave, como encefalite. O exame é indicado no rastreio pré-natal, na investigação de síndromes febris de origem indeterminada, em linfadenopatias e em quadros neurológicos compatíveis. A interpretação conjunta dos títulos de IgG e IgM, aliada à avaliação da avidez da IgG, permite diferenciar infecção recente (aguda) de infecção antiga (latente), direcionando a conduta clínica e terapêutica.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso — tubo sem anticoagulante (tampa amarela ou vermelha) para soro
Resultado em
4–24 horas (métodos automatizados de quimioluminescência ou ELISA)
Código TUSS
40322237
Especialidade
Infectologia / Ginecologia e Obstetrícia / Medicina de Família

Quando solicitar este exame?

  • Rastreio sorológico no primeiro trimestre da gestação para identificar gestantes suscetíveis (IgG negativo) e estabelecer vigilância. CID Z34
  • Investigação de infecção aguda em gestante com soroconversão (IgG que se torna positivo) ou IgM positivo no pré-natal. CID O98.6
  • Avaliação de imunossuprimido (transplantado, quimioterápico, AIDS) com suspeita de toxoplasmose cerebral (alteração do estado mental, cefaleia, déficit focal). CID B58.2
  • Investigação de linfadenopatia cervical ou generalizada persistente e febril em adulto jovem (síndrome mononucleose-like). CID R59.9
  • Avaliação de paciente com uveíte posterior (coriorretinite) de etiologia indeterminada. CID H30.9
  • Triagem de doador de órgãos sólidos para risco de transmissão de toxoplasmose ao receptor. CID Z00.8
  • Investigação de miocardite ou pericardite de origem infecciosa em contexto epidemiológico compatível. CID I41.2
  • Avaliação de estado imune prévio em paciente que iniciará terapia imunossupressora potente (ex: anti-TNF). CID Z71.8
  • Investigação de hepatite aguda com sorologia negativa para vírus hepatotrópicos e autoimunidade. CID B58.1

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Hemólise intensa — pode interferir na leitura espectrofotométrica em métodos ELISA, causando resultados falso-positivos ou falso-negativos.
  • Lipemia acentuada — interfere na dosagem por turbidez, podendo mascarar reações antígeno-anticorpo e gerar resultados inválidos.
  • Icterícia grave (bilirrubina > 20 mg/dL) — pode causar interferência óptica em leituras colorimétricas, afetando a precisão quantitativa.
  • Amostra contaminada por bactérias — degradação de imunoglobulinas pode reduzir títulos de IgG/IgM, levando a falso-negativos.
  • Coleta em tubo com anticoagulante (EDTA, heparina) — pode alterar a conformação antigênica e inibir reações de aglutinação, invalidando o teste.

Valores de Referência

Valores de referência do Toxoplasmose IgG e IgM
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
IgG anti-T. gondii< 3 UI/mL (negativo); ≥ 3 UI/mL (positivo)< 3 UI/mL (negativo); ≥ 3 UI/mL (positivo)< 3 UI/mL (negativo); ≥ 3 UI/mL (positivo) — mesmo referencial de adultoUI/mL
IgM anti-T. gondii< 0,55 índice (negativo); ≥ 0,55 índice (positivo)< 0,55 índice (negativo); ≥ 0,55 índice (positivo)< 0,55 índice (negativo); ≥ 0,55 índice (positivo)índice

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Toxoplasmose IgG e IgM
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
IgG negativo e IgM negativoAusência de infecção prévia pelo T. gondii. Paciente suscetível, risco de infecção primária se exposto. Em gestantes, orientar medidas preventivas (evitar carne malcozida, contato com fezes de gato). Em imunossuprimidos, considerar profilaxia se indicado.
IgG positivo e IgM negativoInfecção antiga (latente). Imunidade provavelmente estabelecida. Risco de reativação apenas em imunossuprimidos graves. Em gestantes, tranquilizar — risco de transmissão vertical é desprezível. Em imunossuprimidos, monitorar clínica e considerar profilaxia se CD4 < 100 células/μL.
IgG positivo e IgM positivo com avidez da IgG alta (> 60%)Infecção provavelmente antiga (ocorrida há > 4 meses). IgM residual persistente. Em gestantes, risco de toxoplasmose congênita é muito baixo. Pode-se suspender a investigação fetal invasiva.
IgG positivo e IgM positivo com avidez da IgG baixa (< 30%)Infecção aguda ou recente (ocorrida nos últimos 3 a 4 meses). Alta probabilidade de transmissão vertical se em gestante. Em gestantes, iniciar terapia com espiramicina e realizar amniocentese após 18 semanas para PCR de líquido amniótico. Encaminhar para infectologista e obstetra de alto risco.
IgG negativo e IgM positivoPossível infecção muito recente (janela sorológica), falso-positivo de IgM ou reação cruzada. Raro. Repetir a sorologia em 2 a 3 semanas para avaliar soroconversão de IgG. Investigar outras causas de IgM falso-positivo (ex: doenças autoimunes).
IgG e IgM positivos com avidez da IgG indeterminada (30–60%)Zona cinzenta. Infecção pode ser recente ou antiga. Necessita de avaliação dinâmica. Repetir a sorologia em 3 semanas. Se IgG aumentar ≥ 4 vezes o título inicial, sugere infecção aguda. Em gestantes, manejar como suspeita de infecção recente até esclarecimento.
IgG positivo com títulos muito elevados (ex: > 300 UI/mL) em imunossuprimido com sintomas neurológicosSugestivo de reativação de toxoplasmose cerebral, especialmente se associado a lesões anelares com realce em RM. Solicitar RM de encéfalo com contraste e considerar punção lombar para PCR de T. gondii no LCR. Iniciar terapia empírica com sulfadiazina + pirimetamina + ácido folínico.

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Toxoplasmose IgG e IgM
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
IgM positivo em gestante assintomáticaInfecção aguda por T. gondii, falso-positivo de IgM, infecção por outros agentes (CMV, EBV).Avidez da IgG, sorologia para CMV (IgG/IgM), PCR de líquido amniótico, ultrassom morfológico fetal.Infectologia / Medicina Fetal
IgG positivo e IgM positivo em imunossuprimido com alteração do estado mentalToxoplasmose cerebral reativada, linfoma primário do SNC, leucoencefalopatia multifocal progressiva, infecção por CMV.RM de encéfalo com contraste, PCR de T. gondii no LCR, biópsia cerebral, sorologia para HIV.Infectologia / Neurologia
Linfadenopatia cervical com IgM positivoToxoplasmose aguda, mononucleose infecciosa (EBV), citomegalovirose, linfoma, tuberculose ganglionar.Sorologia para EBV (VCA IgM), CMV IgM, PCR para Mycobacterium tuberculosis, biópsia ganglionar.Infectologia / Hematologia
Uveíte posterior com IgG positivoToxoplasmose ocular reativada, sífilis ocular, tuberculose ocular, doença de Behçet, sarcoidose.Exame de fundo de olho, FTA-ABS, PPD, radiografia de tórax, angiofluoresceinografia.Oftalmologia / Reumatologia
Miocardite com sorologia IgG positivaMiocardite por T. gondii, miocardite viral (Coxsackie, adenovírus), doença de Chagas, miocardite autoimune.Ecocardiograma, Ressonância Magnética cardíaca, sorologia para doença de Chagas, PCR viral no miocárdio.Cardiologia / Infectologia

Medicamentos e Interferentes

  • Fator reumatoide elevado — pode causar falso-positivo para IgM por reação cruzada em ensaios de captura.
  • Hipergamaglobulinemia policlonal (ex: hepatite crônica, lúpus) — elevação inespecífica de IgG e IgM, podendo mascarar soroconversão.
  • Terapia com imunoglobulinas intravenosas (IVIG) — pode transferir anticorpos IgG anti-T. gondii, causando falso-positivo transitório.
  • Gestação — alterações imunológicas podem modular títulos de IgG/IgM, mas não invalidam a interpretação padrão.
  • Imunossupressores (corticoides, quimioterápicos) — reduzem a produção de anticorpos, podendo causar falso-negativo ou atraso na soroconversão.

Contextos Clínicos Especiais

Gestante

O rastreio sorológico no primeiro trimestre é mandatório no Brasil. Gestante suscetível (IgG negativo) deve repetir a sorologia mensalmente até o parto. Infecção aguda no primeiro trimestre tem menor taxa de transmissão vertical (10–15%) mas maior gravidade fetal (microcefalia, calcificações intracranianas). No terceiro trimestre, a transmissão é mais frequente (60–70%) mas as sequelas são menos graves. A avidez da IgG é fundamental para datação e conduta.

Imunossuprimido

Pacientes com AIDS e CD4 < 100 células/μL têm alto risco de reativação de toxoplasmose cerebral. IgG positivo indica infecção latente e necessidade de profilaxia primária com sulfametoxazol-trimetoprima. Em transplantados de órgãos sólidos, a sorologia do doador e receptor define o risco: receptor negativo com doador positivo (D+/R-) requer profilaxia por 6–12 meses. A sorologia pode ser falsamente negativa na imunossupressão profunda.

Criança

Toxoplasmose congênita pode ser assintomática ao nascimento e manifestar-se tardiamente com coriorretinite ou atraso neuropsicomotor. A sorologia neonatal (IgM no sangue do cordão ou no soro) tem sensibilidade limitada (70–80%). O diagnóstico definitivo requer PCR de líquido amniótico ou sorologia serial no primeiro ano de vida (persistência de IgG após 12 meses). Crianças imunocompetentes com infecção pós-natal geralmente têm doença leve ou assintomática.

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Ministério da Saúde (BR). Protocolo de Notificação e Investigação: Toxoplasmose Gestacional e Congênita. Secretaria de Vigilância em Saúde, 2018.
  2. Montoya JG, Liesenfeld O. Toxoplasmosis. Lancet. 2004;363(9425):1965-1976. doi:10.1016/S0140-6736(04)16412-X. 10.1016/S0140-6736(04)16412-X
  3. Sociedade Brasileira de Infectologia. Diretrizes para o Manejo da Toxoplasmose em Gestantes e Imunossuprimidos. 2020.
  4. Robert-Gangneux F, Dardé ML. Epidemiology of and diagnostic strategies for toxoplasmosis. Clin Microbiol Rev. 2012;25(2):264-296. doi:10.1128/CMR.05013-11. 10.1128/CMR.05013-11
  5. Maldonado YA, Read JS; AAP Committee on Infectious Diseases. Diagnosis, Treatment, and Prevention of Congenital Toxoplasmosis in the United States. Pediatrics. 2017;139(2):e20163860. doi:10.1542/peds.2016-3860. 10.1542/peds.2016-3860

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