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Endocrinologia

Metanefrinas Urinárias e Plasmáticas: Interpretação Clínica e Indicações

As metanefrinas são metabólitos O-metilados das catecolaminas (adrenalina e noradrenalina), produzidos pela enzima catecol-O-metiltransferase (COMT) nas células cromafins da medula adrenal e nos paragânglios simpáticos. A dosagem inclui a metanefrina (derivada da adrenalina) e a normetanefrina (derivada da noradrenalina), podendo ser realizada no plasma ou na urina de 24 horas. Este exame é considerado o padrão-ouro para rastreio e diagnóstico de feocromocitoma e paraganglioma (PPGLs), tumores neuroendócrinos produtores de catecolaminas que cursam com hipertensão paroxística, cefaleia, sudorese e taquicardia. A dosagem plasmática de metanefrinas fracionadas livres apresenta sensibilidade superior a 96%, sendo recomendada como teste inicial pelas diretrizes da Endocrine Society. A dosagem urinária de metanefrinas fracionadas em urina de 24 horas é uma alternativa válida, com sensibilidade de 90–97%. Sinônimos incluem metanefrinas fracionadas, metanefrinas livres plasmáticas, normetanefrinas e catecolaminas metiladas.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Urina de 24h (com ácido clorídrico) ou sangue venoso (tubo com EDTA, coleta em decúbito)
Resultado em
3–7 dias
Código TUSS
40302067
Especialidade
Endocrinologia / Cirurgia

Quando solicitar este exame?

  • Investigação de incidentaloma adrenal com características indeterminadas na TC ou RM de adrenais CID D35.0
  • Hipertensão paroxística com crises acompanhadas de cefaleia, sudorese profusa e taquicardia CID I10
  • Rastreamento de feocromocitoma em pacientes com neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM2A e NEM2B) CID D44.7
  • Rastreamento em portadores de mutação no gene RET, VHL, SDHB, SDHD ou TMEM127 com história familiar de PPGLs CID Z80.8
  • Hipertensão arterial resistente a três ou mais anti-hipertensivos em doses otimizadas CID I15.2
  • Crise hipertensiva durante indução anestésica, procedimento cirúrgico ou uso de opioides CID I10
  • Avaliação pré-operatória de massa adrenal com suspeita de feocromocitoma antes de adrenalectomia CID D35.0
  • Monitoramento pós-operatório de pacientes submetidos a ressecção de feocromocitoma ou paraganglioma para detecção de recidiva CID C74.1
  • Investigação de paraganglioma extra-adrenal em paciente com massa retroperitoneal e sintomas adrenérgicos CID D44.7
  • Avaliação de hipertensão com hipotensão ortostática paradoxal em paciente jovem CID I95.1

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Alimentos ricos em catecolaminas (banana, café, chocolate, baunilha, nozes, frutas cítricas) — podem elevar metanefrinas urinárias; suspender 48–72 horas antes da coleta
  • Antidepressivos tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina) e inibidores da MAO (selegilina, fenelzina) — elevam metanefrinas em até 3 vezes; suspender 2 semanas antes com orientação médica
  • Paracetamol (acetaminofeno) — interfere na dosagem por HPLC causando falsa elevação de metanefrinas; suspender 48 horas antes
  • Descongestionantes nasais (pseudoefedrina, fenilefrina) e anfetaminas — estimulam liberação de catecolaminas; suspender 7 dias antes
  • Posição ortostática durante coleta plasmática — ativação simpática eleva normetanefrina em até 50%; obrigatório decúbito dorsal por 30 minutos antes da coleta

Valores de Referência

Valores de referência do Metanefrinas Urinárias e Plasmáticas
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
Metanefrina plasmática livre<0.50 nmol/L<0.50 nmol/L<0.33 nmol/L (1–17 anos)nmol/L
Normetanefrina plasmática livre<0.90 nmol/L<0.90 nmol/L<0.79 nmol/L (1–17 anos)nmol/L
Metanefrina urinária de 24h52–341 µg/24h52–341 µg/24hVaria conforme idade (valores específicos por faixa etária)µg/24h
Normetanefrina urinária de 24h88–444 µg/24h88–444 µg/24hVaria conforme idade (valores específicos por faixa etária)µg/24h

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Metanefrinas Urinárias e Plasmáticas
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
Metanefrina e/ou normetanefrina plasmática >3 vezes o limite superior da normalidadeAltamente sugestivo de feocromocitoma ou paraganglioma funcional; valor preditivo positivo >98% Solicitar TC ou RM de abdome com protocolo adrenal e preparar bloqueio alfa-adrenérgico pré-operatório
Metanefrina plasmática isoladamente elevada (>0.50 nmol/L) com normetanefrina normalSugere feocromocitoma adrenal produtor predominantemente de adrenalina Solicitar imagem adrenal (TC ou RM) e considerar cintilografia com MIBG-I131
Normetanefrina plasmática isoladamente elevada (>0.90 nmol/L) com metanefrina normalSugere paraganglioma extra-adrenal ou feocromocitoma produtor de noradrenalina; considerar mutação SDHB Solicitar TC de tórax, abdome e pelve e considerar PET-CT com 68Ga-DOTATATE
Metanefrinas plasmáticas 1–2 vezes o limite superior (elevação limítrofe)Resultado indeterminado; pode ser falso-positivo por coleta inadequada, estresse ou medicamentos interferentes Repetir dosagem em condições ideais (decúbito 30 min) ou realizar teste de supressão com clonidina
Metanefrinas urinárias elevadas (>2 vezes) com metanefrinas plasmáticas normaisPode indicar feocromocitoma com secreção intermitente ou interferência alimentar/medicamentosa na urina Repetir dosagem plasmática em decúbito e coleta urinária com controle dietético rigoroso
Metanefrinas normais com forte suspeita clínica de feocromocitomaConsiderar tumor não secretor (raro, <5%) ou secreção exclusiva de dopamina (dosar 3-metoxitiramina) Solicitar 3-metoxitiramina plasmática e imagem funcional (PET-CT com 18F-FDOPA ou 68Ga-DOTATATE)
Metanefrinas persistentemente elevadas no pós-operatório de ressecção de feocromocitomaSugere ressecção incompleta, doença metastática ou segundo foco tumoral (paraganglioma sincrônico) Solicitar PET-CT com 68Ga-DOTATATE e considerar teste genético para síndromes hereditárias
3-metoxitiramina plasmática elevada com metanefrinas normaisSugere paraganglioma produtor exclusivo de dopamina, frequentemente associado a mutação SDHB e comportamento maligno Solicitar TC de tórax, abdome e pelve, PET-CT funcional e aconselhamento genético

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Metanefrinas Urinárias e Plasmáticas
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
Metanefrinas plasmáticas >3x o limite superiorFeocromocitoma adrenal, paraganglioma funcional, neuroblastoma (crianças)TC ou RM de adrenais, cintilografia com MIBG-I131, PET-CT com 68Ga-DOTATATEEndocrinologia / Cirurgia Oncológica
Metanefrinas plasmáticas 1–2x o limite superior (limítrofe)Falso-positivo (coleta ortostática, medicamentos), feocromocitoma pequeno, apneia obstrutiva do sonoRepetir em decúbito, teste de supressão com clonidina, polissonografiaEndocrinologia
Normetanefrina plasmática isoladamente elevadaParaganglioma extra-adrenal, insuficiência cardíaca descompensada, uso de inibidores da MAOTC de tórax/abdome/pelve, PET-CT funcional, ecocardiograma, revisão medicamentosaEndocrinologia / Cardiologia
Metanefrinas urinárias elevadas com plasmáticas normaisInterferência alimentar ou medicamentosa, feocromocitoma com secreção intermitenteRepetir coleta urinária com controle dietético, repetir plasmáticas em decúbitoEndocrinologia

Medicamentos e Interferentes

  • Antidepressivos tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina, imipramina) — inibem recaptação de noradrenalina, elevam normetanefrina plasmática e urinária
  • Inibidores da monoaminoxidase (fenelzina, selegilina, tranilcipromina) — bloqueiam degradação de catecolaminas, elevação acentuada de metanefrinas (até 5x)
  • Inibidores seletivos da recaptação de serotonina e noradrenalina (venlafaxina, duloxetina, desvenlafaxina) — elevam normetanefrina em até 2x o limite superior
  • Paracetamol (acetaminofeno) — gera interferência cromatográfica no método HPLC com detecção eletroquímica, causando falsa elevação de metanefrina
  • Descongestionantes simpatomiméticos (pseudoefedrina, fenilefrina, nafazolina) — estimulam liberação de noradrenalina, elevam normetanefrina
  • Anfetaminas e metilfenidato — estimulam liberação e inibem recaptação de catecolaminas, elevação de metanefrinas dose-dependente
  • Alfa-bloqueadores (fenoxibenzamina, doxazosina) — aumentam liberação de noradrenalina por bloqueio de feedback pré-sináptico, elevam normetanefrina
  • Betabloqueadores (labetalol, carvedilol) — interferência cromatográfica no método HPLC; por LC-MS/MS não há interferência significativa
  • Levodopa e carbidopa — metabolizados pela COMT, geram interferência direta na dosagem de metanefrinas
  • Cocaína e etanol — estimulam sistema simpático de forma aguda, elevam metanefrinas transitoriamente

Contextos Clínicos Especiais

Idoso

Pacientes acima de 65 anos apresentam elevação fisiológica de normetanefrina plasmática (até 30% acima do limite do adulto jovem) por redução do clearance e aumento da atividade simpática basal. A especificidade do teste é menor nesta faixa etária, resultando em mais falsos-positivos. Recomenda-se utilizar pontos de corte ajustados para idade quando disponíveis e priorizar a coleta plasmática em decúbito com repouso prolongado (30–45 minutos). O teste de supressão com clonidina é particularmente útil para esclarecer resultados limítrofes em idosos.

Gestante

O feocromocitoma na gestação é raro (0,002% das gestações), porém associado a morbimortalidade materna e fetal elevada (até 40% se não diagnosticado). A dosagem de metanefrinas plasmáticas é segura na gestação e deve ser solicitada em gestantes com hipertensão paroxística ou crises hipertensivas não explicadas por pré-eclâmpsia. Os valores de referência são semelhantes aos da não gestante, embora elevações discretas possam ocorrer no terceiro trimestre. A RM sem gadolínio é o exame de imagem preferencial para localização tumoral. O tratamento com fenoxibenzamina seguido de cirurgia no segundo trimestre ou pós-parto é a conduta padrão.

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Lenders JW, Duh QY, Eisenhofer G, et al. Pheochromocytoma and Paraganglioma: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2014;99(6):1915-1942. 10.1210/jc.2014-1498
  2. Eisenhofer G, Peitzsch M. Laboratory evaluation of pheochromocytoma and paraganglioma. Clin Chem. 2014;60(12):1486-1499. 10.1373/clinchem.2014.224832
  3. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Feocromocitoma e Paraganglioma: Diagnóstico e Tratamento. Diretrizes em Endocrinologia. São Paulo: SBEM; 2020.

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