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Pneumologia

Espirometria: Interpretação Clínica e Indicações

A espirometria, também conhecida como prova de função pulmonar ou teste de sopro, é um exame não invasivo fundamental na avaliação da função ventilatória. Ela mede volumes e fluxos pulmonares durante manobras respiratórias forçadas, permitindo quantificar a capacidade pulmonar e identificar padrões ventilatórios anormais. Clinicamente, é essencial para o diagnóstico, classificação de gravidade e monitoramento de doenças respiratórias crônicas, como doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e asma, além de auxiliar na avaliação de doenças restritivas. É indicada para pacientes com sintomas respiratórios persistentes (tosse, dispneia, sibilância), para avaliação pré-operatória de risco pulmonar e no acompanhamento de doenças ocupacionais. O exame deve ser realizado por técnico treinado, seguindo protocolos padronizados da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) e da American Thoracic Society/European Respiratory Society (ATS/ERS).

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Ar expirado — coletado por espirômetro (equipamento calibrado)
Resultado em
Imediato após a realização do exame (interpretação em 5–15 minutos)
Código TUSS
40322315
Especialidade
Pneumologia / Clínica Médica

Quando solicitar este exame?

  • Investigação de dispneia crônica progressiva com tosse produtiva e história de tabagismo para diagnóstico de DPOC CID J44
  • Avaliação de sibilância episódica e dispneia com melhora após broncodilatador para diagnóstico de asma CID J45
  • Triagem de doença pulmonar intersticial em paciente com tosse seca e crepitações bibasais à ausculta CID J84
  • Avaliação pré-operatória de risco pulmonar em paciente idoso com comorbidades para cirurgia abdominal CID Z01.7
  • Monitoramento da resposta ao tratamento com corticoides inalatórios em asma moderada persistente CID J45.4
  • Investigação de suspeita de bronquiectasias em paciente com história de infecções respiratórias recorrentes CID J47
  • Avaliação de doença pulmonar ocupacional em trabalhador exposto a poeiras inorgânicas (silicose) CID J62
  • Diagnóstico de distúrbio ventilatório restritivo em paciente com história de cirurgia torácica ou deformidade da caixa torácica CID J98.4
  • Avaliação de limitação ao exercício em atleta com suspeita de asma induzida por exercício CID J45.9
  • Monitoramento da progressão de fibrose pulmonar idiopática com deterioração funcional CID J84.1

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Uso de broncodilatador inalatório nas 4–6 horas anteriores — pode mascarar obstrução brônquica reversível, levando a falso negativo para resposta broncodilatadora
  • Ingestão de refeição volumosa imediatamente antes do exame — limita a expansão torácica, podendo reduzir CVF e simular padrão restritivo
  • Realização de exercício físico intenso prévio — pode induzir broncoespasmo em asmáticos, alterando fluxos expiratórios
  • Infecção respiratória aguda (ex: resfriado comum) — causa inflamação das vias aéreas, resultando em redução transitória do VEF1
  • Falta de compreensão ou colaboração do paciente — leva a manobras inadequadas com curva fluxo-volume truncada, invalidando os parâmetros

Valores de Referência

Valores de referência do Espirometria
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
VEF1 (Volume Expiratório Forçado no 1º segundo)≥ 80% do previsto≥ 80% do previsto≥ 80% do previsto (ajustado por idade, altura e sexo)% do previsto
CVF (Capacidade Vital Forçada)≥ 80% do previsto≥ 80% do previsto≥ 80% do previsto (ajustado por idade, altura e sexo)% do previsto
Relação VEF1/CVF≥ 0.70≥ 0.70≥ 0.85 (varia com idade)razão
FEF25-75% (Fluxo Expiratório Forçado entre 25% e 75% da CVF)≥ 60% do previsto≥ 60% do previsto≥ 60% do previsto% do previsto

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Espirometria
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
VEF1/CVF < 0.70 com VEF1 < 80% do previstoPadrão obstrutivo, indicativo de doença das vias aéreas (DPOC, asma, bronquiectasias) Solicitar prova broncodilatadora para avaliar reversibilidade e gasometria arterial se hipoxemia suspeita
CVF < 80% do previsto com VEF1/CVF normal ou elevadoPadrão restritivo, sugere doença parenquimatosa, da parede torácica ou neuromuscular Solicitar radiografia de tórax e avaliação com espirometria com curva volume-tempo completa
VEF1/CVF normal com FEF25-75% < 60% do previstoObstrução de pequenas vias aéreas, comum em asma inicial ou DPOC leve Considerar prova broncodilatadora e avaliação clínica para sintomas
Aumento do VEF1 ≥ 12% e ≥ 200 mL após broncodilatadorResposta broncodilatadora positiva, sugestiva de asma ou componente reversível na DPOC Iniciar ou ajustar terapia broncodilatadora e reavaliar em 3–6 meses
VEF1 e CVF normais com redução isolada do FEF25-75%Possível doença de pequenas vias aéreas ou variante da normalidade em atletas Correlacionar com sintomas e considerar teste de provocação brônquica se asma suspeita
CVF reduzida com VEF1/CVF normal em paciente pós-cirurgia torácicaPadrão restritivo por causa extrapulmonar (dor, deformidade) Avaliar com radiografia de tórax e fisioterapia respiratória
VEF1 < 30% do previstoObstrução grave, alto risco de insuficiência respiratória Encaminhar urgente para pneumologista, considerar oxigenoterapia e gasometria
Curva fluxo-volume com concavidade ascendenteSugere obstrução de vias aéreas superiores (ex: estenose traqueal) Solicitar tomografia de tórax e avaliação otorrinolaringológica

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Espirometria
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
VEF1/CVF < 0.70 com VEF1 50–79% do previstoDPOC grau moderado, asma persistente moderadaGasometria arterial, radiografia de tórax, TC de tóraxPneumologia
CVF < 80% com VEF1/CVF normalFibrose pulmonar idiopática, sarcoidose, obesidade graveTC de alta resolução de tórax, DLCO, biópsia pulmonarPneumologia
Resposta broncodilatadora positiva (VEF1 ↑ ≥12%)Asma brônquica, DPOC com componente reversívelTeste de provocação brônquica, IgE total, eosinófilos no sanguePneumologia/Alergologia
VEF1 < 30% do previstoDPOC grave, asma grave não controlada, fibrose avançadaGasometria arterial, ecocardiograma, polissonografiaPneumologia (urgente)
FEF25-75% reduzido isoladoDoença de pequenas vias aéreas, asma induzida por exercícioTeste de exercício com espirometria, óxido nítrico exaladoPneumologia

Medicamentos e Interferentes

  • Broncodilatadores de curta ação (salbutamol) — relaxam musculatura lisa brônquica, elevando VEF1 e mascarando obstrução se usados antes do exame
  • Corticoides inalatórios — reduzem inflamação brônquica, melhorando fluxos aéreos em asmáticos após uso crônico
  • Tabagismo agudo — causa broncoconstrição transitória, reduzindo VEF1 se o paciente fumar nas 2 horas anteriores
  • Sedativos (benzodiazepínicos) — deprimem o drive respiratório, podendo reduzir esforço expiratório e subestimar CVF
  • Betabloqueadores não seletivos — podem induzir broncoconstrição em asmáticos, reduzindo VEF1

Contextos Clínicos Especiais

Idoso

No idoso, há redução fisiológica da elasticidade pulmonar e força muscular, levando a declínio do VEF1 e CVF. O limiar VEF1/CVF < 0.70 pode superestimar obstrução; utilizar LIN (limiar inferior da normalidade) baseado em equações específicas para idade. Avaliar comorbidades (cardíacas, neuromusculares) que podem mimetizar padrões ventilatórios.

Criança

Em crianças, os valores de referência são altamente dependentes de altura, idade e sexo, exigindo equações pediátricas validadas. A colaboração é limitada abaixo de 6 anos, necessitando de técnicas adaptadas (espirometria incentivada). A relação VEF1/CVF é naturalmente mais alta (≥ 0.85), e redução sugere asma ou outras doenças obstrutivas.

Gestante

Na gestação, há aumento do volume minuto e redução leve da capacidade residual funcional devido à elevação diafragmática, mas a CVF e VEF1 permanecem normais. Alterações significativas devem ser investigadas como patológicas (ex: asma descompensada). A espirometria é segura em qualquer trimestre para avaliação de sintomas respiratórios.

Exames Relacionados

Condicionais Solicitar se...

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Diretrizes para Testes de Função Pulmonar. J Bras Pneumol. 2002;28(Suppl 3):S1-S82.
  2. Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD). Global Strategy for the Diagnosis, Management, and Prevention of Chronic Obstructive Pulmonary Disease: 2023 Report.
  3. Global Initiative for Asthma (GINA). Global Strategy for Asthma Management and Prevention: 2023 Update.
  4. American Thoracic Society/European Respiratory Society. Standardisation of spirometry. Eur Respir J. 2005;26(2):319-338.
  5. Pereira CAC, Sato T, Rodrigues SC. Novos valores de referência para espirometria em brasileiros adultos de raça branca. J Bras Pneumol. 2007;33(4):397-406.

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