Espirometria: Interpretação Clínica e Indicações
A espirometria, também conhecida como prova de função pulmonar ou teste de sopro, é um exame não invasivo fundamental na avaliação da função ventilatória. Ela mede volumes e fluxos pulmonares durante manobras respiratórias forçadas, permitindo quantificar a capacidade pulmonar e identificar padrões ventilatórios anormais. Clinicamente, é essencial para o diagnóstico, classificação de gravidade e monitoramento de doenças respiratórias crônicas, como doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e asma, além de auxiliar na avaliação de doenças restritivas. É indicada para pacientes com sintomas respiratórios persistentes (tosse, dispneia, sibilância), para avaliação pré-operatória de risco pulmonar e no acompanhamento de doenças ocupacionais. O exame deve ser realizado por técnico treinado, seguindo protocolos padronizados da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) e da American Thoracic Society/European Respiratory Society (ATS/ERS).
Quando solicitar este exame?
- Investigação de dispneia crônica progressiva com tosse produtiva e história de tabagismo para diagnóstico de DPOC CID J44
- Avaliação de sibilância episódica e dispneia com melhora após broncodilatador para diagnóstico de asma CID J45
- Triagem de doença pulmonar intersticial em paciente com tosse seca e crepitações bibasais à ausculta CID J84
- Avaliação pré-operatória de risco pulmonar em paciente idoso com comorbidades para cirurgia abdominal CID Z01.7
- Monitoramento da resposta ao tratamento com corticoides inalatórios em asma moderada persistente CID J45.4
- Investigação de suspeita de bronquiectasias em paciente com história de infecções respiratórias recorrentes CID J47
- Avaliação de doença pulmonar ocupacional em trabalhador exposto a poeiras inorgânicas (silicose) CID J62
- Diagnóstico de distúrbio ventilatório restritivo em paciente com história de cirurgia torácica ou deformidade da caixa torácica CID J98.4
- Avaliação de limitação ao exercício em atleta com suspeita de asma induzida por exercício CID J45.9
- Monitoramento da progressão de fibrose pulmonar idiopática com deterioração funcional CID J84.1
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Uso de broncodilatador inalatório nas 4–6 horas anteriores — pode mascarar obstrução brônquica reversível, levando a falso negativo para resposta broncodilatadora
- Ingestão de refeição volumosa imediatamente antes do exame — limita a expansão torácica, podendo reduzir CVF e simular padrão restritivo
- Realização de exercício físico intenso prévio — pode induzir broncoespasmo em asmáticos, alterando fluxos expiratórios
- Infecção respiratória aguda (ex: resfriado comum) — causa inflamação das vias aéreas, resultando em redução transitória do VEF1
- Falta de compreensão ou colaboração do paciente — leva a manobras inadequadas com curva fluxo-volume truncada, invalidando os parâmetros
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| VEF1 (Volume Expiratório Forçado no 1º segundo) | ≥ 80% do previsto | ≥ 80% do previsto | ≥ 80% do previsto (ajustado por idade, altura e sexo) | % do previsto |
| CVF (Capacidade Vital Forçada) | ≥ 80% do previsto | ≥ 80% do previsto | ≥ 80% do previsto (ajustado por idade, altura e sexo) | % do previsto |
| Relação VEF1/CVF | ≥ 0.70 | ≥ 0.70 | ≥ 0.85 (varia com idade) | razão |
| FEF25-75% (Fluxo Expiratório Forçado entre 25% e 75% da CVF) | ≥ 60% do previsto | ≥ 60% do previsto | ≥ 60% do previsto | % do previsto |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| VEF1/CVF < 0.70 com VEF1 < 80% do previsto | Padrão obstrutivo, indicativo de doença das vias aéreas (DPOC, asma, bronquiectasias) | Solicitar prova broncodilatadora para avaliar reversibilidade e gasometria arterial se hipoxemia suspeita |
| CVF < 80% do previsto com VEF1/CVF normal ou elevado | Padrão restritivo, sugere doença parenquimatosa, da parede torácica ou neuromuscular | Solicitar radiografia de tórax e avaliação com espirometria com curva volume-tempo completa |
| VEF1/CVF normal com FEF25-75% < 60% do previsto | Obstrução de pequenas vias aéreas, comum em asma inicial ou DPOC leve | Considerar prova broncodilatadora e avaliação clínica para sintomas |
| Aumento do VEF1 ≥ 12% e ≥ 200 mL após broncodilatador | Resposta broncodilatadora positiva, sugestiva de asma ou componente reversível na DPOC | Iniciar ou ajustar terapia broncodilatadora e reavaliar em 3–6 meses |
| VEF1 e CVF normais com redução isolada do FEF25-75% | Possível doença de pequenas vias aéreas ou variante da normalidade em atletas | Correlacionar com sintomas e considerar teste de provocação brônquica se asma suspeita |
| CVF reduzida com VEF1/CVF normal em paciente pós-cirurgia torácica | Padrão restritivo por causa extrapulmonar (dor, deformidade) | Avaliar com radiografia de tórax e fisioterapia respiratória |
| VEF1 < 30% do previsto | Obstrução grave, alto risco de insuficiência respiratória | Encaminhar urgente para pneumologista, considerar oxigenoterapia e gasometria |
| Curva fluxo-volume com concavidade ascendente | Sugere obstrução de vias aéreas superiores (ex: estenose traqueal) | Solicitar tomografia de tórax e avaliação otorrinolaringológica |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| VEF1/CVF < 0.70 com VEF1 50–79% do previsto | DPOC grau moderado, asma persistente moderada | Gasometria arterial, radiografia de tórax, TC de tórax | Pneumologia |
| CVF < 80% com VEF1/CVF normal | Fibrose pulmonar idiopática, sarcoidose, obesidade grave | TC de alta resolução de tórax, DLCO, biópsia pulmonar | Pneumologia |
| Resposta broncodilatadora positiva (VEF1 ↑ ≥12%) | Asma brônquica, DPOC com componente reversível | Teste de provocação brônquica, IgE total, eosinófilos no sangue | Pneumologia/Alergologia |
| VEF1 < 30% do previsto | DPOC grave, asma grave não controlada, fibrose avançada | Gasometria arterial, ecocardiograma, polissonografia | Pneumologia (urgente) |
| FEF25-75% reduzido isolado | Doença de pequenas vias aéreas, asma induzida por exercício | Teste de exercício com espirometria, óxido nítrico exalado | Pneumologia |
Medicamentos e Interferentes
- Broncodilatadores de curta ação (salbutamol) — relaxam musculatura lisa brônquica, elevando VEF1 e mascarando obstrução se usados antes do exame
- Corticoides inalatórios — reduzem inflamação brônquica, melhorando fluxos aéreos em asmáticos após uso crônico
- Tabagismo agudo — causa broncoconstrição transitória, reduzindo VEF1 se o paciente fumar nas 2 horas anteriores
- Sedativos (benzodiazepínicos) — deprimem o drive respiratório, podendo reduzir esforço expiratório e subestimar CVF
- Betabloqueadores não seletivos — podem induzir broncoconstrição em asmáticos, reduzindo VEF1
Contextos Clínicos Especiais
Idoso
No idoso, há redução fisiológica da elasticidade pulmonar e força muscular, levando a declínio do VEF1 e CVF. O limiar VEF1/CVF < 0.70 pode superestimar obstrução; utilizar LIN (limiar inferior da normalidade) baseado em equações específicas para idade. Avaliar comorbidades (cardíacas, neuromusculares) que podem mimetizar padrões ventilatórios.
Criança
Em crianças, os valores de referência são altamente dependentes de altura, idade e sexo, exigindo equações pediátricas validadas. A colaboração é limitada abaixo de 6 anos, necessitando de técnicas adaptadas (espirometria incentivada). A relação VEF1/CVF é naturalmente mais alta (≥ 0.85), e redução sugere asma ou outras doenças obstrutivas.
Gestante
Na gestação, há aumento do volume minuto e redução leve da capacidade residual funcional devido à elevação diafragmática, mas a CVF e VEF1 permanecem normais. Alterações significativas devem ser investigadas como patológicas (ex: asma descompensada). A espirometria é segura em qualquer trimestre para avaliação de sintomas respiratórios.
Exames Relacionados
- Se VEF1 < 30% do previsto ou sintomas de insuficiência respiratória Gasometria arterial
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
O VEF1 (Volume Expiratório Forçado no primeiro segundo) é considerado normal quando atinge pelo menos 80% do valor previsto para o indivíduo, baseado em equações que consideram idade, altura, sexo e etnia. Valores entre 70-79% são considerados limítrofes, e abaixo de 70% indicam obstrução das vias aéreas. Utilizar equações validadas para população brasileira, como as da Sociedade Brasileira de Pneumologia.
O limiar tradicional é VEF1/CVF < 0.70 (ou 70%) para definir padrão obstrutivo. No entanto, em idosos (> 65 anos) ou em populações específicas, recomenda-se usar o limiar inferior da normalidade (LIN), que é o percentil 5 da distribuição de referência, para evitar superdiagnóstico. Diretrizes atuais da ATS/ERS sugerem essa abordagem baseada em evidências.
Padrão restritivo é caracterizado por CVF reduzida (< 80% do previsto) com relação VEF1/CVF normal ou elevada. Indica redução dos volumes pulmonares totais, podendo ser devido a doenças do parênquima (fibroses), da parede torácica (escoliose, obesidade), pleura (derrame) ou neuromuscular (miastenia). Requer confirmação com exames como radiografia de tórax ou plethysmografia.
Resposta broncodilatadora positiva é definida por aumento do VEF1 ≥ 12% e ≥ 200 mL em valor absoluto após administração de broncodilatador de curta ação (ex: salbutamol). Indica reversibilidade da obstrução, sugestiva de asma ou componente reversível na DPOC. Ausência de resposta não exclui asma, especialmente se o paciente já estiver em uso de medicação de controle.
Solicite espirometria quando o objetivo for quantificar a função ventilatória (ex: diagnóstico de DPOC, asma, avaliação de limitação ao exercício). Radiografia de tórax é preferível para avaliação estrutural (infiltrados, nódulos, derrames). Na prática, os exames são complementares: a espirometria define o padrão funcional, e a radiografia auxilia na etiologia.
Não, a espirometria não requer jejum. No entanto, recomenda-se evitar refeições volumosas nas 2 horas anteriores, pois podem limitar a expansão torácica e reduzir a CVF. O paciente deve também abster-se de fumar e usar broncodilatadores de curta ação por 4-6 horas antes do exame, conforme orientação do serviço.
Na DPOC, há obstrução irreversível ou parcialmente reversível (resposta broncodilatadora < 12% no VEF1), com história de tabagismo. Na asma, tipicamente há obstrução reversível (resposta ≥ 12%), variabilidade diurna dos sintomas e possível normalização entre crises. A espirometria seriada e prova broncodilatadora são essenciais, mas o diagnóstico é clínico-epidemiológico.
Não, uma espirometria normal não exclui doença pulmonar intersticial precoce. Nas fases iniciais, a CVF pode estar preservada, e o primeiro achado pode ser redução da DLCO (capacidade de difusão) ou alterações na TC de tórax. Em suspeita clínica (tosse seca, crepitações), solicitar TC de alta resolução mesmo com espirometria normal.
Referências
- Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Diretrizes para Testes de Função Pulmonar. J Bras Pneumol. 2002;28(Suppl 3):S1-S82.
- Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD). Global Strategy for the Diagnosis, Management, and Prevention of Chronic Obstructive Pulmonary Disease: 2023 Report.
- Global Initiative for Asthma (GINA). Global Strategy for Asthma Management and Prevention: 2023 Update.
- American Thoracic Society/European Respiratory Society. Standardisation of spirometry. Eur Respir J. 2005;26(2):319-338.
- Pereira CAC, Sato T, Rodrigues SC. Novos valores de referência para espirometria em brasileiros adultos de raça branca. J Bras Pneumol. 2007;33(4):397-406.