CMV IgG e IgM (Citomegalovírus): Interpretação Clínica e Indicações
A sorologia para CMV (Citomegalovírus) compreende a dosagem de anticorpos IgG e IgM específicos, sendo o principal método para triagem de imunidade e diagnóstico de infecção aguda ou reativação por este herpesvírus. O CMV é um patógeno oportunista de alta relevância clínica em gestantes (risco de transmissão vertical com sequelas fetais graves como microcefalia e perda auditiva) e em pacientes imunossuprimidos (transplantados, oncológicos, HIV), nos quais pode causar doença disseminada com alta morbimortalidade. A interpretação conjunta de IgG e IgM, aliada à avidez de IgG quando indicada, permite diferenciar infecção primária (de maior risco em gestantes) de reativação ou infecção antiga. Também conhecido como sorologia para citomegalovírus, este exame é fundamental no pré-natal e no acompanhamento de transplantados, orientando condutas como terapia antiviral e monitoramento da carga viral por PCR.
Quando solicitar este exame?
- Triagem de imunidade ao CMV em gestante no primeiro trimestre (pré-natal) para estratificação de risco de infecção primária. CID Z34
- Investigação de infecção congênita por CMV em recém-nascido com microcefalia, petéquias, hepatosplenomegalia ou falha auditiva na triagem neonatal. CID P35
- Avaliação de doador e receptor de órgãos sólidos (rim, fígado, coração) pré-transplante para definir risco de doença pós-transplante e estratégia de profilaxia. CID Z94
- Diagnóstico de doença por CMV em transplantado com febre, leucopenia, hepatite, colite ou pneumonite. CID B25
- Investigação de mononucleose-like com febre, astenia, linfocitose atípica e faringite em adulto imunocompetente (síndrome mononucleósica por CMV). CID B27
- Avaliação de paciente com HIV/AIDS e contagem de CD4 < 100 células/μL com retinite, esofagite ou colite. CID B20
- Triagem de doadores de sangue e órgãos para prevenir transmissão por transfusão ou transplante. CID Z11
- Monitoramento de gestante com soroconversão ou IgM positiva para definir momento da infecção (avidez de IgG). CID O98
- Investigação de hepatite aguda com elevação de transaminases e febre em imunocompetente ou imunossuprimido. CID B17
- Avaliação de paciente com neoplasia hematológica em quimioterapia com febre e pancitopenia. CID C95
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Hemólise intensa — interfere na leitura espectrofotométrica, podendo causar resultados falso-negativos ou falso-positivos; rejeitar amostra.
- Lipemia acentuada — turbidez interfere na dosagem por nefelometria, alterando resultados; centrifugar ou ultracentrifugar para clarificação.
- Amostra coletada em tubo com anticoagulante (EDTA, heparina) — pode alterar resultados em alguns métodos; preferir soro.
- Armazenamento prolongado a temperatura ambiente — degradação de anticorpos, especialmente IgM, levando a falso-negativos; processar em até 48h ou congelar a -20°C.
- Contaminação bacteriana — altera pH e turbidez, interferindo em métodos colorimétricos; rejeitar amostra turva ou com flocos.
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| CMV IgG | Negativo: < 0,9 U/mL; Indeterminado: 0,9–1,1 U/mL; Positivo: > 1,1 U/mL | Negativo: < 0,9 U/mL; Indeterminado: 0,9–1,1 U/mL; Positivo: > 1,1 U/mL | Negativo: < 0,9 U/mL; Indeterminado: 0,9–1,1 U/mL; Positivo: > 1,1 U/mL (valores similares a adultos) | U/mL (unidades por mililitro) |
| CMV IgM | Negativo: < 0,9 U/mL; Indeterminado: 0,9–1,1 U/mL; Positivo: > 1,1 U/mL | Negativo: < 0,9 U/mL; Indeterminado: 0,9–1,1 U/mL; Positivo: > 1,1 U/mL | Negativo: < 0,9 U/mL; Indeterminado: 0,9–1,1 U/mL; Positivo: > 1,1 U/mL (valores similares a adultos) | U/mL (unidades por mililitro) |
| Avidez de IgG | Baixa avidez: < 40%; Avidez intermediária: 40–60%; Alta avidez: > 60% | Baixa avidez: < 40%; Avidez intermediária: 40–60%; Alta avidez: > 60% | Baixa avidez: < 40%; Avidez intermediária: 40–60%; Alta avidez: > 60% (aplicável apenas se IgG positivo) | % (porcentagem) |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| IgG negativo e IgM negativo | Ausência de infecção prévia por CMV (soronegativo). Paciente suscetível a infecção primária. | Em gestantes, orientar medidas de prevenção (higiene). Em transplantados, considerar profilaxia se receptor negativo e doador positivo. |
| IgG positivo e IgM negativo | Infecção antiga por CMV (soropositivo). Imunidade estabelecida, sem evidência de infecção aguda. | Em gestantes, risco baixo de transmissão vertical. Em imunossuprimidos, monitorar reativação com PCR se sintomático. |
| IgG positivo e IgM positivo com avidez de IgG baixa (< 40%) | Sugere infecção primária recente (últimos 3–4 meses). Alto risco de transmissão vertical em gestantes. | Em gestantes, realizar ultrassom morfológico detalhado e PCR para CMV no líquido amniótico. Considerar valganciclovir. |
| IgG positivo e IgM positivo com avidez de IgG alta (> 60%) | Provável reativação de infecção latente ou IgM persistente. Risco menor de transmissão vertical. | Avaliar carga viral por PCR se sintomas de doença ativa. Em gestantes, acompanhar com ultrassom seriado. |
| IgG negativo e IgM positivo | Possível infecção primária muito recente (janela imunológica) ou falso positivo (reação cruzada). | |
| IgG indeterminado e IgM negativo | Resultado inconclusivo. Pode representar infecção muito inicial ou reação inespecífica. | Repetir exame em 2–3 semanas para definição. Em gestantes, considerar como suspeita e investigar. |
| IgG positivo com título elevado (ex: > 150 U/mL) e IgM positivo em imunossuprimido | Sugere reativação com possível doença ativa, mas não confirma. | Solicitar PCR quantitativo para CMV no sangue ou fluido relevante (LCR, lavado broncoalveolar) para confirmação. |
| Avidez de IgG intermediária (40–60%) | Zona cinzenta. Não diferencia infecção primária recente de antiga com precisão. | Correlacionar com história clínica e ultrassom fetal. Repetir avidez em 3–4 semanas para observar aumento. |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| IgM positivo em gestante com febre e astenia | Infecção primária por CMV, mononucleose por EBV, toxoplasmose aguda, infecção por parvovírus B19. | Sorologia para EBV (VCA IgM), toxoplasmose (IgM, avidez), parvovírus B19 IgM, PCR para CMV no sangue. | Infectologia / Ginecologia e Obstetrícia |
| IgG positivo e IgM positivo em transplantado com febre e pancitopenia | Doença por CMV, rejeição aguda, infecção bacteriana ou fúngica, linfoproliferativa pós-transplante. | PCR quantitativo para CMV, hemoculturas, biópsia do órgão transplantado, tomografia de tórax/abdome. | Nefrologia / Infectologia |
| IgG negativo em receptor de transplante | Suscetibilidade a infecção primária por CMV (risco alto se doador positivo), outras infecções oportunistas. | Sorologia do doador para CMV, PCR serial para CMV, sorologia para outros vírus (EBV, HSV). | Nefrologia / Infectologia |
| IgM positivo em criança com microcefalia | Infecção congênita por CMV, toxoplasmose congênita, rubéola congênita, síndrome de Zika congênita. | PCR para CMV em urina ou saliva, sorologia para toxoplasmose e rubéola, neuroimagem (RM de crânio). | Infectologia / Neurologia Pediátrica |
| IgG positivo com avidez baixa em adulto imunocompetente com hepatite | Hepatite por CMV, hepatite viral (HAV, HBV, HCV), hepatite autoimune, mononucleose por EBV. | Painel hepático completo, sorologia para hepatites virais, autoanticorpos (ANA, anti-LKM), PCR para CMV. | Gastroenterologia / Infectologia |
Medicamentos e Interferentes
- Imunossupressores (corticoides, quimioterápicos) — reduzem produção de anticorpos, podendo causar falso-negativo em IgM ou IgG em infecção aguda.
- Gamaglobulina intravenosa (IVIG) — contém anticorpos anti-CMV, podendo causar falso-positivo em IgG, especialmente em pacientes agamaglobulinêmicos.
- Doenças autoimunes (lúpus, artrite reumatoide) — presença de fator reumatoide ou anticorpos antinucleares pode causar falso-positivo em IgM por reação cruzada.
- Gestação — alterações imunológicas podem modular resposta de anticorpos, mas não interferem diretamente na dosagem; interpretar com cautela.
- Transfusão sanguínea recente — pode transferir anticorpos anti-CMV, causando falso-positivo em IgG temporário.
Contextos Clínicos Especiais
Gestante
A infecção primária por CMV na gestação, especialmente no primeiro e segundo trimestres, apresenta alto risco de transmissão vertical (30–40%) e sequelas fetais graves como microcefalia, calcificações intracranianas, perda auditiva neurosensorial e retardo psicomotor. A sorologia deve ser realizada no primeiro trimestre para triagem de imunidade. Se IgG negativo, orientar medidas de higiene para prevenção. Se IgM positiva, realizar avidez de IgG para datar infecção. Alta avidez (>60%) sugere infecção antiga com baixo risco, enquanto baixa avidez (<40%) indica infecção recente, necessitando de ultrassom morfológico detalhado e possível PCR no líquido amniótico após 21 semanas. O tratamento com valganciclovir pode ser considerado em casos confirmados, mas é limitado por toxicidade.
Imunossuprimido
Em transplantados de órgãos sólidos ou medula óssea, receptores soronegativos (IgG negativo) que recebem órgão de doador soropositivo (IgG positivo) têm alto risco de doença por CMV primária. Receptores soropositivos podem ter reativação. A sorologia pré-transplante é essencial para estratificação de risco e definição de estratégia de profilaxia (valganciclovir) ou monitoramento pré-emptivo com PCR. Em pacientes com HIV/AIDS e CD4 < 100 células/μL, a doença por CMV manifesta-se principalmente como retinite, esofagite ou colite. A sorologia tem valor limitado para diagnóstico de doença ativa, sendo o PCR quantitativo no sangue ou fluido afetado o padrão-ouro. Em oncológicos em quimioterapia, a reativação pode causar pneumonite ou hepatite.
Criança
Em recém-nascidos, a infecção congênita por CMV é a principal causa infecciosa de deficiência neurossensorial não genética. A sorologia materna positiva para IgM ou avidez baixa sugere infecção primária durante a gestação, mas o diagnóstico no neonato requer confirmação por PCR para CMV em urina ou saliva coletada até 3 semanas de vida (após isso, pode ser infecção perinatal). Crianças soropositivas assintomáticas ao nascimento ainda podem desenvolver sequelas tardias como perda auditiva progressiva, necessitando de acompanhamento audiológico e neurológico regular. Em crianças imunocompetentes mais velhas, a infecção primária é frequentemente assintomática ou causa síndrome mononucleósica leve.
Exames Relacionados
- Se IgM positiva em gestante com avidez de IgG baixa (< 40%) PCR para CMV no líquido amniótico
- Se IgG negativo em receptor de transplante renal PCR serial para CMV
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
Os valores de referência variam por método, mas geralmente: CMV IgG e IgM: negativo 1,1 U/mL. Avidez de IgG: baixa 60%. Sempre conferir a referência do laboratório, pois cortes podem diferir entre plataformas (Siemens, Roche).
Indica infecção antiga por CMV com imunidade estabelecida, sem evidência de infecção aguda recente. Em gestantes, confere proteção contra infecção primária (risco baixo de transmissão vertical). Em imunossuprimidos, não exclui reativação; se sintomático, solicitar PCR para CMV.
Requer avidez de IgG para datar a infecção. Avidez baixa (< 40%): sugere infecção primária nos últimos 3–4 meses, alto risco fetal, necessita ultrassom morfológico e possível PCR no líquido amniótico. Avidez alta (> 60%): provável infecção antiga ou reativação, risco menor, acompanhar com ultrassom seriado.
Sorologia é indicada para triagem de imunidade (gestantes, pré-transplante), diagnóstico de infecção primária em imunocompetentes e datar infecção com avidez. PCR é superior para diagnóstico de doença ativa em imunossuprimidos, monitoramento de carga viral e confirmação de infecção congênita em neonatos.
Não, a sorologia para CMV não requer jejum. A coleta pode ser feita a qualquer hora, em tubo sem anticoagulante (soro). Jejum não interfere na dosagem de anticorpos, mas lipemia intensa pode afetar resultados técnicos.
Use a avidez de IgG: baixa avidez ( 60%) sugere infecção antiga ou reativação. Em imunossuprimidos, a sorologia é menos confiável; PCR quantitativo elevado com sintomas define doença ativa, independente do padrão sorológico.
Não, pois anticorpos maternos IgG atravessam a placenta e podem mascarar infecção. O diagnóstico de infecção congênita requer PCR para CMV em urina ou saliva coletada até 3 semanas de vida. Sorologia isolada não é suficiente para excluir ou confirmar infecção congênita.
Pode representar infecção primária muito recente (janela imunológica) ou falso positivo. Repita a sorologia em 2–4 semanas para observar soroconversão de IgG. Se IgG permanecer negativo, considerar outros diagnósticos (ex: reação cruzada). Enquanto isso, realize ultrassom para avaliar sinais fetais e oriente medidas de prevenção.
Referências
- Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. 3ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2019.
- Kotton CN, Kumar D, Caliendo AM, et al. The Third International Consensus Guidelines on the Management of Cytomegalovirus in Solid-organ Transplantation. Transplantation. 2018;102(6):900-931. 10.1097/TP.0000000000002191
- Rawlinson WD, Boppana SB, Fowler KB, et al. Congenital cytomegalovirus infection in pregnancy and the neonate: consensus recommendations for prevention, diagnosis, and therapy. Lancet Infect Dis. 2017;17(6):e177-e188. 10.1016/S1473-3099(17)30143-3
- Sociedade Brasileira de Infectologia. Diretrizes para o manejo das infecções por citomegalovírus em pacientes imunocomprometidos. 2020.
- Ljungman P, Boeckh M, Hirsch HH, et al. Definitions of Cytomegalovirus Infection and Disease in Transplant Patients for Use in Clinical Trials. Clin Infect Dis. 2017;64(1):87-91. 10.1093/cid/ciw668