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Infectologia

CMV IgG e IgM (Citomegalovírus): Interpretação Clínica e Indicações

A sorologia para CMV (Citomegalovírus) compreende a dosagem de anticorpos IgG e IgM específicos, sendo o principal método para triagem de imunidade e diagnóstico de infecção aguda ou reativação por este herpesvírus. O CMV é um patógeno oportunista de alta relevância clínica em gestantes (risco de transmissão vertical com sequelas fetais graves como microcefalia e perda auditiva) e em pacientes imunossuprimidos (transplantados, oncológicos, HIV), nos quais pode causar doença disseminada com alta morbimortalidade. A interpretação conjunta de IgG e IgM, aliada à avidez de IgG quando indicada, permite diferenciar infecção primária (de maior risco em gestantes) de reativação ou infecção antiga. Também conhecido como sorologia para citomegalovírus, este exame é fundamental no pré-natal e no acompanhamento de transplantados, orientando condutas como terapia antiviral e monitoramento da carga viral por PCR.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso — tubo sem anticoagulante (tampa amarela ou vermelha) ou com gel separador
Resultado em
24–48 horas (métodos de quimioluminescência ou ELISA)
Código TUSS
40322237
Especialidade
Infectologia / Ginecologia e Obstetrícia / Nefrologia

Quando solicitar este exame?

  • Triagem de imunidade ao CMV em gestante no primeiro trimestre (pré-natal) para estratificação de risco de infecção primária. CID Z34
  • Investigação de infecção congênita por CMV em recém-nascido com microcefalia, petéquias, hepatosplenomegalia ou falha auditiva na triagem neonatal. CID P35
  • Avaliação de doador e receptor de órgãos sólidos (rim, fígado, coração) pré-transplante para definir risco de doença pós-transplante e estratégia de profilaxia. CID Z94
  • Diagnóstico de doença por CMV em transplantado com febre, leucopenia, hepatite, colite ou pneumonite. CID B25
  • Investigação de mononucleose-like com febre, astenia, linfocitose atípica e faringite em adulto imunocompetente (síndrome mononucleósica por CMV). CID B27
  • Avaliação de paciente com HIV/AIDS e contagem de CD4 < 100 células/μL com retinite, esofagite ou colite. CID B20
  • Triagem de doadores de sangue e órgãos para prevenir transmissão por transfusão ou transplante. CID Z11
  • Monitoramento de gestante com soroconversão ou IgM positiva para definir momento da infecção (avidez de IgG). CID O98
  • Investigação de hepatite aguda com elevação de transaminases e febre em imunocompetente ou imunossuprimido. CID B17
  • Avaliação de paciente com neoplasia hematológica em quimioterapia com febre e pancitopenia. CID C95

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Hemólise intensa — interfere na leitura espectrofotométrica, podendo causar resultados falso-negativos ou falso-positivos; rejeitar amostra.
  • Lipemia acentuada — turbidez interfere na dosagem por nefelometria, alterando resultados; centrifugar ou ultracentrifugar para clarificação.
  • Amostra coletada em tubo com anticoagulante (EDTA, heparina) — pode alterar resultados em alguns métodos; preferir soro.
  • Armazenamento prolongado a temperatura ambiente — degradação de anticorpos, especialmente IgM, levando a falso-negativos; processar em até 48h ou congelar a -20°C.
  • Contaminação bacteriana — altera pH e turbidez, interferindo em métodos colorimétricos; rejeitar amostra turva ou com flocos.

Valores de Referência

Valores de referência do CMV IgG e IgM (Citomegalovírus)
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
CMV IgGNegativo: < 0,9 U/mL; Indeterminado: 0,9–1,1 U/mL; Positivo: > 1,1 U/mLNegativo: < 0,9 U/mL; Indeterminado: 0,9–1,1 U/mL; Positivo: > 1,1 U/mLNegativo: < 0,9 U/mL; Indeterminado: 0,9–1,1 U/mL; Positivo: > 1,1 U/mL (valores similares a adultos)U/mL (unidades por mililitro)
CMV IgMNegativo: < 0,9 U/mL; Indeterminado: 0,9–1,1 U/mL; Positivo: > 1,1 U/mLNegativo: < 0,9 U/mL; Indeterminado: 0,9–1,1 U/mL; Positivo: > 1,1 U/mLNegativo: < 0,9 U/mL; Indeterminado: 0,9–1,1 U/mL; Positivo: > 1,1 U/mL (valores similares a adultos)U/mL (unidades por mililitro)
Avidez de IgGBaixa avidez: < 40%; Avidez intermediária: 40–60%; Alta avidez: > 60%Baixa avidez: < 40%; Avidez intermediária: 40–60%; Alta avidez: > 60%Baixa avidez: < 40%; Avidez intermediária: 40–60%; Alta avidez: > 60% (aplicável apenas se IgG positivo)% (porcentagem)

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do CMV IgG e IgM (Citomegalovírus)
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
IgG negativo e IgM negativoAusência de infecção prévia por CMV (soronegativo). Paciente suscetível a infecção primária. Em gestantes, orientar medidas de prevenção (higiene). Em transplantados, considerar profilaxia se receptor negativo e doador positivo.
IgG positivo e IgM negativoInfecção antiga por CMV (soropositivo). Imunidade estabelecida, sem evidência de infecção aguda. Em gestantes, risco baixo de transmissão vertical. Em imunossuprimidos, monitorar reativação com PCR se sintomático.
IgG positivo e IgM positivo com avidez de IgG baixa (< 40%)Sugere infecção primária recente (últimos 3–4 meses). Alto risco de transmissão vertical em gestantes. Em gestantes, realizar ultrassom morfológico detalhado e PCR para CMV no líquido amniótico. Considerar valganciclovir.
IgG positivo e IgM positivo com avidez de IgG alta (> 60%)Provável reativação de infecção latente ou IgM persistente. Risco menor de transmissão vertical. Avaliar carga viral por PCR se sintomas de doença ativa. Em gestantes, acompanhar com ultrassom seriado.
IgG negativo e IgM positivoPossível infecção primária muito recente (janela imunológica) ou falso positivo (reação cruzada).
IgG indeterminado e IgM negativoResultado inconclusivo. Pode representar infecção muito inicial ou reação inespecífica. Repetir exame em 2–3 semanas para definição. Em gestantes, considerar como suspeita e investigar.
IgG positivo com título elevado (ex: > 150 U/mL) e IgM positivo em imunossuprimidoSugere reativação com possível doença ativa, mas não confirma. Solicitar PCR quantitativo para CMV no sangue ou fluido relevante (LCR, lavado broncoalveolar) para confirmação.
Avidez de IgG intermediária (40–60%)Zona cinzenta. Não diferencia infecção primária recente de antiga com precisão. Correlacionar com história clínica e ultrassom fetal. Repetir avidez em 3–4 semanas para observar aumento.

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para CMV IgG e IgM (Citomegalovírus)
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
IgM positivo em gestante com febre e asteniaInfecção primária por CMV, mononucleose por EBV, toxoplasmose aguda, infecção por parvovírus B19.Sorologia para EBV (VCA IgM), toxoplasmose (IgM, avidez), parvovírus B19 IgM, PCR para CMV no sangue.Infectologia / Ginecologia e Obstetrícia
IgG positivo e IgM positivo em transplantado com febre e pancitopeniaDoença por CMV, rejeição aguda, infecção bacteriana ou fúngica, linfoproliferativa pós-transplante.PCR quantitativo para CMV, hemoculturas, biópsia do órgão transplantado, tomografia de tórax/abdome.Nefrologia / Infectologia
IgG negativo em receptor de transplanteSuscetibilidade a infecção primária por CMV (risco alto se doador positivo), outras infecções oportunistas.Sorologia do doador para CMV, PCR serial para CMV, sorologia para outros vírus (EBV, HSV).Nefrologia / Infectologia
IgM positivo em criança com microcefaliaInfecção congênita por CMV, toxoplasmose congênita, rubéola congênita, síndrome de Zika congênita.PCR para CMV em urina ou saliva, sorologia para toxoplasmose e rubéola, neuroimagem (RM de crânio).Infectologia / Neurologia Pediátrica
IgG positivo com avidez baixa em adulto imunocompetente com hepatiteHepatite por CMV, hepatite viral (HAV, HBV, HCV), hepatite autoimune, mononucleose por EBV.Painel hepático completo, sorologia para hepatites virais, autoanticorpos (ANA, anti-LKM), PCR para CMV.Gastroenterologia / Infectologia

Medicamentos e Interferentes

  • Imunossupressores (corticoides, quimioterápicos) — reduzem produção de anticorpos, podendo causar falso-negativo em IgM ou IgG em infecção aguda.
  • Gamaglobulina intravenosa (IVIG) — contém anticorpos anti-CMV, podendo causar falso-positivo em IgG, especialmente em pacientes agamaglobulinêmicos.
  • Doenças autoimunes (lúpus, artrite reumatoide) — presença de fator reumatoide ou anticorpos antinucleares pode causar falso-positivo em IgM por reação cruzada.
  • Gestação — alterações imunológicas podem modular resposta de anticorpos, mas não interferem diretamente na dosagem; interpretar com cautela.
  • Transfusão sanguínea recente — pode transferir anticorpos anti-CMV, causando falso-positivo em IgG temporário.

Contextos Clínicos Especiais

Gestante

A infecção primária por CMV na gestação, especialmente no primeiro e segundo trimestres, apresenta alto risco de transmissão vertical (30–40%) e sequelas fetais graves como microcefalia, calcificações intracranianas, perda auditiva neurosensorial e retardo psicomotor. A sorologia deve ser realizada no primeiro trimestre para triagem de imunidade. Se IgG negativo, orientar medidas de higiene para prevenção. Se IgM positiva, realizar avidez de IgG para datar infecção. Alta avidez (>60%) sugere infecção antiga com baixo risco, enquanto baixa avidez (<40%) indica infecção recente, necessitando de ultrassom morfológico detalhado e possível PCR no líquido amniótico após 21 semanas. O tratamento com valganciclovir pode ser considerado em casos confirmados, mas é limitado por toxicidade.

Imunossuprimido

Em transplantados de órgãos sólidos ou medula óssea, receptores soronegativos (IgG negativo) que recebem órgão de doador soropositivo (IgG positivo) têm alto risco de doença por CMV primária. Receptores soropositivos podem ter reativação. A sorologia pré-transplante é essencial para estratificação de risco e definição de estratégia de profilaxia (valganciclovir) ou monitoramento pré-emptivo com PCR. Em pacientes com HIV/AIDS e CD4 < 100 células/μL, a doença por CMV manifesta-se principalmente como retinite, esofagite ou colite. A sorologia tem valor limitado para diagnóstico de doença ativa, sendo o PCR quantitativo no sangue ou fluido afetado o padrão-ouro. Em oncológicos em quimioterapia, a reativação pode causar pneumonite ou hepatite.

Criança

Em recém-nascidos, a infecção congênita por CMV é a principal causa infecciosa de deficiência neurossensorial não genética. A sorologia materna positiva para IgM ou avidez baixa sugere infecção primária durante a gestação, mas o diagnóstico no neonato requer confirmação por PCR para CMV em urina ou saliva coletada até 3 semanas de vida (após isso, pode ser infecção perinatal). Crianças soropositivas assintomáticas ao nascimento ainda podem desenvolver sequelas tardias como perda auditiva progressiva, necessitando de acompanhamento audiológico e neurológico regular. Em crianças imunocompetentes mais velhas, a infecção primária é frequentemente assintomática ou causa síndrome mononucleósica leve.

Exames Relacionados

Condicionais Solicitar se...

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. 3ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2019.
  2. Kotton CN, Kumar D, Caliendo AM, et al. The Third International Consensus Guidelines on the Management of Cytomegalovirus in Solid-organ Transplantation. Transplantation. 2018;102(6):900-931. 10.1097/TP.0000000000002191
  3. Rawlinson WD, Boppana SB, Fowler KB, et al. Congenital cytomegalovirus infection in pregnancy and the neonate: consensus recommendations for prevention, diagnosis, and therapy. Lancet Infect Dis. 2017;17(6):e177-e188. 10.1016/S1473-3099(17)30143-3
  4. Sociedade Brasileira de Infectologia. Diretrizes para o manejo das infecções por citomegalovírus em pacientes imunocomprometidos. 2020.
  5. Ljungman P, Boeckh M, Hirsch HH, et al. Definitions of Cytomegalovirus Infection and Disease in Transplant Patients for Use in Clinical Trials. Clin Infect Dis. 2017;64(1):87-91. 10.1093/cid/ciw668

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