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Reumatologia

Anti-Sm (Anticorpo anti-Smith): Interpretação Clínica e Indicações

O anticorpo anti-Smith (anti-Sm) é um autoanticorpo dirigido contra proteínas nucleares pequenas ricas em uridina (snRNPs), especificamente contra os componentes B/B', D e E do complexo spliceossomal. É um marcador altamente específico para o lúpus eritematoso sistêmico (LES), sendo considerado um dos critérios imunológicos do American College of Rheumatology (ACR) e do Systemic Lupus International Collaborating Clinics (SLICC) para o diagnóstico da doença. Sua detecção é realizada por métodos imunoenzimáticos (ELISA) ou por imunofluorescência indireta em células HEp-2, com plataformas como BioPlex 2200 (Bio-Rad) e Phadia (Thermo Fisher) amplamente utilizadas no Brasil. Clinicamente, o anti-Sm é relevante por sua associação com manifestações específicas do LES, como nefrite lúpica e doença neuropsiquiátrica, auxiliando na estratificação de risco e no diagnóstico diferencial de doenças autoimunes sistêmicas. É indicado principalmente para médicos reumatologistas, clínicos e residentes envolvidos na investigação de pacientes com suspeita de LES ou com diagnóstico estabelecido que necessitam de confirmação imunológica.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso — tubo sem anticoagulante (tampa amarela ou vermelha) ou tubo com gel separador
Resultado em
24–48 horas (métodos automatizados)
Código TUSS
40322236
Especialidade
Reumatologia / Imunologia Clínica

Quando solicitar este exame?

  • Investigação de suspeita de lúpus eritematoso sistêmico em paciente com rash malar, artrite e fotossensibilidade CID M32
  • Confirmação diagnóstica de LES em paciente com critérios clínicos incompletos e FAN positivo CID M32
  • Avaliação de paciente com nefrite lúpica (proteinúria > 500 mg/dia e sedimento urinário ativo) para estratificação imunológica CID M32.1
  • Investigação de doença neuropsiquiátrica lúpica (convulsões, psicose) com achados clínicos sugestivos CID M32.1
  • Diagnóstico diferencial de síndrome do anticorpo antifosfolípide secundária ao LES CID M32.8
  • Avaliação de paciente com citopenias autoimunes (anemia hemolítica, trombocitopenia) e suspeita de doença do tecido conjuntivo CID D59.1
  • Investigação de serosite (pleurite, pericardite) inexplicada com marcadores inflamatórios elevados CID M32.1
  • Monitoramento imunológico de paciente com LES estabelecido e alteração no perfil de autoanticorpos CID M32
  • Avaliação de paciente com síndrome de overlap (LES-esclerodermia) para definição do espectro autoimune CID M35.1
  • Investigação de alopecia não cicatricial e úlceras orais recorrentes com achados sistêmicos CID M32

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Hemólise da amostra — interfere na leitura espectrofotométrica do ELISA, podendo causar resultados falso-positivos ou falso-negativos
  • Lipemia intensa — aumenta a turbidez do soro, interferindo na dosagem por nefelometria ou quimioluminescência
  • Icterícia marcada — a bilirrubina pode absorver luz no comprimento de onda do ensaio, causando interferência analítica
  • Contaminação com EDTA — anticoagulante quelante pode alterar a conformação antigênica, levando a resultados falso-negativos
  • Armazenamento inadequado (temperatura > 8°C) — degradação das imunoglobulinas, reduzindo a sensibilidade do teste

Valores de Referência

Valores de referência do Anti-Sm (Anticorpo anti-Smith)
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
Anti-Sm< 20 U/mL (negativo)< 20 U/mL (negativo)< 20 U/mL (negativo) — mesma faixa que adultosU/mL

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Anti-Sm (Anticorpo anti-Smith)
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
Anti-Sm positivo (> 20 U/mL)Altamente sugestivo de lúpus eritematoso sistêmico (LES), com especificidade >99%. Pode estar associado a maior risco de nefrite lúpica e doença neuropsiquiátrica. Completar investigação com anti-dsDNA, complemento C3/C4, urina tipo I e proteinúria de 24h.
Anti-Sm negativo (< 20 U/mL)Não exclui diagnóstico de LES devido à baixa sensibilidade (20–30%). Outros autoanticorpos (anti-dsDNA, anti-Ro/SSA) podem ser positivos. Prosseguir com investigação baseada nos critérios clínicos (SLICC/ACR) e outros marcadores imunológicos.
Anti-Sm positivo isolado (sem outros autoanticorpos)Ainda altamente específico para LES, mas pode representar formas iniciais ou limitadas da doença. Avaliar critérios clínicos completos e considerar acompanhamento reumatológico regular.
Anti-Sm positivo com anti-RNP positivoSugere overlap syndrome (LES-doença mista do tecido conjuntivo), associado a fenômeno de Raynaud e artrite. Investigar manifestações de esclerodermia (capilaroscopia, anticentrômero) e síndrome de Sjögren.
Anti-Sm positivo em gestante Encaminhar para acompanhamento obstétrico de alto risco e ecocardiograma fetal serial.
Anti-Sm positivo com hipocomplementemia (C3/C4 baixos)Indica atividade de doença, com maior probabilidade de nefrite lúpica proliferativa. Solicitar biópsia renal se proteinúria > 500 mg/dia ou sedimento urinário ativo.

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Anti-Sm (Anticorpo anti-Smith)
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
Anti-Sm positivo com FAN padrão nuclear homogêneoLES clássico, nefrite lúpica, doença neuropsiquiátrica lúpicaAnti-dsDNA, complemento C3/C4, urina tipo I, proteinúria 24hReumatologia / Nefrologia
Anti-Sm positivo com anti-RNP positivoDoença mista do tecido conjuntivo, overlap syndrome LES-esclerodermiaAnticentrômero, anti-Scl70, capilaroscopia, espirometriaReumatologia
Anti-Sm positivo em paciente com citopeniasLES com anemia hemolítica autoimune, trombocitopenia imuneEsfregaço de sangue periférico, Coombs direto, ferritinaReumatologia / Hematologia
Anti-Sm positivo com artrite simétricaLES com artrite não erosiva, poliartrite reumatoide-likeFator reumatoide, anti-CCP, radiografia de mãos e punhosReumatologia
Anti-Sm positivo com rash cutâneoLES com rash malar, lúpus cutâneo subagudo, fotossensibilidadeBiópsia de pele com imunofluorescência, anti-Ro/SSAReumatologia / Dermatologia

Medicamentos e Interferentes

  • Corticoides em altas doses (> 20 mg/dia de prednisona) — supressão da produção de autoanticorpos, podendo causar falso-negativo
  • Imunossupressores (ciclofosfamida, micofenolato) — reduzem os títulos de anti-Sm, resultando em negativação falsa
  • Terapia com rituximabe — depleção de linfócitos B, levando a negativação de autoanticorpos por até 12 meses
  • Gestação — alterações imunológicas podem modular a produção de autoanticorpos, com variação nos títulos
  • Infecções virais (EBV, HIV) — estimulação policlonal de linfócitos B, possivelmente causando reatividade cruzada e falso-positivo

Contextos Clínicos Especiais

Gestante

A positividade do anti-Sm, especialmente com anti-Ro/SSA, aumenta o risco de bloqueio cardíaco congênito e lupus neonatal. Requer acompanhamento obstétrico de alto risco com ecocardiograma fetal a partir da 16ª semana. A atividade do LES pode flutuar durante a gestação, mas o anti-Sm não é bom marcador para essa avaliação.

Criança

No LES juvenil, o anti-Sm tem sensibilidade semelhante à dos adultos (20–30%), mas quando positivo é altamente específico. Associa-se a maior frequência de nefrite lúpica e doença neuropsiquiátrica. A interpretação deve considerar os critérios pediátricos específicos (ACR modificados).

Idoso

O LES de início tardio (>50 anos) apresenta menor frequência de anti-Sm (10–15%) comparado a adultos jovens. Quando positivo, associa-se a serosite e síndrome do anticorpo antifosfolípide secundária. O diagnóstico diferencial com polimialgia reumática e arterite de células gigantes é crucial.

Exames Relacionados

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. American College of Rheumatology. 2019 European League Against Rheumatism/American College of Rheumatology classification criteria for systemic lupus erythematosus. Arthritis Rheumatol. 2019;71(9):1400-1412. 10.1002/art.40930
  2. Sociedade Brasileira de Reumatologia. Diretrizes para o diagnóstico e tratamento do lúpus eritematoso sistêmico. Projeto Diretrizes AMB/CFM. 2019.
  3. Mahler M, Fritzler MJ. The clinical significance of the dense fine speckled immunofluorescence pattern on HEp-2 cells for the diagnosis of systemic autoimmune diseases. Clin Dev Immunol. 2012;2012:494356. 10.1155/2012/494356
  4. Egner W. The use of laboratory tests in the diagnosis of SLE. J Clin Pathol. 2000;53(6):424-432. 10.1136/jcp.53.6.424
  5. Satoh M, Chan EK, Ho LA, et al. Prevalence and sociodemographic correlates of antinuclear antibodies in the United States. Arthritis Rheum. 2012;64(7):2319-2327. 10.1002/art.34380

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