Diferentes tipos de memória
Quando falamos de memória no dia
a dia, relativa à capacidade de estudar conjuntos de informações, fixação de
conteúdo e evocação desse conteúdo em situação futura, na verdade nos referimos
a uma classe em especial. Antes de entrar nessa classe, vamos conceituar as
principais divisões.
A memória de longo prazo pode ser sistematizada em dois grandes grupos: Não declarativa ou implícita e Declarativa ou explícita. O maior representante do primeiro grupo são os procedimentos e habilidades, como andar de bicicleta, tocar violão e boa técnica cirúrgica adquirida ao longo de anos de prática; fortemente associada a um componente hands on ou o famoso “botar a mão na massa”.
O segundo grupo decorre de experiências vivenciadas e codificadas através de elementos de significado. Por exemplo, a palavra árvore do nosso idioma, conceito que geralmente implica ter tronco, galhos e folhas (ao pensar rapidamente), mas o tronco pode ser de diversas madeiras, o tamanho dos galhos muda, as folhas podem estar amarelas ou verdes dependendo da estação (ou até não possuir folha nenhuma se for uma árvore seca), contudo, mesmo sem ouvir detalhes, todos nós temos o conceito de árvore enquanto elemento de significado.
Neste grupo da memória, podemos identificar duas classes: episódica, usando elementos para descrever as experiências que vivemos (como lembranças de uma festa de aniversário na infância), e semântica, compreendendo informações no sentido tradicionalmente ensinado nas escolas e universidades.
Portanto, ao falarmos da memória
sobre os estudos, essa é a memória declarativa do tipo semântica e ocorre em
região específica: o hipocampo. Ele armazena dados adquiridos através dos
nossos diferentes sentidos. Além daquilo que esquecemos após poucos minutos,
quando vamos dormir, durante o sono, nosso hipocampo limpa os circuitos
sinápticos considerados menos importantes, apagando os respectivos dados.
Curva de Ebbinghaus
Graças ao psicólogo alemão
Hermann Ebbinghaus, pioneiro no estudo da memória sob o método científico,
temos a Forgetting Curve (Curva do Esquecimento) que costuma receber seu nome.
Ele descobriu que o processo de esquecimento não é linear, se assemelhando a
uma função exponencial decrescente. A porção final dessa curva é a taxa de
retenção daquela memória.

Alguns dizem que a curva do esquecimento é um grande postulado teórico, mas de pouco efeito na vida real. A fonte de dúvidas decorre dos ensaios originais de Herrmann analisarem apenas uma pessoa, ou seja, n = 1. Como a amostra é pequena, o poder de gerar evidência científica também seria pequeno. É preciso entender que a proposta não é gerar um modelo numérico exato tal qual certas fórmulas, com x sendo o conteúdo estudado, y a quantidade de revisões e z por quanto tempo a dita memória irá perdurar.
Apesar das limitações tecnológicas daquela época, a contribuição na compreensão do cérebro e como ele forma memórias foi muito significativa. Levantando hipótese que viria a ser revisitada por cientistas de diversas áreas ao longo dos anos. Estudos posteriores encontraram resultados consistentemente similares.
A única questão digna de nota, descoberta posteriormente ao postulado original, seria do esquecimento ocorrer numa certa velocidade até 24 horas, aproximadamente, e após 24 horas então ocorrer noutra velocidade mais significativa. Talvez tal marco tenha relação com a interface entre os mecanismos da “memória de médio prazo” e da memória de longo prazo, justificando certa mudança de ritmo, mas continuando com a tendência exponencial.
Ele também descobriu que, para aumentar a taxa de retenção, se deve mudar o coeficiente da curva e uma das melhores maneiras de fazer isso é através de revisões seriadas. Revisitar um circuito sináptico específico em diferentes intervalos de tempo, após alguns minutos, horas, dias e semanas, “reforça a prioridade” daquela memória, diminuindo as chances de ser apagada e aumentando a porção retida.
Por outro lado, não existe resposta exata de quais seriam os intervalos ideais. Até em estudos mais recentes foram encontradas variações individuais, principalmente relacionadas aos hábitos de vida, como horas de sono, qualidade de sono, estado nutricional e níveis basais de estresse. Ainda, mesmo entre indivíduos com determinantes relativamente similares, há variação. A certeza é a revisão seriada maximizar a taxa de retenção, já os intervalos ótimos estão sujeitos à tentativa e erro no processo de autoconhecimento para que cada um descubra sua rotina ideal.
Dicas práticas
Esses conhecimentos podem ser traduzidos para o cotidiano acadêmico do aluno de qualquer curso universitário. A dica principal é não estudar um tema inteiro no mesmo dia, como todo capítulo de cardiologia na terça-feira e todo de nefrologia na quarta-feira, pois ao esgotar o assunto você terá menos motivos para revisitá-lo. Ainda que consiga fazer essas revisões, elas tendem a ser mais superficiais, olhando apenas pontos chave, mas sem passar por todas as etapas de formação do raciocínio.
O erro seria, por exemplo, revisar certa rota metabólica sem pensar no passo a passo, apenas olhando informações sobre a enzima limitante da velocidade total daquela rota. Esse tipo de erro acontece com frequência nas famosas vésperas de prova, onde tais pontos chaves vão sim para a memória de curto prazo, mas tem pouco ou nenhum efeito positivo sobre o real aprendizado, armazenado na memória de longo prazo.
Contornar a cilada de utilizar apenas a memória de curto prazo significa programar metas com antecedência. Ao invés de estudar sobre dois órgãos ficando em cima de livros e vídeos várias horas, “aprendendo tudo” sobre um deles no sábado e tudo sobre o outro no domingo, estude com moderação sobre os dois órgãos todos os dias durante uma semana, construindo o raciocínio em etapas. Sempre pegue um grande assunto e planeje pequenas partes dele para serem estudadas ao longo de vários dias, assim ao estudar cada nova pequena parte já se faz um reforço cerebral da parte anterior.
Abraço e até a próxima,
Autor: Guilherme Socoowski das Neves, Estudante de Medicina.
Instagram: @snow.guilherme
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