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Estudantes e psicoestimulantes: duas faces da mesma moeda | Colunistas

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Introdução

Psicoestimulantes são substâncias que, de modo geral, agem no Sistema Nervoso Central (SNC) por meio do mecanismo de bloqueio dos transportadores de noradrenalina e dopamina, havendo, consequentemente, aumento da liberação e da concentração desses neurotransmissores. Dessa forma, psicoestimulantes são utilizados com o intuito de aumentar o estado de alerta do indivíduo, deixando-o mais motivado e, por conseguinte, possuidor de uma melhor performance acadêmica.

Parece perfeito, certo? Afinal, quem não gostaria de experimentar uma substância mágica da inteligência? Embora, em um primeiro momento, pareça tentador e inofensivo, devemos lembrar que há fatores socioeducacionais, econômicos e psicológicos envoltos no fenômeno do crescimento do uso de substâncias psicoestimulantes por estudantes. Quanto você está disposto a pagar pelas “benesses” prometidas por uma indústria farmacêutica sedenta por lucro? 

Análise do crescimento do uso de psicoestimulantes

Por um lado, um aspecto verdadeiramente positivo desse crescimento é revelado no aumento do número de diagnósticos do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Tendo em vista que alguns psicoestimulantes são utilizados no tratamento desse transtorno, como é o caso da Ritalina, torna-se lógico inferir que, com um maior número de diagnósticos, é provável que haja, também, maior demanda pelo fármaco utilizado no tratamento. Contudo, por trás do referido aumento, há relevante indício do uso indiscriminado – e não prescrito – de psicoestimulantes por pessoas saudáveis. Emerge, agora, a discussão do uso dessas substâncias por acadêmicos.

Por que estamos cada vez mais propensos a recorrermos a medidas milagrosas para aumento da performance? Vários pontos tornam-se esclarecedores dessa análise. A busca incansável pelo êxito em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, a vida “instagramável”, segundo a qual o indivíduo acorda às 5 da manhã e possui um dia inteiramente produtivo. Já no âmbito acadêmico, destaca-se a frenética rotina de provas, o vasto conteúdo e, muitas vezes, a privação de sono e de lazer. Todas essas variáveis contribuem para fundamentar o aumento do uso de estimulantes do SNC e, embora sejam motivos por vezes pertinentes, não evitam as consequências negativas advindas desse fato. Do ponto de vista quantitativo, segundo dados de uma pesquisa do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), o consumo de Ritalina cresceu 775% entre os anos de 2003 e 2012. A imagem abaixo revela uma visão ampla sobre a comercialização do fármaco, por regiões brasileiras, entre os anos de 2010 e 2014.

Alguns dos principais psicoestimulantes e como eles agem

Existem os psicoestimulantes sintéticos, a exemplo das anfetaminas (princípio ativo de medicamentos como o Venvanse e o Adderall) e do metilfenidato (princípio ativo da Ritalina), e existem os orgânicos, como a cafeína e a taurina. É importante ressaltar que muitos estudantes fazem uso diário de altas doses de cafeína, mas não sabem que essa substância corresponde a um psicoestimulante, fato que revela desconhecimento em relação ao tema.

Existe uma lenda segundo a qual um cientista suíço manejava compostos parecidos com as anfetaminas quando decidiu sintetizar uma substância capaz de manter sua própria esposa mais animada, focada e, até mesmo, mais magra. A esposa chamava-se Margarida, mas atendia pelo carinhoso apelido de Rita. Nasceu, daí, a Ritalina. O famoso medicamento, também chamado de “pílula da matemática”, é capaz de inibir a recaptação de dopamina e noradrenalina e, assim, aumentar a capacidade de concentração. Em virtude disso, é amplamente utilizado no tratamento do TDAH.

A cafeína, por sua vez, é um dos psicoestimulantes mais frequente e cotidianamente utilizado por universitários, agindo por meio do bloqueio dos receptores de adenosina no encéfalo e na medula espinhal, de forma a aumentar a atividade do SNC. Existem, também, compostos psicoestimulantes como a taurina, encontrada em bebidas energéticas, e a guaranina, um alcaloide quase idêntico à cafeína.

Efeitos negativos do uso dessas substâncias

Em primeiro lugar, é válido ressaltar que estudos indicam a não eficiência do uso de medicamentos como a Ritalina em pessoas não portadoras de TDAH, isto é, pressupõem que não há significativa melhora cognitiva em pessoas saudáveis. Nesse sentido, para além de um mero efeito placebo, o indivíduo saudável que faz uso do metilfenidato pode estar sendo exposto apenas aos efeitos negativos da droga, que vão desde a ocorrência de episódios de cefaleia, dores abdominais e irritabilidade até o surgimento de problemas cardiovasculares e de surtos psicóticos. Sem o atendimento próximo e continuado de um médico especialista, medicamentos psicoestimulantes podem prejudicar o desempenho acadêmico de seus usuários, efeito oposto àquele previamente imaginado.

Além disso, frequentemente, estudantes já acometidos por problemas como ansiedade e depressão recorrem ao uso de psicoestimulantes sem saber que tais substâncias podem resultar no agravamento dessas condições psicológicas preexistentes. É comum, por exemplo, que após um momento de euforia proporcionado pela Ritalina haja um posterior estado de desânimo e exaustão profundos, fato perigoso e prejudicial em alguém já depressivo. Até mesmo a cafeína, aparentemente inofensiva, pode resultar em quadros de dependência e em sentimentos de angústia e nervosismo quando em altas doses. Nada mais contraproducente para quem desejou passar a noite estudando, não é mesmo?

Conclusão

Infelizmente, ou felizmente, psicoestimulantes não aumentam nosso QI, não nos deixam mais inteligentes ou turbinam nosso cérebro como queríamos que acontecesse, alguns deles apenas nos deixam mais acordados para a realização de tarefas não prazerosas por mais tempo. Para além de todas essas considerações, o uso dessas medicações em pessoas saudáveis banaliza o tratamento de todos aqueles pacientes realmente prejudicados pelo TDAH. 

A busca por uma performance acadêmica e pessoal inatingível começa a despontar como problema de saúde pública a partir do momento em que a forma como lidamos com essa questão interfere diretamente na nossa integridade física e mental.  Visando a minimizar esse problema, as Universidades devem propor projetos de prevenção de comportamentos de risco. Em face disso, discussões introdutórias sobre o mecanismo de ação dos psicoestimulantes e sobre as consequências adversas do uso inadequado dessas substâncias produzirão maior conhecimento e, consequentemente, maior ponderação, por parte do corpo discente, frente ao uso dessas drogas.

Por fim, devemos sempre lembrar da inexistência de soluções fáceis para problemas difíceis e de que todos possuímos limites fisiológicos e comportamentais, logo, não há motivos para vergonha diante desse fato. Ainda não somos capazes de produzir algo semelhante a um “elixir da inteligência” sem efeitos extremamente negativos. Autorresponsabilidade e conhecimento são, sempre, o melhor caminho.

E você? O que pensa sobre psicoestimulantes? Trapaça? Ilusão? Propaganda enganosa ou investimento? Quanto você está disposto a pagar pela face negativa dessa moeda?

Autora: Vitória Yohana Passos Oliveira

Instagram: vitoria.yoh

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O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências

MENEZES, A. DE S. S.; NOMERG, K. O.; LENZI, R. V. O USO DE PSICOESTIMULANTES POR ACADÊMICOS DE UMA INSTITUIÇÃO DE ENSINO SUPERIOR DO ESTADO DE RONDÔNIA. Repositório Facimed, p. 1–13, 2017.

MORGAN, H. L. et al. Consumo de Estimulantes Cerebrais por Estudantes de Medicina de uma Universidade do Extremo Sul do Brasil: Prevalência, Motivação e Efeitos Percebidos. Revista Brasileira de Educação Médica, v. 41, n. 1, p. 102–109, jan. 2017.

PAIVA, G. P.; GALHEIRA, A. F.; BORGES, M. T. Psicoestimulantes na vida acadêmica: efeitos adversos do uso indiscriminado. ARCHIVES OF HEALTH INVESTIGATION, v. 8, n. 11, 4 jun. 2020.

Consumo de Ritalina no Brasil cresce 775% em dez anos. Disponível em: . Acesso em: 19 jul. 2021.

GALATO, D.; MADALENA, J.; PEREIRA, G. B. Automedicação em estudantes universitários: a influência da área de formação. Ciência & Saúde Coletiva, v. 17, n. 12, p. 3323–3330, dez. 2012.

ANDRADE, L. DA S. et al. Ritalina uma droga que ameaça a inteligência. Revista de Medicina e Saúde de Brasília, v. 7, n. 1, p. 99–112, 2018.

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