Você é estudante de medicina e durante o período letivo se sente estressado ou sobrecarregado de responsabilidades? Entenda o que pode estar acontecendo.
Introdução
Ingressar na faculdade de medicina é o sonho de muitos estudantes brasileiros, mas o caminho até o alvo nem sempre é fácil. O curso é o mais disputado do país e, desde 2018, foi proibida a criação de novas universidades e a ampliação de vagas de medicina por 5 anos. Desse modo, o caminho para aprovação é extremamente competitivo e conta com muitas renúncias e privações em prol de um resultado positivo e o que muitos notam é que, com a vaga garantida, o nível de comprometimento só aumenta. O estado de felicidade e realização no começo se choca com desafios inerentes à formação médica que podem ser fontes de estresse e angústia e comprometem o bem estar do aluno.
Com disciplinas mais complexas e extensas, longas horas de aula, estudo pessoal e a participação de atividades extracurriculares, incluir atividades sociais e cuidar da saúde parece muito. Assim, com o aumento de carga de responsabilidades, sintomas como: cansaço excessivo; cefaleia ou enxaqueca; alterações no sono e ansiedade são frequentes desde o início até o final da graduação em universitários de medicina.
Por que é tão recorrente?
Primeiro, é importante saber o que é estresse e como ele impacta o organismo. O stress, segundo o médico Hans Selye, é uma resposta inespecífica do corpo a qualquer demanda, independentemente de sua natureza. Para a fisiologia, o estresse é fundamental para manter a estabilidade corporal interna durante uma situação de risco. Entretanto, quando o corpo precisa constantemente estar em alerta, temos uma resposta negativa chamada “fase de exaustão”.
Relacionar as palavras estresse e medicina é comum, mas será que isso deveria ser normal? A frequente percepção de que a carreira médica exige muito pode causar a impressão de que as duas palavras são indissociáveis. Contudo, o real motivo para essa correlação é que, durante a graduação, o indivíduo tem contato com mais de um agente estressor, isto é, mais de um estímulo que, de maneira simultânea, provoca o estresse.
Os agentes estressores podem ser divididos em três:
- Acontecimentos vitais: são caracterizados por envolver fases marcantes da vida como ser aprovado no vestibular ou a mudança no estilo de vida para a vida universitária.
- Acontecimentos diários menores: são marcados por episódios do cotidiano que geram aborrecimentos, pressão ou perturbação, por exemplo, a competitividade entre colegas de turma, semanas de provas e muito conteúdo em um curto intervalo de tempo.
- Situações de tensão crônica: são qualificados por eventos que geram estresse contínuo e permanecem por muito tempo, podemos citar experiências traumáticas como problemas financeiros, problemas familiares e até mesmo não saber lidar com a morte ou doença de inúmeros pacientes.
O que contam as pesquisas
As universidades brasileiras com frequência fazem pesquisas sobre a saúde mental dos seus estudantes. Em 2014, a UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) iniciou um estudo com 327 alunos que foram acompanhados durante dois anos e analisados por questionários e entrevistas. Desse grupo, foi constatado que 50% dos estudantes sofrem de algum adoecimento mental e que, se a faculdade de medicina não é a causa, favorece a manifestação de estresse e ansiedade. E enfatiza que os estudantes de medicina têm receio de assumir suas dificuldades emocionais por ser a pessoa que precisará, no futuro, cuidar do outro.
Outro estudo, dessa vez da Universidade Federal do Paraná, concluiu que níveis de estresse moderado e grave foram encontrados na maioria dos estudantes analisados do ciclo básico ao ciclo clínico, com aumento significativo do primeiro para o segundo semestre no percentual de alunos afetados, sugerindo que a vida acadêmica é uma fonte geradora de estresse.
Ambas pesquisas reforçam que a maioria dos alunos não buscam ajuda e que isso precisa mudar.
Cuide de si
Será que o estresse e ter o bem estar e a saúde mental afetada podem ser tolerados? De modo algum! Os obstáculos da vida acadêmica e a responsabilidade que um futuro diploma médico traz deve servir para nos conscientizar sobre a importância de sermos vulneráveis, ou seja, permitir mostrar nossas fraquezas para que elas possam ser tratadas.
Buscar ajuda médica e psicológica só mostra força para vencer os desafios e evidencia o comprometimento que você tem com a saúde. Ter uma rede de apoio também é de extrema importância. Cultivar bons relacionamentos e ter abertura para falar e ser ouvido são atitudes que tornam mais leve a sobrecarga de responsabilidades cotidianas. Tratar a medicina como sacerdócio é perigoso, é importante não deixar de lado outras atividades que considera prazerosa e nem abandonar seu ciclo social.
Cuidar de si, como médico, estudante ou indivíduo é cuidar também do seu paciente, pois quando afetada suas funções fisiológicas, psicológicas e cognitivas, é prejudicada sua qualidade de vida e influi no aprendizado e no cuidado ao paciente. Portanto, a falta de cuidado do seu bem-estar, além de uma questão de saúde individual, constitui um problema de saúde pública, uma vez que, ao prejudicar sua instrução como futuro médico, acarretará malefícios que recairão também sobre outros.
Larissa Amaral – Estudante de Medicina
Instagram: @lari_amar
Referências
UFJF – https://www2.ufjf.br/noticias/2019/04/25/metade-dos-alunos-de-medicina-apresenta-adoecimento-mental/
Revista Brasileira de Educação Médica artigo UFPR – https://www.scielo.br/pdf/rbem/v40n4/1981-5271-rbem-40-4-0678.pdf
Revista Brasileira de Educação Médica artigo Canadá – https://www.scielo.br/pdf/rbem/v39n4/1981-5271-rbem-39-4-0558.pdf