A esquizofrenia é um transtorno mental crônico e grave, caracterizado por distorções da realidade, alterações de pensamento, comportamento e emoções. Com prevalência global em torno de 1%, a esquizofrenia é uma das doenças psiquiátricas mais incapacitantes, afetando principalmente jovens adultos no início da vida produtiva. O tratamento é multidisciplinar e envolve o uso de antipsicóticos e suporte psicossocial contínuo. Apesar dos avanços terapêuticos, a esquizofrenia continua sendo um desafio clínico devido à sua complexidade sintomática, impacto funcional e risco aumentado de suicídio.
O que é esquizofrenia?
A esquizofrenia é uma doença psiquiátrica crônica, que compromete profundamente a percepção da realidade e o funcionamento social e ocupacional do indivíduo. Assim, é classificada como um transtorno do espectro psicótico e se manifesta por meio de sintomas como delírios, alucinações, alterações cognitivas e embotamento afetivo.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 23 milhões de pessoas vivem com esquizofrenia em todo o mundo. A doença apresenta uma distribuição universal, embora estudos indiquem que sua prevalência é discretamente maior em homens, nos quais o início costuma ocorrer mais precocemente — entre 15 e 25 anos. Já nas mulheres, os primeiros sintomas costumam surgir entre os 25 e 35 anos de idade.
Portanto, a esquizofrenia tem início insidioso e curso progressivo, alternando entre episódios de agudização e remissão parcial. Além disso, ao longo do tempo, os pacientes podem apresentar deterioração das funções cognitivas e sociais, o que compromete sua autonomia e qualidade de vida.
Causas e fisiopatologia da esquizofrenia
A etiologia da esquizofrenia ainda não é completamente compreendida. Dessa forma, a explicação mais aceita é o modelo da vulnerabilidade-estresse, que pressupõe a interação entre predisposição genética e fatores ambientais estressores. Assim, essa combinação leva a alterações neurobiológicas responsáveis pelo surgimento dos sintomas psicóticos.
Entre os principais fatores envolvidos no desenvolvimento da esquizofrenia, destacam-se:
- Predisposição genética: presença de histórico familiar aumenta o risco.
- Eventos estressores precoces: traumas na infância, negligência ou abuso.
- Infecções virais e inflamações durante a gestação.
- Uso de substâncias psicoativas: especialmente cannabis, cocaína e anfetaminas.
Dessa forma, no nível neuroquímico, a esquizofrenia está fortemente associada à hiperatividade dopaminérgica nas vias mesolímbica e mesocortical. Essa disfunção ajuda a explicar os sintomas positivos da doença. Assim, além da dopamina, alterações em outros sistemas neurotransmissores, como o glutamato e a serotonina, também contribuem para a fisiopatologia do transtorno.
Além disso, estudos de neuroimagem apontam ainda alterações estruturais, como aumento dos ventrículos cerebrais e redução do volume do hipocampo e do córtex pré-frontal.
Sintomas da esquizofrenia
A esquizofrenia apresenta manifestações clínicas diversas, que podem variar em intensidade e tipo de acordo com o estágio da doença, a fase do episódio e o perfil individual do paciente. Os sintomas são agrupados em três categorias principais:
Sintomas positivos
São manifestações que representam um acréscimo anormal à experiência do indivíduo. Incluem:
- Alucinações auditivas (mais comuns), visuais ou táteis
- Delírios, geralmente persecutórios, de grandeza ou religiosos
- Pensamento desorganizado, com fala incoerente ou uso de neologismos
- Comportamento motor anormal, incluindo agitação ou catatonia
Sintomas negativos
Estão relacionados à diminuição ou perda de funções normais. Os principais incluem:
- Embotamento afetivo (redução da expressividade emocional)
- Alogia (pobreza de discurso)
- Anedonia (incapacidade de sentir prazer)
- Avolição (falta de motivação para realizar atividades)
- Isolamento social
Alterações cognitivas
Embora não sejam critérios diagnósticos formais, as disfunções cognitivas são frequentes:
- Déficit de atenção e concentração
- Dificuldade de planejamento e memória operacional
- Deterioração progressiva da função executiva
A evolução natural da esquizofrenia tende a agravar os sintomas negativos ao longo dos anos, enquanto os sintomas positivos podem reduzir de intensidade com o tratamento adequado.
Diagnóstico da esquizofrenia
O diagnóstico da esquizofrenia é eminentemente clínico, baseado na observação de sintomas psicóticos por um período mínimo de seis meses bem como pelo menos um mês de sintomas ativos. Assim, o médico deve seguir critérios padronizados, como os definidos no DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais).
É fundamental realizar o diagnóstico diferencial com outras condições que podem simular quadros psicóticos, como:
- Transtorno esquizotípico da personalidade
- Transtorno bipolar com sintomas psicóticos
- Delírio induzido por substâncias
- Tumores, epilepsias e encefalopatias
Exames laboratoriais e de neuroimagem podem ser úteis para excluir causas orgânicas, mas não são diagnósticos para esquizofrenia.
Atualmente, a subdivisão clássica da esquizofrenia em tipos (paranoide, desorganizado, catatônico, indiferenciado e residual) perdeu valor clínico, sendo substituída por uma abordagem baseada nas dimensões sintomáticas.
Tratamento da esquizofrenia
O tratamento da esquizofrenia exige abordagem multidisciplinar, com foco na remissão dos sintomas, prevenção de recaídas e reintegração psicossocial do paciente. As estratégias terapêuticas incluem:
Antipsicóticos
São a base do tratamento farmacológico. Podem ser divididos em:
Antipsicóticos típicos (1ª geração):
- Clorpromazina (300–800 mg/dia)
- Haloperidol (5–15 mg/dia)
- Levomepromazina (100–300 mg/dia)
Atuam principalmente como antagonistas D2, sendo eficazes para sintomas positivos, mas com maior risco de efeitos extrapiramidais.
Antipsicóticos atípicos (2ª geração):
- Risperidona (2–8 mg/dia)
- Olanzapina (5–20 mg/dia)
- Quetiapina (300–400 mg/dia)
- Clozapina (200–500 mg/dia)
Possuem perfil de efeitos colaterais mais favorável, especialmente quanto aos sintomas negativos e à tolerabilidade. A clozapina é indicada em casos refratários, com necessidade de monitoramento hematológico rigoroso.
Psicoterapia e suporte psicossocial
A intervenção psicossocial visa melhorar a adesão ao tratamento, reduzir internações e promover autonomia. As principais estratégias incluem:
- Terapia cognitivo-comportamental
- Psicoeducação para paciente e família
- Reabilitação psicossocial
- Terapia ocupacional
- Grupos de apoio e centros de convivência
Programas de cuidado comunitário com abordagem centrada na pessoa têm se mostrado eficazes na redução da estigmatização e na melhora da qualidade de vida.
Prognóstico e qualidade de vida
O prognóstico da esquizofrenia é variável. Dessa forma, cerca de um terço dos pacientes apresenta boa resposta ao tratamento, com possibilidade de vida funcional independente. Além disso, o outro terço terá recaídas intermitentes e sintomas residuais. O restante evolui com deterioração progressiva e dependência de suporte contínuo.
Fatores de bom prognóstico incluem início tardio, boa resposta ao primeiro tratamento, ausência de histórico familiar e suporte social sólido.
A adesão ao tratamento é o principal determinante do desfecho clínico. A falta de compreensão sobre a doença e os efeitos adversos das medicações são causas frequentes de abandono terapêutico.
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A esquizofrenia é uma condição complexa e multifatorial, que exige abordagem integrada, sensível e baseada em evidências. Portanto, o tratamento deve ir além do controle sintomático, promovendo inclusão social, dignidade e suporte contínuo ao paciente.
Para profissionais da saúde, o conhecimento atualizado sobre esquizofrenia é fundamental para garantir um cuidado ético, humano bem como tecnicamente competente.
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Referências bibliográficas
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