Espru tropical, também conhecido como enteropatia ambiental tropical, é uma doença rara e de causa desconhecida. No geral, o espru tropical acomete indivíduos que moram em ou viajam para regiões tropicais.
Desde o século XIX, sintomas de espru tropical foram notados em soldados britânicos que se instalaram na Índia. Contudo, apenas em 1967 foram reconhecidas endemias e epidemias em algumas ilhas do Caribe.
Apesar da etiologia ser desconhecida, há indícios de que seja causada por microrganismos, particularmente cepas enterotoxigênicas de E. coli, visto que os pacientes melhoram após tratamento com antibióticos de amplo espectro.
O que é espru tropical e quais os principais sintomas?
A enteropatia ambiental consiste em um distúrbio de má absorção adquirido, com provável etiologia infecciosa. No geral, podem ser assintomática e sintomática. Quando sintomático, essa patologia apresenta:
- Sintomas gastrointestinais
- Perda de peso
- Má absorção
Alguns estudos mostram que a patologia se inicia com uma diarreia comum e em seguida evolui para a diarreia característica do espru. A diarréia característica apresenta aspecto espumoso, esbranquiçado e volumoso, sendo característico de fezes gordurosas.
Os pacientes também podem apresentar ulcerações aftosas e congestão na língua e boca. O indivíduo pode apresentar também anemia megaloblástica de natureza progressiva.
Além disso, sintomas característicos de síndrome disabsortiva são comuns:
- Fraqueza
- Debilidade
- Diarréia
Fisiopatologia do espru tropical
A principal característica fisiopatológica desta patologia é o supercrescimento bacteriano não específico no duodeno. Acredita-se que a estase, causada pela má absorção de gordura, desregule a motilidade do estômago e do duodeno.
Fisiologicamente a motilidade dessa parte do trato digestório é comandada por hormônios intestinais como peptídeo YY (PYY), neurotensina e o peptídeo glucagon que causaria essa estase. Contudo, foi possível relacionar o tempo de trânsito orocecal prolongado com o grau de esteatorreia.
Alguns estudos mostram que a mucosa ileal dos pacientes acometidos com essa patologia pode ser mais sensível a ácidos graxos, tendo uma resposta exagerada ileal à gordura.
Como é feito o diagnóstico de espru tropical?
O diagnóstico do espru tropical é feito por exclusão, principalmente como diagnóstico diferencial para doença celíaca.
O critério bioquímico irá mostrar a má absorção de duas substâncias não relacionadas e a falta de outras causas para essa má absorção. Devido a isso, a absorção intestinal de gordura, Xilose e Vitamina B12 são diminuídas.
Microscopia da doença
As lesões intestinais consistem em:
- Encurtamento e alargamento das vilosidades
- Hiperplasia das criptas
- Infiltrado inflamatório na lâmina própria, com linfócitos, plasmócitos e eosinófilos
Qual o principal diagnóstico diferencial do espru tropical?
A doença celíaca é o principal diagnóstico diferencial do espru tropical. As principais diferenças incluem:
- O espru tropical responde ao tratamento com ácido fólico, mas persiste após retirada do glúten;
- A doença celíaca responde à retirada do glúten, mas não ao tratamento com ácido fólico;
- Na doença celíaca, a enterite predomina no intestino delgado proximal;
- No espru, as lesões ocorrem ao longo de todo o intestino delgado.
Tratamento
O tratamento para espru tropical inicia-se com a reposição de fluidos e eletrólitos, seguido reposição de B12 parenteral, folato oral e suplementação de ferro.
Nesse contexto, o folato pode melhorar a anemia macrocítica e a estrutura das vilosidades. Com isso, em conjunto com a restrição de ácidos graxos de cadeia longa na alimentação, há uma redução da diarreia. É também recomendado tetraciclina 250 mg por via oral, a duração depende da gravidade da doença e da resposta ao tratamento.
Referências bibliográficas
- BRASILEIRO FILHO, G. Bogliolo. Patologia Geral. 9 a edição. Editora Guanabara. Koogan S.A., Rio de Janeiro, RJ, 2016.
- FAGUNDES NETO, U. Enteropatia ambiental. Rio de Janeiro, Revinter, 1996, 203 p.
- KUMAR, V.; ABBAS, A. K.; ASTER, J.C. Patologia básica Robbins. Enteropatia Ambiental (Tropical). 9ª edição.