Espiritualidade em saúde | Colunistas

  • outubro 31, 2020
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Espiritualidade em saúde | Colunistas

O QUE É ESPIRITUALIDADE

De
conceituação incerta, o termo “espiritualidade” diverge entre sua significação
científica e popular. No senso comum, a associação com o aspecto religioso é
rotineira devido à sua recente exploração científica aliada à tímida difusão
popular e, sobretudo, em virtude do seu prefixo, que torna mais frequente essa
associação com a religião espírita e outras vertentes espiritualistas.

Não
obstante, para que se aplique à ciência médica, é mister que ascenda seu
conceito enquanto característica inata do ser humano em detrimento de sua
caracterização meramente religiosa.

“Espiritualidade”
deriva de “espírito”, do latim, spiritus/spirare – respiração, respirar,
sopro, coragem, vigor – o que dista do caráter religioso e se aproxima de
qualidade humana intrínseca, como considera a ciência.

Dentre as
definições acadêmicas, Christina Puchalski (2014) cita:

“a espiritualidade é um aspecto dinâmico e intrínseco da experiência humana, por meio do qual se busca e expressa o significado, propósito e transcendência da existência. Tal estado perpassa a vivência da pessoa em suas relações consigo mesma, com a família, com os outros, a comunidade, a natureza e com aquilo que é significativo e sagrado”.

Anandarajah
(2001) define como:

“porção complexa e multidimensional da experiência humana, que envolve aspectos comportamentais, vivenciais e cognitivos ou filosóficos. É a dimensão em que obtemos significado, conexão, conforto e paz. Pode ser buscada não apenas na religião, mas também na música, arte, natureza ou mesmo em valores pessoais ou científicos”.

Em síntese,
espiritualidade consiste na individualidade expressa por cada ser humano por
meio do que lhe traz bem-estar e significado à vivência. A religiosidade, ou religião,
pode ser englobada por esse processo; no entanto, se restringe àquilo em que se
crê, ao passo que a espiritualidade abrange tudo aquilo que se é
individualmente.

ASPECTOS CIENTÍFICOS E ACADÊMICOS

É crescente
a presença da temática no meio científico e acadêmico.

Em outubro
de 2020, a busca pelo termo “spirituality” na base de dados PubMed levou
a 21.331 resultados, dos quais 57,3% (12.224) foram publicados nos últimos 10
anos.

No âmbito
acadêmico, grandes instituições médicas e estudantis possuem núcleos dedicados
ao estudo da espiritualidade na saúde. Como exemplos:

  • GEMCA-SBC: Grupo de Estudo em Espiritualidade e Medicina
    Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia;
  • GT em Saúde e Espiritualidade – SBMFC: Grupo de Trabalho em Saúde e
    Espiritualidade da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade;
  • NUPES-UFJF: Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde da
    Universidade Federal de Juiz de Fora;
  • Seção de Espiritualidade, Religiosidade e Psiquiatria – WPA (World
    Psychiatric Association);
  • AALEGREES – Associação Acadêmica de Ligas e Grupos de Estudo em Espiritualidade
    e Saúde.

A
Associação supracitada (AALEGREES) reúne iniciativas estudantis que exploram a
espiritualidade no tripé acadêmico (ensino, pesquisa e extensão) e acompanham
seu crescimento no território nacional, possuindo cerca de 60 ligas e grupos
filiados.

APLICAÇÕES NA SAÚDE

Uma vez que
se trata de um aspecto intrínseco ao ser humano, é indispensável que a medicina
aborde a espiritualidade no cuidado à saúde, fomentando condutas integrais e
holísticas.

Ademais, argumentos
científicos justificam a aplicação da espiritualidade na saúde, como evidenciam
Lucchetti et al (2010), em revisão bibliográfica:

“Estudos demonstram que a maioria dos pacientes gostaria que seus médicos abordassem sobre sua religião e espiritualidade, e relataram que sentiriam mais empatia e confiança no médico que questionasse esses temas, proporcionando o resgate da relação médico-paciente, com uma visão holística e mais humanizada”.

Entre as
formas de aplicar a espiritualidade na consulta clínica, as mais comuns são os
métodos FICA e HOPE, espécies de entrevistas clínicas (anamneses espirituais)
explicitadas na imagem a seguir:

Fonte: LUCCHETTI et al (2010).

IMPACTOS

São
inúmeros os artigos científicos que evidenciam os resultados da espiritualidade
aplicada à saúde, sobretudo no contexto paliativo, oncológico, psiquiátrico e
cardiovascular.

A
Atualização da Diretriz de Prevenção Cardiovascular da Sociedade Brasileira de
Cardiologia – 2019, como exemplo, cita as seguintes influências da
espiritualidade na saúde:

  • Enfrentamento (coping);
  • Adesão ao tratamento;
  • Prevenção cardiovascular primária e secundária;
  • Redução de mortalidade por causas cardíacas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Embora não
seja comum na prática clínica, a espiritualidade é um recurso indispensável em
saúde, reconhecido e recomendado por diversas entidades médicas. Sua percepção
científica desvinculada das ideias vulgares é indispensável para a eficácia de
sua implementação por profissionais de saúde.

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