Muito se aprende sobre doenças, tratamentos e cuidados com as pessoas durante o curso de Medicina, mas, geralmente, o médico em início de carreira não tem o preparo necessário para o bom manejo de suas finanças pessoais.
Por isso, apesar de o salário de um médico no Brasil ser acima da média comparado a de vários outros profissionais, muitos colegas sofrem com dívidas, pagamentos de juros, falta de recursos para investir no que importa e necessidade de uma carga de trabalho mensal insalubre conseguir pagar suas contas.
Se você se identificou com essa situação ou quer agir antecipadamente para cuidar bem do seu dinheiro, veja 5 dicas práticas para conquistar a saúde financeira.
Saiba quanto você ganha e quanto gasta: Organize-se!
Visualizar de maneira sistemática sua renda e seus gastos é o primeiro passo concreto para cuidar do seu dinheiro. E isso não precisa ser difícil. Há ferramentas prontas que te ajudam a fazer essa organização!
Para começar, você pode baixar gratuitamente um modelo de planilha no https://queroficarrico.com/blog/planilhas/, do Rafael Seabra. Ou ainda, caso opte por uma versão mais tecnológica para seu controle de despesas e receitas, você pode escolher um aplicativo.
Eu uso o GuiaBolso há algum tempo e vejo boas vantagens como a sincronização com as contas bancárias de maneira segura, organizando num só lugar receitas e despesas realizadas em cada conta.
É gratuito e posso acessá-lo tanto do celular quanto no notebook. Mas pode ser que você não se adapte às suas múltiplas funcionalidades e prefira algo mais simples. Experimente! É importante verificar a opção com a qual você mais tem afinidade porque, quanto mais fácil for seu uso, mais tranquila será a consolidação do hábito de organizar as finanças pessoais.
Viva bem, consuma o que gosta e invista todos os meses!
Uma vez que você consegue visualizar com clareza suas receitas e despesas, é hora de aplicar uma das regras mais importantes da educação financeira, porém não necessariamente intuitiva para todos. Alguns pensam que controle financeiro significa que se deve ter somente os gastos essenciais e que se deve investir tudo o que sobra, guardando para o futuro.
Essa crença é equivocada porque ignora nosso ambiente (que estimula consumir) e nossa natureza, cheia de desejos e necessidade de indulgência: “Eu trabalho tanto! Por isso mereço um XXX…”
Vamos supor que você já tenha tudo o que quer e viva num local onde não consegue consumir quase nada – sem restaurantes, lojas, acesso à internet e serviços de entrega. Embora essa seja uma situação rara, não é impossível e, caso você esteja nessa condição, dividir seu orçamento em gastos essenciais e investimentos pode funcionar por um bom tempo.
Mas, se não for esse seu caso, considere que você tem demandas e vontades de consumo. Se essas não forem satisfeitas com regularidade, pode ser que você se descontrole e gaste mais do que pode com bares, roupas ou viagens num curto espaço de tempo, criando dívidas a serem pagas por longos meses. Percebe que aqui o paradoxo é “regularidade X exagero”?
Então, como encontrar o equilíbrio? Como garantir as despesas básicas, a satisfação dos desejos de consumo e ainda um valor para investir no final do mês, todos os meses?
Uma boa resposta é a aplicação do “método 50-30-20”. Ele foi proposto pela senadora norte-americana Elizabeth Warren, em seu livro All Your Worth: The Ultimate Lifetime Money Plan, e divulgado numa grande quantidade de websites sobre finanças, inclusive brasileiros.
Elizabeth Warren propõe que você gaste com moradia, transporte, alimentação, educação e saúde (as chamadas despesas essenciais) somente 50% da sua renda líquida (descontado todos os impostos e taxas). E que antes de separar um valor para investimento, você deve garantir que vai “gastar” com você mesmo, com seus desejos e bem-estar, outros 30% da sua renda. E, por fim, Warren recomenda que todos os meses você invista 20% da renda líquida.
Suponhamos que você tenha renda líquida de R$10 mil. Então, todos os meses há de se gastar R$3 mil em roupas, presentes, restaurantes, livros diversos, viagens etc. E se não o fizer, estará em débito consigo mesmo.
Acha estranho gastar mais consigo em “supérfluos” do que investir para o futuro?
Bem, a lógica por traz dessa recomendação é importante. Warren considera que caso você não satisfaça suas necessidades individuais, não terá disciplina para todos os meses guardar uma parte da sua renda, investindo a longo prazo. E se você hoje tem uma distribuição de despesas essenciais que ultrapassa os 50% da sua receita líquida, como aluguel caro, financiamento estudantil, parcelamento de carro?
Bom, aqui vale a pena verificar qual o percentual atual das despesas essenciais e trabalhar para diminuí-las. É comum começar com uma distribuição 70 – 20 – 10 ou 60 – 20 – 20, ou qualquer variação que esteja no sentido de diminuir despesas essenciais, tendo, assim, mais liberdade para investir em bem-estar e lazer. E ainda ter a disciplina necessária para guardar dinheiro todos os meses.
Como investir com dívidas?
Alguns especialistas advogam que, antes de investir no longo prazo, você deve quitar suas dívidas. Mas quais dívidas a gente deve pagar antes de começar a guardar dinheiro?
Financiamentos estudantis em geral tem juros mensal baixos. Além disso, no início da nossa carreira, correspondem a montantes expressivos. Por isso, vale a pena tratar o financiamento estudantil como uma dívida que tem significado de investimento.
Considere que o médico investe esse valor em sua formação e agora tem um patrimônio importante: sua profissão. Sendo assim, sugiro colocar o valor da sua prestação do financiamento estudantil na categoria “despesas essenciais”, e não deixar de investir mensalmente se essa for sua única dívida.
Por outro lado, juros de conta corrente, cartão de crédito e contas atrasadas são altos, sendo verdadeiros sabotadores das finanças pessoais. Esses devem ter prioridade na fila de pagamentos. Assim, todo o percentual mensal destinado a investimentos deve ser direcionado para sanar essas dívidas.
Talvez você opte por diminuir momentaneamente o percentual destinado aos seus desejos pessoais para liquidar esse padrão de dívida mais rápido. Mas lembre-se: todos os meses é importante separar um valor para gastar naquilo que você deseja, com a finalidade de manter o equilíbrio e a constância.
Grandes sacrifícios orçamentários minam sua disciplina no longo prazo.
Se não há mais dívidas a serem pagas e se você pode começar realmente a investir, o primeiro passo é criar sua reserva de emergência. Trata-se de um montante que corresponda a 80% do seu salário atual multiplicado por 6. Ou seja, você vai guardar o valor relativo às suas despesas básicas + desejos pessoais, até completar 1 semestre de reservas para emergências. Esse valor deve estar alocado num investimento seguro e com liquidez, como uma renda fixa.
A lógica da reserva de emergência.
Não controlamos o ambiente externo. A pandemia atual nos mostra com clareza que imprevistos ocorrem. Você pode ficar impossibilitado de trabalhar por algum período, pode ficar sem receber de seu empregador, ou ainda pode ficar sem emprego. Por isso, se você é profissional liberal ou da iniciativa privada, essa estratégia é ainda mais necessária.
Próximos passos: renda passiva!
Após completar sua reserva de emergência, está na hora de começar a direcionar sua parcela de investimento em ativos que te ajudem a criar renda passiva. Esse é um capítulo à parte, mas a lógica que o fundamenta deve estar bem clara para você: juros compostos, com o passar do tempo, geram renda passiva e permitem mais liberdade para o investidor.
Contudo, tenha em mente que o mercado financeiro maltrata amadores e recompensa profissionais. Por isso, se você já chegou nessa fase, considere contar com o apoio de consultorias financeiras especializadas.
Autora: Adriana MC Bhona é administradora especialista em Comércio Exterior e Economia Internacional. Aos 40 anos está se formando em Medicina. Investe seu tempo no internato, em estudos para a prova de residência e em cuidados com sua família.
Autora: Adriana Bhona, estudante de medicina