Antes de conceituar a esofagite eosinofílica (EEo) é necessário adentrar no conceito de doenças eosinofílicas primárias, que são consideradas afecções em que a presença de sintomas gastrointestinais ocorre de modo associado ao aumento do número de eosinófilos na mucosa, na ausência de outras causas reconhecidas de eosinofilia tecidual, como por exemplo, drogas alérgicas, câncer e infestações parasitárias.
Esofagite Eosinofílica (EEo): Revisão
Os eosinófilos, sob o ponto de vista histológico, possuem o núcleo caracteristicamente bilobulado, isso porque possuem em seu citoplasma grânulos grandes, corados por eosina. Quando observados em microscópio eletrônico ocorre a identificação de um corpo cristalino ou cristaloide no centro dos grânulos.
Esses grânulos são os lisossomos dos eosinófilos que possuem enzimas hidrolíticas (peroxidase, histaminase, arilsulfatase) e outras proteínas. Devido as suas características e a ação do conteúdo de seus grânulos, os mastócitos possuem algumas funções, como por exemplo, atividade antiviral, além disso, promovem o aparecimento de poros nas células-alvo, induzem a degranulação dos mastócitos e basófilos, modulam negativamente a ação linfocitária, diminuem os efeitos prejudiciais dos agentes vasoativos pela ação da histaminase e arilsulfatase e promovem a formação de espécies reativas de oxigênio, bem como realizam fagocitose de complexos antígeno-anticorpo.
Já para a imunologia, os eosinófilos são um tipo de glóbulo branco do sangue que desempenha um papel crucial na resposta do organismo a reações alérgicas, asma e infecção parasitária. Essas células participam da imunidade protetora contra certos parasitas, mas também contribuem para a inflamação que ocorre em distúrbios alérgicos.
Conceito de Esofagite Eosinofílica (EEo)
Adentrando no conceito de esofagite eosinofílica, pode-se afirmar que é uma entidade clinicopatológica, crônica que pode ser caracterizada por apresentar sintomas similares aos da doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) e infiltrado eosinofílico no epitélio esofágico.
Geralmente, a exclusão da DRGE faz-se pela persistência dos sintomas e da inflamação eosinofílica da mucosa esofágica, apesar da terapêutica com inibidor da bomba de protón (IBP) em doses elevadas ou pela associação com a pHmetria normal do esôfago distal.
Nesses casos, a biópsia esofágica via endoscópica é imprescindível para estabelecimento do diagnóstico, sendo a esofagite eosinofílica, do ponto de vista histológico, definida pela presença de 15 ou mais eosinófilos por campo de grande ampliação (CGA), de forma isolada, na mucosa do esôfago. A esofagite eosinofílica é uma doença mediada pelo sistema imunológico do esôfago, resultando em inflamação com predominância de eosinófilos no esôfago.
Isso ocorre provavelmente devido a uma resposta imunitária à antígenos alimentares em pacientes com suscetibilidade genética, sendo que os alérgenos ambientais também podem desempenhar algum papel. A inflamação esofágica crônica não tratada pode, por fim, levar ao estreitamento e estenose esofágica.
Epidemiologia e etiologia da Esofagite Eosinofílica
A esofagite eosinofílica é uma doença que tem distribuição mundial, com prevalência ainda não conhecida, mas que parece ser crescente. É mais comum no sexo masculino, contudo pode acometer pacientes de todas as faixas etárias e sexo.
Sugere-se um componente genético potencial, além da predominância em homens, pois é mais frequente em caucasianos. Observou-se também um padrão familiar típico, levantando a possibilidade de uma predisposição genética ou exposição a um fator ambiental comum desconhecido.
É pertinente ressaltar que, o locus exato de suscetibilidade ainda não é conhecido. Além disso, dados epidemiológicos indicam que EEo é atualmente a segunda causa de esofagite crônica, depois da DRGE, e causa frequente de disfagia.
Em um estudo populacional realizado entre 2000 e 2003, foi demonstrado que a incidência anual (diagnosticada por pediatras) da EEo foi aproximadamente de 1/10.000, com uma prevalência de 4.296 casos por 10.000 crianças no final de 2003.
Um estudo realizado pelo grupo de pediatria de um hospital da Filadélfia encontrou esofagite eosinofílica em cerca de 10% das crianças com DRGE não respondedoras ao tratamento com IBP. Além disso, o grupo de gastropediatria do Hospital Boston Childrens demonstrou que 6% das crianças com esofagite apresentavam EEo.
Outro estudo epidemiológico realizado na Suécia envolveu mais de 1.000 indivíduos da população em geral, que preencheram um questionário sobre os sintomas gastrointestinais e, posteriormente, foram submetidas à endoscopia digestiva alta com biópsia da mucosa.
Demonstrou-se que 4,8% dos indivíduos apresentavam eosinófilos no esôfago, e em 1,1% deles encontraram-se mais de 15 eosinófilos por campo. Embora este estudo defina uma prevalência significativa de eosinofilia esofágica, é provável que estes dados superestimem a prevalência de EEo, na medida em que correlacionam somente dados histológicos com sintomas.
SAIBA MAIS: Em um estudo transversal em que um painel de diagnóstico de esofagite eosinofílica de 96 alvos moleculares, em conjunto com avaliação endoscópica e histológica, foi usado para avaliar pacientes adultos e pediátricos com esofagite eosinofílica ativa, foram identificados três endotipos distintos com características únicas: o primeiro deles é o EoEe1, subtipo leve com esôfago de aparência normal e alterações histológicas, endoscópicas e moleculares leves. O segundo, é o EoEe2, um endótipo inflamatório com maior expressão de citocinas inflamatórias e genes que respondem a esteroides, e um fenótipo refratário a esteróides. O terceiro e último, é o EoEe3, endótipo fibrostenótico associado a um esôfago de calibre estreito e caracterizado pelo maior grau de severidade endoscópica e histológica e a menor expressão de genes de diferenciação epitelial.
Fisiopatologia da Doença
A fisiopatologia da esofagite eosinofílica é marcada pela presença de uma inflamação alérgica que ocorre por meio da ativação de um subgrupo de células T auxiliares (Th), denominadas células Th2, que definem os perfis específicos de citocinas pró-alérgicas, incluindo IL-4, IL-5 e IL-13, que promovem a formação de anticorpos IgE e recrutamento, maturação e ativação de mastócitos e eosinófilos.
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