A Esferocitose Hereditária representa um grande grupo de anemias hemolíticas caracterizadas pela forma esférica do eritrócito. Se trata de uma doença com transmissão hereditária na qual o defeito primário está na membrana da hemácia.
A frequência da forma típica da doença na população geral é estimada em 1/2.000-5.000 nascimentos, mas as formas leves e portadores assintomáticos podem atingir até 1% da população.
Fisiopatologia da Esferocitose
Na Esferocitose Hereditária o defeito celular primário é a perda da área de superfície da membrana eritrocitária em relação ao volume intracelular. O resultado disso é a formação de esferócitos, além de redução da deformabilidade das hemácias, predisposição ao aprisionamento esplênico.
Há evidências que mutações nos genes das proteínas de membrana alfa ou beta-espectrina, anquirina, proteína banda 3 e proteína banda 4.2 estejam envolvidas na etiopatogenia dessa doença. Em condições normais, estas proteínas de membrana asseguram a capacidade da hemácia de manter sua forma discoide, além de proporcionar elasticidade e deformabilidade de seu citoesqueleto durante a passagem por estreitos capilares sanguíneos.
Na maioria das vezes, há deficiência isolada de espectrina. Em menor número de casos, há deficiência associada da espectrina e da anquirina, ou ainda deficiência isolada da proteína banda 3. Raros casos apresentam deficiência da proteína banda 4.2. Alguns autores descrevem quatro tipos de anemia esferocítica de acordo com a deficiência encontrada:
- Pacientes com deficiência isolada de espectrina;
- Deficiência combinada de espectrina e de anquirina;
- Deficiência isolada de banda 3;
- Deficiência isolada da proteína banda 4.2.
A gravidade da hemólise apresenta proporção direta com a deficiência de espectrina presente na membrana eritrocitária. A espectrina é uma proteína constituída por duas cadeias, alfa e beta, estando localizada na porção interna da camada bilipídica da membrana dos eritrócitos. Esta proteína é essencial para manter a forma normal dessas células. A sua deficiência é responsável pelas modificações da morfologia e da fisiologia da hemácia.
A deficiência dessa proteína na membrana plasmática leva a perda de lípides e a consequente perda de material membranoso. Isso conduz a formação de hemácias esféricas (esferócitos). O aparecimento de esferócitos é acompanhado pelo aumento da fragilidade osmótica e, consequentemente, há hipersequestro dessas células pelo baço.
SE LIGA! A interação do citoesqueleto com a membrana plasmática nas hemácias é proporcionada pelas interações verticais, que se estabelecem através das proteínas de membrana, especialmente espectrina, anquirina, banda 3 e banda 4.2. Defeitos nas interações verticais, como ocorre na esferocitose, são os responsáveis pela desestabilização da dupla camada lipídica, com consequente perda da superfície da membrana.
Os esferócitos, como células pouco deformáveis, não conseguem atravessar os espaços intercelulares presentes nos cordões da polpa esplênica, que tem cerca de 3,5 μ de diâmetro. Daí o aspecto característico de cordões ingurgitados de sangue e sinusóides vazios observados em cortes de baços de portadores de esferocitose congênita. A permanência prolongada dos eritrócitos em local onde a pressão de oxigênio é baixa (baixo pH plasmático) facilita a eritrofagocitose pelos macrófagos presentes nos cordões da polpa esplênica.
Quadro clínico da Esferocitose Hereditária
O quadro clínico da esferocitose hereditária tem como grande característica a heterogeneidade de sua apresentação, podendo ser observada até em uma mesma família. Além disso, as manifestações clínicas diferem no período neonatal comparado à vida adulta. As formas de apresentação variam desde assintomático (ou traço), leve, moderada e severa (ou grave).
Os portadores assintomáticos, classificados como traço, apresentam discretas alterações laboratoriais que dificultam o diagnóstico. Pode ser observado discreto aumento da fragilidade osmótica em hemácias incubadas, leve reticulocitose ou diminuição nos níveis de haptoglobina.
Na forma leve a anemia é discreta ou ausente, sem ou com icterícia de pequena intensidade. Tais pacientes podem ter sintomas mais evidentes no decurso de uma doença infecciosa ou da gravidez. Pode haver esplenomegalia, e a hemólise é discreta, porém sempre é compensada pela hiperfunção medular, que supre o excesso de destruição dos eritrócitos. Nesses casos, a doença costuma ter caráter familiar, manifestando-se com gravidade variável de um doente para outro na mesma família.