As taxas de mortalidade por trauma são altas, correspondendo a 10% de todas as causas de morte no mundo, com mortalidade superior a três endemias: malária, tuberculose e Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) ¹. Nos eventos de trauma ocorrem frequentemente lesões de órgãos². Tendo em vista a necessidade de redução de mortalidade associada ao trauma e a padronização de intervenções mais efetivas e adequadas a cada paciente, foi criada a escala de pontuação da The American Association for the Surgery of Trauma (AAST)²,³.
Essa escala gera pontuações a partir de dados como laceração e presença de lesão vascular de órgãos acometidos a partir de imagens de Tomografia computadorizada, sendo reservada a pacientes hemodinamicamente estáveis4. Com essas pontuações é possível delimitar intervenções mais adequadas a cada caso, restringindo atuações cirúrgicas apenas a quadros mais severos³.
Diante disso e da importância desse conhecimento, te convido à leitura do que aqui será apresentado: a escala de pontuações da AAST e suas pontuações para os principais órgãos acometidos em traumas fechados.
Conhecendo a Escala de Pontuações da AAST
A escala de pontuações da AAST é resultante da reunião de artigos publicados no Journal of Trauma a fim de melhorias nos cuidados com pacientes vítimas de traumas físicos 5. A AAST é uma organização de profissionais da área do trauma que surgiu em 1938, sendo atualmente a maior e mais antiga organização dessa finalidade4. Essa escala permite atuação mais conservadora em pacientes hemodinamicamente estáveis, evitando intervenções cirúrgicas desnecessárias, as quais acabam sendo reservadas a lesões de maiores graus de comprometimento6. As pontuações são geradas a partir de anomalias parenquimatosas ou subcapsulares, a depender do órgão acometido e da presença de lesão vascular. A partir disso, são geradas pontuações que determinam a gravidade e possibilitam a melhor intervenção para o caso,5.
A escala de pontuações da AAST para trauma reúne 32 diferentes tabelas, que envolvem órgãos e vasos sanguíneos de regiões como cervical, tórax, abdome, pelve e órgãos vasculares periféricos5. São elas:
- Tabela de Lesões vasculares cervicais
- Tabela de Lesões da parede torácica
- Tabela de Lesões cardíacas
- Tabela de Lesões pulmonares
- Tabela de Lesões vasculares torácicas
- Tabela de Lesões do diafragma
- Tabela de Lesões no baço
- Tabela de Lesões hepáticas
- Tabela de Lesões extra-hepáticas em árvore biliária
- Tabela de Lesão do pâncreas
- Tabela de Lesão do esôfago
- Tabela de Lesão do estômago
- Tabela de Lesão do duodeno
- Tabela de Lesão do intestino delgado
- Tabela de Lesão do cólon
- Tabela de Lesão do reto
- Tabela de Lesão vascular abdominal
- Tabela de Lesão de órgão adrenal
- Tabela de Lesão renal
- Tabela de Lesão do ureter
- Tabela de Lesão da bexiga
- Tabela de Lesão da uretra
- Tabela de Lesão do útero (não grávida)
- Tabela de Lesão do útero (grávida)
- Tabela de Lesão de trompa de Falópio
- Tabela de Lesão de ovário
- Tabela de Lesão de vagina
- Tabela de Lesão de vulva
- Tabela de Lesão de testículo
- Tabela de Lesão de escroto
- Tabela de Lesão de pênis
- Tabela de Lesão de órgão vascular periférico
Qual a sua aplicabilidade na prática médica?
A mortalidade associada ao trauma foi descrita em 1932 como ocorrendo de forma trimodal. Com efeito, significa dizer que a mortalidade por trauma tem três picos. O primeiro ocorre de segundos a minutos após o trauma, sendo normalmente associada a lesões incompatíveis com a vida. Já o segundo pico ocorre entre minutos a horas após o trauma, correspondendo a “hora ouro”, de modo que a qualidade e o tempo da assistência pré-hospitalar e hospitalar são decisivos para a sobrevivência. O terceiro pico ocorre de horas a semanas após o evento, surgindo em decorrência de complicações, como infecções e disfunção de múltiplos órgãos 7. Desse modo, é importante assegurar atuação mais acertada possível para evitar o falecimento do paciente ou até mesmo complicações.
Pacientes hemodinamicamente instáveis são visivelmente de gravidade, sendo por isso direcionados de imediato a intervenções cirúrgicas para assegurar maiores chances de sobrevivência. No entanto, aqueles hemodinamicamente estáveis podem ser “bombas relógio” se não avaliados corretamente. Desse modo, para eles é possível buscar lesões ocultas e classificá-las de acordo com a gravidade e direcioná-las a intervenções mais adequadas: conservadoras ou cirúrgicas de acordo com o grau da lesão.
Imagine-se em uma situação hipotética: chega de SAMU um paciente do sexo masculino, de 29 anos, sem comorbidades, vítima de acidente automobilístico de alta energia, com assistência pré-hositalar corretamente prestada. Você recebeu as informações necessárias e conduziu corretamente o atendimento inicial, valendo-se do ABCDE do Advanced Trauma Life Support (ATLS), checando vias aéreas, respiração, circulação, estado neurológico e fez a exposição. O paciente está hemodinamicamente estável, mas durante a exposição foram observadas marcas no abdômen sugerindo trauma abdominal fechado.
É nesse cenário que entra a escala de lesões da AAST. A sua aplicabilidade surge a partir de imagens de Tomografia computadorizada, direcionando ações terapêuticas em conformidade com o grau de lesão do(s) órgão(s) acometidos. A AAST tem classificações para todos os órgãos, mas que, em geral, tem em comum a observação de laceração e lesão vascular. Desse modo, abaixo trarei explanação sobre a utilização da escala de pontuação.
Utilizando a escala de pontuações de lesões da AAST
Após a observância das lesões à luz da TC, deve ser feita a classificação em grau de lesão dentro das informações listadas na tabela para o órgão acometido com a finalidade de orientação terapêutica. Em geral lesões de grau I, II e III são direcionadas ao tratamento conservador relacionado ao órgão atingido se na ausência de instabilidade hemodinâmica, coagulopatias ou usos de anticoagulantes e de complicações locais. Já as lesões de grau IV e V, elas são indicadas ao tratamento cirúrgico independentemente do status do paciente, bem como o grau VI presente na escala de lesão hepática 6,8.
Outro aspecto importante relacionado ao uso da escala é questão de definição de local de cuidados e assistência. Paciente de graus I, II e III podem ficar em observância em enfermaria, enquanto do grau IV em diante há a necessidade de cuidados intensivos em UTI. No entanto, aqueles submetidos a tratamento não operatório devem ter a disposição um cirurgião de plantão caso evoluam com piora do quadro e/ou com necessidade de intervenção cirúrgica9.
Desse modo, supondo que, no caso hipotético apresentado, o referido paciente tenha apresentado à TC hematoma subcapsular não expansivo com 3% da superfície hepática e laceração hepática não sangrante menor que 1 cm de profundidade sem sinais abdominais de irritação peritoneal e com ausência de comprometimento de outros órgãos. Em conformidade com a descrição, é possível defini-lo com grau I na escala de lesões hepáticas, podendo ser conduzido à assistência em leito de enfermaria, sob observação e prontidão para caso de piora, bem como pode ser conduzida por terapêutica não operatória e exames bioquímicos, como hemoglobina e hematócrito para acompanhamento da intensidade de sangramento e de necessidade de transfusão sanguínea10.
Conclusão
A escala de pontuação de lesões da AAST é importante instrumento de padronização na assistência ao trauma, bem como para contenção de tratamentos operatórios desnecessários, tendo eficácia associada e baixa taxa de complicações. Desse modo, se configura como importante meio para decisão terapêutica e melhor assistência ao paciente11.
Autora: Cristina L. Carpinetti
Instagram: @cristinacarpinetti
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
- PAHO. Traumas matam mais que as três grandes endemias: malária, tuberculose e AIDS – https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=29 89:traumas-matam-mais-que-as-tres-grandes-endemias-malaria-tuberculose-eaids& Itemid= 839
- REED, RL et al. Continuing evolution in the approach to severe liver trauma. Ann Surg, 216:524-38, 1992
- GUEDES, Ana Rita; GOMES, Antônio Taveira. Lesões Traumáticas de Órgãos Sólidos Abdominais – Tratamento Ontem e Hoje. Tese (Mestrado integrado em Medicina). Faculdade de Medicina, Universidade do Porto, 2010.
- SABISTON. Tratado de cirurgia: A base biológica da prática cirúrgica moderna. 20.ed.Saunders. Elsevier.
- AAST – American Association of Surgery for Trauma. Injury Scoring Scale – https://www.aast.org/resources-detail/injury-scoring-scale
- REIS, Leonardo O. et al. Atualização da classificação e tratamento das lesões renais complexas. Rev. Col. Bras. Cir. 2013; 40(4): 347-350
- GRUPO SURGICAL. Conheça a nossa cirurgia do trauma – https://gruposurgical.com.br/especialidades/cirurgia-do-trauma/
- SCHWAMBACH, Christian B. et al. Abordagem ao trauma abdominal fechado – https://docs.bvsalud.org/biblioref/2018/04/882913/21-trauma-abdominal-fechado.pdf
- RMMG – Revista Médica de Minas Gerais. Tratamento não operatório do trauma hepático contuso (Atualização Terapêutica) – http://rmmg.org/artigo/detalhes/250
- RASSIAN, Samir, MONTEIRO, Ricardo P. Tratamento não-operatório do trauma hepático (artigo de atualização). Revista do Colégio Brasileiro de cirurgiões. Vol 26, nº6, 379, 1999.
- RODRIGUES, José M. S. et al. Tratamento não operatório do trauma abdominal contuso e do trauma penetrante do quadrante superior direito do abdome. Revista da Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba, v.19, Supl., out. 2017. 34º Congresso da SUMEP