No Brasil, morrem mais de 220 mil pessoas por ano por falhas na
assistência hospitalar. Isso equivale a, aproximadamente, 358 aviões
Airbus com 615 lugares caindo todo ano. Profissionais da área da saúde são
treinados para que atinjam alto grau de proficiência e eficiência e, provavelmente,
estão entre os profissionais mais criteriosos e cuidadosos da sociedade, mas vou
ter que te contar um segredo: mesmo que muitos possam não acreditar, nós,
médicos, somos humanos e cometemos erros.
Os
hospitais se enquadram nos sistemas adaptativos complexos, onde
suposições simples de causa e efeito não
se aplicam. Em vez disso, o que ocorre é um processo dinâmico, parcialmente
previsível, no qual as interações e os relacionamentos com os diferentes componentes do sistema afetam e
definem o resultado final. Simplificando:
não basta estar preparado para atender os pacientes, toda a cadeia tem que
estar organizada e, mesmo assim, não será 100% confiável.
Os desastres aéreos são raros, felizmente. Estima-se que é mais fácil ganhar duas vezes na loteria do que morrer devido a um acidente de avião, mas toda essa segurança só ocorre porque há clareza, transparência dos riscos e mitigação dos erros. Não há uma negação do risco. Contudo, na área da saúde, especialmente na carreira médica, há uma poderosa e permanente ênfase na perfeição, tanto para diagnóstico quanto para tratamento. Todos os dias a mensagem é clara: erros são inaceitáveis, você, médico, deve ser infalível, onipotente e onipresente. Essa falsa sensação de infalibilidade é internalizada, o que pode levar a uma forte pressão emocional para a desonestidade e omissão quando erros ocorrem.
Acredito que todos que trabalham na área da saúde já tenham vivido ou presenciado erros assistenciais. A imensa maioria dos erros não causa danos aos pacientes, mas a análise deles é de extrema importância para que possamos evitar os eventos adversos (erros que causam danos). Eu teria inúmeras histórias para elucidar o parágrafo acima, porém algumas são mais impactantes. Um evento adverso ocorre devido a múltiplas falhas no processo de cuidado. Contudo, os médicos residentes, usualmente, são os últimos a “tocarem” nos pacientes antes de um evento e, como são os mais frágeis, mais inexperientes, acabam levando a “culpa” de todo um sistema mal desenhado.
Tenho vivido
desde que me formei vários casos
marcantes, de eventos adversos, tanto durante a minha residência, quanto na
preceptoria. Um caso ocorreu quando eu era residente da terapia intensiva e que
após uma cadeia de erros (de pessoas e de processos de trabalho), uma paciente acabou
sendo manejada por uma residente do segundo ano ( eu no caso), às 3 horas da
manhã, após inúmeros atendimentos, entre
outras dificuldades, em que após a inserção de um marcapasso transvenoso,
paciente apresentou complicações graves com necessidade de intervenção pela
cirurgia cardíaca. Porém, no dia seguinte ao evento a notícia da “rádio
corredor” foi “a paciente fez
hemotórax e foi para o bloco por culpa do erro da R2, mas ninguém veio
conversar comigo. Na preceptoria tenho
vivenciado situações semelhantes, onde o silêncio ou melhor a “conspiração do
silêncio”, todo mundo sabe ou “cochicha”, mas conversas francas,
honestas e transparentes raramente ocorrem.
Tenho
conversado com meus residentes quando eventos ocorrem, mas sem julgamento, pergunto de forma ampla: “o que foi que aconteceu? Como está se
sentindo?“. Alguns choram copiosamente quando começam a falar,
referindo que não conseguem mais dormir, sentem-se péssimos, culpados e com a
sensação que todos ao seu redor estão olhando e pensando no que eles fizeram, além
da sensação de impotência que muitas
vezes desmotiva e deprime-o, não permitindo que uma análise do que realmente
ocorreu possa acontecer. Conversar e analisar os casos, sem julgamento, definir a causa raiz do evento, e não fingir que nada aconteceu é o melhor caminho para a
redução de novos eventos e o tratamento da dor de quem está envolvido em um
evento adverso. Não é fácil declarar
publicamente ou mesmo entre os colegas quando um evento ocorre, mas tenho
certeza que o aprendizado é extremo para
todos, além do tratamento da ferida que fica na segunda vítima: o sentimento de
culpa pelo evento adverso que a paciente sofreu.
Os erros raramente são admitidos ou discutidos entre os médicos, pois estes sentem medo que seus pares os vejam como incompetentes ou descuidados. Portanto, muito melhor esconder um erro ou, se isso for impossível, tentar transferir a culpa para outra pessoa ou mesmo para o paciente. Porém, isso não cura o profundo impacto emocional que ocorre no médico/profissional da área da saúde após um desfecho desfavorável evitável que atinja os pacientes. Tipicamente, uma mistura de vergonha, raiva, medo, insônia, culpa e humilhação se instala no médico. Além disso, a falta de reconhecimento e transparência nos casos impedem que sejam abertamente discutidos e que se identifiquem todas as falhas e pessoas envolvidas no evento e, com isso, que elas percebam a sua parte de erros e acertos, podendo, assim, aprender e evitar que eventos semelhantes ocorram.
Não há dúvidas
que os pacientes que sofrem com essas falhas são as primeiras vítimas. Contudo,
como
afirma Dr. Wu, da Johns Hopkins University, médicos também são
feridos pelos mesmos erros que acometem os pacientes: eles são a segunda
vítima. Replicando o texto do Dr. Wu, eu te desafio: relembre e reflita
sobre o último erro que você presenciou ou participou, que prejudicou ou quase
atingiu (near miss) o paciente. Converse com um colega
sobre o evento, observe as tuas reações e a do teu colega. Seja honesto, tente
identificar o primeiro fator na cadeia que desencadeou o evento e as possíveis
formas de evitar essas falhas em outros casos.
Concluindo,
infelizmente, se algum evento ocorrer com um paciente que você esteja atendendo,
não esconda seu sofrimento: reparta, esclareça, aprenda, peça perdão se for
necessário.
Termino confessando, me chamo Josiane França John, sou médica, sou humana, me perdoem, mas eu, que já cometi erros e provavelmente cometerei outros, prometo que farei tudo para evitá-los.
Um grande
abraço!
P.S.: Deixe nos comentários como você se sentiu
após vivenciar um evento adverso.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.