Introdução
Para que o nosso corpo possa funcionar adequadamente, o pH plasmático deve estar entre 7,35 e 7,45. Diversos sistemas trabalham para tornar isso possível, mantendo a concentração hidrogeniônica pouco alterável, de modo a evitar que esses valores caiam ou subam muito, o que levaria respectivamente à acidose e à alcalose.
São três os sistemas primários que regulam as concentrações hidrogeniônicas no plasma sanguíneo. O primeiro sistema a agir é o tampão de bicarbonato, seguido do centro respiratório, que regula a remoção de CO2 do líquido extracelular e, finalmente, os rins podem produzir uma urina mais ácida ou mais alcalina, no intuito de reajustar o pH. As duas primeiras respostas à alteração do pH são mais rápidas e atuam até que a terceira resposta consiga ser efetiva, o que costuma durar de dois a três dias.
Sistema tampão de bicarbonato
Sistemas tampões não eliminam ou acrescentam H+, mas apenas mantêm seus níveis controlados até que o balanço possa ser restabelecido.
O sistema tampão de bicarbonato funciona tamponando o excesso de H+ com HCO3–, por meio da seguinte equação: CO2 + H2O H2CO3
H+ + HCO3–. Com a dissociação de H2CO3 no sentido direto fraca, a concentração de H+ se mantém baixa. Portanto, ao adicionar um ácido forte à solução tampão, como HCl, o H+ em excesso liberado desse ácido é tamponado pelo HCO3–, formando, então, H2CO3 e aumentando a produção de CO2 e H2O, a qual se dá por ação da anidrase carbônica. Isso corrobora para o aumento do pH em situações de acidose.
Ao adicionarmos uma base forte, ocorre a reação oposta. Tomando a adição de NaOH como exemplo, a reação ocorre da seguinte maneira: CO2 + H2O → NaOH + H2CO3 → Na+ + HCO3– + H+. Dessa forma, a concentração de H2CO3 diminui, pois o H2CO3 tende a dissociar no sentido indireto e mais CO2 se combina com H2O para, a fim de repor H2CO3. Assim, as concentrações de CO2 tendem a diminuir no sangue, o que diminui também a expiração, de modo a promover a diminuição do pH em casos de alcalose.
“Tampão intracelular”
Além dos tampões plasmáticos, temos mecanismos que agem rapidamente, a fim de manter o equilíbrio hidrogeniônico intracelular. Com a alta concentração extracelular de H+, há uma grande pressão de entrada desse íon exercida sobre a membrana celular, a ponto de a célula liberar K+ para permitir a entrada de H+.
Centro respiratório
Os quimiorreceptores localizados nos corpos carotídeos e aórtico, e no tronco cerebral detectam alterações na pressão de CO2 e, logo, no pH. Percebida alguma alteração, eles enviam sinais ao centro respiratório no intuito de determinar a ventilação em sentido apropriado, isto é, se há acidose, hiperventila-se, se há alcalose, hipoventila-se.
Controle renal
Há um momento em que os sistemas tampão e o centro respiratório se tornam ineficientes, principalmente porque, a concentração de bases cai muito, devido ao alto consumo pelos tampões, e os pulmões passam a não dar conta de eliminar tanto CO2. Com isso, os rins entram em ação. Na acidose, aumentam a secreção de H+ e a absorção de H2CO3–, já na alcalose, diminuem a secreção de H+ e passam a secretar também HCO3–.
HCO3– em situação fisiológica é totalmente absorvido, sendo 80% absorvido no túbulo contorcido proximal (TCP); 10%, na alça de Henle (AH); 6%, no túbulo contorcido distal (TCD); e 4%, no túbulo coletor (TC).
A absorção em TCP, AH e TCD segue mecanismos semelhantes. Inicialmente, as células tubulares dessas porções secretam H+ para o lúmen tubular, onde se liga a HCO3–, formando H2CO3, o qual se dissocia em H2O e CO2. Então, o CO2 se difunde para dentro da célula tubular, onde reage com H2O, formando novo H2CO3. Finalmente, o H2CO3 se dissocia em HCO3–, que será reabsorvido em simporte com Na+ na membrana basolateral, e H+, que segue para o lúmen através da bomba Na-H-ATPase, reiniciando o ciclo.

Já no TC, temos um outro processo de reabsorção do HCO3–, possível, devido à presença das células principais, e das intercaladas alfa e beta. Nas células intercaladas alfa, temos a expulsão de H+, que, uma vez no lúmen tubular, conjuga com HCO3–, formando ácido carbônico e imediatamente dissociando-se em H2O e CO2, os quais entram na célula. Então, H2O e CO2 formam novo H2CO3, dissociando-se em HCO3–, que será reabsorvido em contratransporte com Cl– na membrana basolateral, e H+, que segue para o lúmen através das bombas H-ATPase e H-K-ATPase, reiniciando o ciclo. Assim, podemos dizer que o processo de reabsorção nas células intercaladas alfa é bastante semelhante ao que ocorre no TCP.

Além disso, essas células alfa também podem captar H2O e CO2 da corrente sanguínea, os quais se conjugam por ação da anidrase carbônica e imediatamente já se dissociam em HCO3–, reabsorvido em contratransporte com Cl– na membrana basolateral, e H+, que segue para o lúmen através da bomba H-ATPase, onde será tamponado por exemplo por fosfato. Ligado ao fosfato, o H+ pode, então, ser excretado na urina. Dessa forma, tanto a reabsorção basolateral de HCO3– quanto a excreção tubular de H-tampão atuarão a longo prazo na frente para regular acidoses.

Nas células intercaladas beta, também temos a absorção de H2O e CO2 da corrente sanguínea, os quais seguem todo aquele processo de conjugação e dissociação intermediado pela anidrase carbônica. Dissociados em HCO3– e H+, o HCO3–, agora, será liberado no lúmen para a excreção na urina, por meio de contratransporte com Cl– , e o H+, absorvido através da membrana apical pela bomba H-ATPase. Assim, essas células atuam a longo prazo na frente para regular alcaloses.
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Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
BORON, W.F.; BOULPAEP, E.L. Fisiologia Médica. 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015.
GUYTON, A.C.; HALL, J.E. Tratado de Fisiologia Médica. 13. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
KOEPPEN, B. B.; STANTON, B.A. Berne & Levy Fisiologia. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2018.