Os eosinófilos constituem uma população especializada de glóbulos brancos (leucócitos granulares) que desempenham papéis centrais no sistema imunológico. Eles surgem na medula óssea como resultado da diferenciação de precursores mieloides e migram para o sangue periférico e tecidos sob estímulos específicos.
O que são eosinófilos?
Os eosinófilos fazem parte do grupo dos leucócitos granulares e representam uma importante linha de defesa do sistema imunológico. Eles surgem na medula óssea a partir de precursores mieloides, sob estímulo de citocinas como a interleucina-5 (IL-5), e alcançam a circulação sanguínea antes de migrarem para os tecidos. Diferentemente de outros glóbulos brancos, os eosinófilos possuem grânulos citoplasmáticos característicos, ricos em proteínas tóxicas e mediadores inflamatórios. Essas substâncias conferem aos eosinófilos a capacidade de participar tanto na defesa contra parasitas multicelulares quanto em processos alérgicos e inflamatórios crônicos.
Além disso, os eosinófilos não atuam apenas como células de ataque. Eles também modulam respostas imunes adaptativas por meio da liberação de citocinas e quimiocinas, interagindo com linfócitos T auxiliares do subtipo Th2. Assim, tornam-se protagonistas em situações de asma, dermatites e doenças gastrointestinais eosinofílicas.
Principais funções dos eosinófilos
O papel mais conhecido dos eosinófilos é o combate a infecções parasitárias, especialmente por helmintos. Quando identificam a presença desses organismos, os eosinófilos liberam proteínas como a major basic protein e a eosinophil cationic protein, que apresentam efeito tóxico direto contra o parasita. Dessa forma, contribuem para limitar a disseminação da infecção.
Contudo, o alcance funcional dos eosinófilos vai além. Em processos alérgicos, como rinite e asma, eles intensificam a inflamação por meio da produção de leucotrienos e espécies reativas de oxigênio. Ao mesmo tempo, participam do remodelamento tecidual, favorecendo a cicatrização em alguns contextos, mas também perpetuando danos crônicos quando sua ativação permanece desregulada.
Outro ponto relevante é o papel dos eosinófilos na imunidade adaptativa. Em determinadas condições, eles apresentam antígenos para linfócitos e estimulam a diferenciação de células T. Dessa maneira, exercem funções que ultrapassam a simples defesa inata e participam da orquestração da resposta imune como um todo.
Alterações quantitativas: eosinofilia e eosinopenia
Valores de referência
Em condições fisiológicas, a contagem absoluta de eosinófilos no sangue periférico varia entre 0 e 500 células por microlitro. Quando o número ultrapassa esse limite, ocorre a eosinofilia, que pode ser classificada em leve, moderada ou grave. Já a eosinopenia corresponde à diminuição acentuada dos eosinófilos, geralmente abaixo do esperado para a normalidade.
Eosinofilia: causas e implicações
A eosinofilia leve, entre 500 e 1.500 células/µL, aparece frequentemente em alergias respiratórias, dermatites atópicas e infecções parasitárias intestinais. Nessas situações, a elevação de eosinófilos indica uma resposta inflamatória direcionada, muitas vezes reversível com tratamento adequado.
A eosinofilia moderada, entre 1.500 e 5.000 células/µL, exige maior atenção, pois pode estar relacionada a doenças autoimunes, reações medicamentosas ou condições pulmonares crônicas. Além disso, esse grau de elevação já aumenta o risco de infiltração tecidual, o que pode comprometer órgãos como coração, pulmão e pele.
Já a hipereosinofilia, acima de 1.500 células/µL persistentes, representa um marco clínico de risco. Quando associada a disfunção orgânica, caracteriza a chamada síndrome hipereosinofílica, que pode se manifestar com miocardite, fibrose pulmonar, esofagite eosinofílica ou neuropatias. Por outro lado, é importante destacar que nem toda hipereosinofilia se relaciona a doenças malignas: muitas vezes decorre de infecções parasitárias graves em regiões tropicais.
Além das causas reativas, existem ainda as eosinofilias clonais, ligadas a síndromes mieloproliferativas ou leucemias específicas. Nesses casos, mutações genéticas como a fusão PDGFRA podem direcionar o diagnóstico e definir terapias-alvo, como inibidores de tirosina quinase.
Eosinopenia: quando os eosinófilos diminuem
Enquanto a elevação chama atenção, a diminuição também merece análise. A eosinopenia ocorre com frequência após o uso de corticosteroides sistêmicos, que suprimem a produção e a liberação dos eosinófilos. Além disso, infecções bacterianas agudas e sepse costumam reduzir temporariamente essas células, funcionando como marcador de resposta ao estresse inflamatório.
Doenças endócrinas, como a síndrome de Cushing, também podem resultar em eosinopenia devido ao excesso de glicocorticoides circulantes. Ainda assim, é importante lembrar que variações fisiológicas ao longo do dia — associadas ao ciclo circadiano — influenciam na contagem de eosinófilos. Por isso, a interpretação deve considerar o contexto clínico e laboratorial.
Relevância clínica no diagnóstico diferencial
Na prática médica, interpretar corretamente alterações quantitativas de eosinófilos auxilia na condução diagnóstica. Diante de uma eosinofilia inexplicada, o profissional deve investigar exposição a parasitas, histórico de alergias, uso de medicamentos recentes e sintomas sistêmicos. Exames complementares, como sorologias, parasitológicos de fezes e dosagem de imunoglobulina E (IgE), ajudam a esclarecer a causa.
Por outro lado, quando a hipereosinofilia persiste sem explicação evidente, torna-se necessário avaliar possíveis doenças hematológicas. Nesse cenário, exames de medula óssea, citogenética e biologia molecular podem ser fundamentais para detectar síndromes mieloproliferativas associadas. Dessa forma, o médico consegue diferenciar condições benignas de neoplasias que exigem tratamento específico.
A eosinopenia, embora muitas vezes transitória, pode sinalizar imunossupressão induzida por corticoide ou infecção aguda grave. Portanto, mesmo uma contagem baixa de eosinófilos merece atenção, especialmente em pacientes críticos internados em unidades de terapia intensiva.
Impacto dos eosinófilos no prognóstico e tratamento
A presença de eosinófilos em tecidos normalmente não inflamatórios indica atividade patológica significativa. Em casos de asma grave, por exemplo, a contagem de eosinófilos no sangue periférico auxilia na indicação de terapias biológicas direcionadas, como anticorpos monoclonais contra IL-5 ou seu receptor. Dessa forma, o manejo clínico se torna mais individualizado e eficaz.
Em doenças gastrointestinais, como a esofagite eosinofílica, a infiltração local desses leucócitos confirma o diagnóstico e orienta a conduta terapêutica, que inclui desde corticosteroides tópicos até dietas de exclusão. Já em pacientes com hipereosinofilia persistente, a prevenção do dano orgânico exige monitoramento frequente da função cardíaca e pulmonar, além de ajustes terapêuticos contínuos.
Por outro lado, a eosinopenia pode servir como marcador de resposta terapêutica em doenças autoimunes tratadas com corticosteroides. Assim, acompanhar a evolução da contagem de eosinófilos fornece pistas sobre a eficácia e os efeitos adversos do tratamento.
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Referências
- WELLER, Peter F. Approach to the patient with unexplained eosinophilia. In: UpToDate. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/approach-to-the-patient-with-unexplained-eosinophilia. Acesso em: 12 set. 2025.
- ROTHENBERG, Marc E. Eosinophil biology and causes of eosinophilia. In: UpToDate. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/eosinophil-biology-and-causes-of-eosinophilia. Acesso em: 12 set. 2025.