Entesopatia de calcâneo: entenda o que é, suas causas e como aliviar a dor no calcanhar.
A entesopatia de calcâneo é uma condição musculoesquelética caracterizada pela inflamação ou degeneração da entese, região onde os tendões e ligamentos se inserem no osso. Essa patologia pode resultar em dor crônica, limitação funcional e impacto na qualidade de vida do paciente.
O que é a entesopatia de calcâneo?
A entesopatia de calcâneo afeta a inserção do tendão de Aquiles na porção póstero-superior do calcâneo ou da fáscia plantar na sua inserção inferior.
Desa forma, essa condição pode estar associada a doenças inflamatórias sistêmicas, como espondiloartrites, ou surgir devido a sobrecarga mecânica repetitiva.
Fatores de risco
Os principais fatores de risco para a entesopatia de calcâneo estão relacionados a características individuais, hábitos de vida bem como condições médicas subjacentes. Compreender esses fatores é essencial para a prevenção e manejo adequado da condição.
Idade
A entesopatia de calcâneo é mais comum em indivíduos acima de 40 anos. Assim, com o envelhecimento, há uma redução na elasticidade dos tendões e ligamentos, tornando a entese mais suscetível a processos degenerativos e inflamatórios.
Além disso, a capacidade de regeneração dos tecidos diminui, o que aumenta o risco de lesões crônicas.
Atividades físicas intensas
A prática de esportes de impacto, como corrida, futebol, basquete e saltos, está diretamente associada ao desenvolvimento da entesopatia. Portanto, movimentos repetitivos e microtraumas constantes na inserção dos tendões podem levar a inflamação e degeneração progressiva da entese.
Além disso, o uso inadequado de calçados esportivos ou treinos sem aquecimento e alongamento adequados também aumentam o risco de sobrecarga nessa região.
Obesidade
O excesso de peso corporal exerce uma carga excessiva sobre o calcâneo, intensificando a pressão na inserção dos tendões e ligamentos. Isso pode levar a processos inflamatórios crônicos e ao desenvolvimento da entesopatia. Dessa forma, a obesidade está frequentemente associada a alterações metabólicas que favorecem estados inflamatórios sistêmicos, agravando a condição.
Doenças reumatológicas
A entesopatia de calcâneo pode estar associada a doenças inflamatórias sistêmicas, como espondiloartrites, artrite psoriática e gota. Dessa forma, nessas condições, o sistema imunológico ataca as estruturas articulares e tendíneas, levando a inflamação crônica, dor e degeneração progressiva da entese.
Pacientes com essas doenças devem ter um acompanhamento reumatológico adequado para evitar o agravamento da condição.
Má postura e biomecânica alterada
Alterações anatômicas, como pé plano ou pé cavo, podem predispor à sobrecarga na entese do calcâneo. Além disso, o encurtamento do tendão de Aquiles e desalinhamentos biomecânicos dos membros inferiores também contribuem para o aumento da tensão na inserção tendínea, favorecendo a degeneração tecidual e o desenvolvimento da entesopatia.
Sintomas da entesopatia de calcâneo
Os sintomas da entesopatia de calcâneo podem variar de leve a intenso e incluem:
- Dor localizada: na região do calcâneo, especialmente ao iniciar o movimento após repouso prolongado
- Rigidez matinal: geralmente melhora com o decorrer do dia
- Edema e sensibilidade Local: a região pode estar dolorida ao toque
- Dificuldade para caminhar: dor exacerbada ao pisar ou apoiar o peso do corpo sobre o pé afetado.
Diagnóstico
O diagnóstico da entesopatia de calcâneo é fundamental para direcionar um tratamento adequado e evitar complicações decorrentes da progressão da doença.
Ele se baseia na correlação entre os achados clínicos, exame físico e exames de imagem, que auxiliam na confirmação da suspeita diagnóstica e na exclusão de outras condições que podem apresentar sintomas semelhantes.
Histórico clínico e exame físico
A anamnese detalhada é essencial para identificar fatores predisponentes e o impacto da dor na vida do paciente. Durante a consulta, o médico deve investigar o início dos sintomas, sua progressão, fatores desencadeantes, como atividades físicas ou permanência prolongada em pé, além de possíveis doenças reumatológicas associadas.
No exame físico, o paciente pode apresentar dor localizada na inserção do tendão de Aquiles ou na fáscia plantar, exacerbada por palpação ou dorsiflexão passiva do tornozelo. Assim, a presença de edema, espessamento tendíneo e limitação de movimentos também pode ser observada. Portanto, testes específicos, como a manobra de Thompson para avaliação da integridade do tendão de Aquiles, podem ser úteis em casos de suspeita de ruptura associada.
Exames complementares
Para confirmar o diagnóstico e avaliar a extensão da lesão, exames de imagem podem ser solicitados:
- Radiografia: radiografia simples é um exame inicial útil para detectar calcificações na inserção do tendão, que são comuns na entesopatia crônica. Além disso, pode ajudar a excluir outras causas de dor no calcâneo, como fraturas por estresse ou deformidades ósseas
- Ultrassonografia: a ultrassonografia é um exame acessível e sem radiação ionizante, permitindo a avaliação da integridade do tendão e a identificação de alterações estruturais na entese. Pode evidenciar espessamento, inflamação e presença de neovascularização, sinais indicativos de entesopatia ativa.
- Ressonância Magnética (RM): em casos duvidosos ou para uma melhor avaliação de partes moles, a ressonância magnética é o exame de escolha. A RM é altamente sensível para detectar inflamação, degeneração tendínea e ruptura parcial ou total do tendão. Além disso, auxilia no diagnóstico diferencial de condições reumatológicas que podem mimetizar a entesopatia.

O diagnóstico precoce e preciso da entesopatia de calcâneo permite a implementação de estratégias terapêuticas adequadas, minimizando a progressão da doença e reduzindo o impacto funcional na vida dos pacientes.
Tratamento da entesopatia de calcâneo
Tratamento conservador
O tratamento inicial da entesopatia de calcâneo é conservador e visa o alívio da dor e a redução da inflamação. As principais abordagens incluem:
Repouso e modificação de atividades
Evitar esportes de impacto e atividades que sobrecarreguem o calcâneo é essencial para minimizar o estresse sobre a entese e permitir a recuperação.
Fisioterapia
A fisioterapia desempenha um papel importante no tratamento, promovendo o fortalecimento muscular bem como alongamentos específicos do tendão de Aquiles e da fáscia plantar para melhorar a biomecânica e reduzir a sobrecarga na região afetada.
Medicamentos
- Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs): fármacos como ibuprofeno e naproxeno são frequentemente prescritos para o controle da dor e inflamação
- Corticosteróides injetáveis: indicados em casos refratários, devem ser usados com cautela devido ao risco de enfraquecimento tendíneo e possíveis rupturas.
Terapias adjuvantes
- Ondas de choque extracorpóreas: técnica eficaz para estimular a regeneração tecidual e aliviar a dor crônica
- Laserterapia e ultrassom terapêutico: ajudam a reduzir a inflamação e acelerar a cicatrização da entese
- Palmilhas ortopédicas: promovem uma distribuição mais equilibrada da carga plantar, corrigindo assim desalinhamentos biomecânicos.
Tratamento cirúrgico
O tratamento cirúrgico é reservado para casos graves e refratários ao manejo conservador. As principais abordagens incluem:
Desbridamento cirúrgico
Procedimento que visa remover tecidos degenerados e calcificações na região da entese, reduzindo a inflamação crônica e melhorando a funcionalidade do tendão.
Reparos tendíneos
O procedimento de reparo tendíneo é indicado para pacientes que apresentam ruptura tendínea associada à entesopatia de calcâneo. Assim, esse reparo pode ser realizado por meio de técnicas cirúrgicas minimamente invasivas ou procedimentos abertos, dependendo da gravidade da lesão.
Procedimento
- Incisão e acesso ao tendão: durante a cirurgia, o cirurgião faz uma incisão na região afetada para expor o tendão rompido
- Suturas e técnicas de reforço: o tendão é reparado por meio de suturas resistentes, que unem as partes rompidas. Em casos mais graves, pode ser necessário o uso de enxertos tendíneos ou técnicas de reforço estrutural
- Fechamento e imobilização: após a reparação, a incisão é fechada e assim o pé pode ser imobilizado temporariamente para facilitar a cicatrização
- Reabilitação pós-operatória: o paciente inicia um protocolo de fisioterapia para recuperar a mobilidade e força do tendão, minimizando o risco de recidivas.

Prognóstico
O tempo de recuperação varia de acordo com a extensão da lesão e a resposta individual ao tratamento, podendo levar de algumas semanas a meses para um retorno seguro às atividades normais.
Dessa forma, a evolução da entesopatia de calcâneo depende de diversos fatores, incluindo a gravidade da lesão, a adesão ao tratamento e a presença de comorbidades associadas. Felizmente, a maioria dos pacientes responde bem ao tratamento conservador, apresentando melhora significativa da dor e da funcionalidade dentro de algumas semanas a meses. Portanto, medidas como repouso, fisioterapia e uso de palmilhas ortopédicas contribuem para a recuperação gradual, permitindo a retomada das atividades diárias sem limitações.
Nos casos mais leves, a adaptação de hábitos e a introdução de exercícios específicos podem ser suficientes para reduzir os sintomas e evitar recorrências. Além disso, em quadros moderados a graves, pode ser necessário um período mais longo de tratamento, com acompanhamento multidisciplinar para garantir a restauração completa da função tendínea.
Em longo prazo, a prevenção de recidivas envolve a manutenção de um programa de fortalecimento muscular, ajustes biomecânicos e controle de fatores de risco. Dessa forma, pode-se manjear a entesopatia de calcâneo eficazmente, proporcionando uma boa qualidade de vida ao paciente.
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Referências bibliográficas
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