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Endotelite pulmonar e sistêmica destaca a COVID-19 das demais infecções respiratórias

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Embora a COVID-19 encaixe-se na categoria de doença respiratória infecciosa, há algo de particular que a coloca em destaque e a diferencia das demais infecções respiratórias: a marcante endotelite pulmonar e sistêmica vista nos pacientes graves. 

O objetivo do nosso post de hoje será abordar um pouco do tema, trazendo o que de mais atual há na literatura sobre esta parte da fisiopatologia da infecção pelo SARS-CoV-2. 

Características clínicas da COVID-19

A manifestação clínica da infecção por SARS-CoV-2 pode variar desde quadros leves até formas críticas da doença, sendo que a maioria dos casos não evolui com gravidade. O risco de evolução para formas graves está relacionado a fatores como idade, comorbidades, histórico de infecção prévia e vacinação.

Além disso, diferentes variantes do vírus apresentam perfis distintos quanto à gravidade. A variante Ômicron (B.1.1.529), por exemplo, mostrou estar associada a quadros clínicos mais leves quando comparada a cepas anteriores.

Infecções assintomáticas

A ocorrência de infecções sem sintomas foi amplamente documentada e tem se tornado mais comum com o aumento da imunização natural e vacinal. Indivíduos mais jovens e saudáveis são mais propensos a esse tipo de infecção.

Quadros leves a moderados

A maior parte dos infectados desenvolve sintomas leves ou moderados. Casos leves envolvem sintomas gerais, como febre e tosse, mas sem comprometimento pulmonar. Casos moderados, por sua vez, incluem sinais de infecção pulmonar, porém com saturação de oxigênio igual ou superior a 94% em ar ambiente.

Doença grave ou crítica

Define-se pela presença de saturação abaixo de 94%, taquipneia e infiltrados pulmonares extensos. Além disso, formas críticas envolvem falência respiratória, choque séptico e/ou disfunção de múltiplos órgãos.

Endotelite na COVID-19: evento frequente e complicador

O dano causado às células endoteliais, bem como a coagulopatia resultante, são eventos frequentes na COVID-19, que agravam o quadro dos pacientes. 

Para se ter uma ideia, de acordo com dados da literatura, cerca de 21 a 69% dos pacientes graves apresentaram evento tromboembólico venoso. A título de comparação, a taxa de tal complicação em UTI’s cirúrgicas é de 7,5%, uma diferença marcante. Quando comparada com outras doenças respiratórias, como a gripe, também apresenta maior prevalência. 

A ocorrência de eventos trombóticos está associada a desfechos negativos, como maior gravidade e mortalidade. De fato, aqueles pacientes com COVID-19 em estado mais comprometido, apresentam marcadores sugestivos de hipercoagulabilidade: concentrações aumentadas de D-dímero e fibrinogênio, TP e TTPa elevados e trombocitopenia. 

Qual mecanismo explica o estado de pró-trombótico na COVID-19?

Embora ainda não totalmente elucidado, os pesquisadores apontam algumas hipóteses que explicam o estado trombótico presente nos pacientes com COVID-19. 

Um deles consiste no dano endotelial causado pelo vírus propriamente, bem como a inflamação consequente e resultante. Está lembrado(a) da Tríade de Virchow? Consiste em hipercoagulabilidade, estase venosa e lesão endotelial. Apoia-se essa teoria pelo seguinte fato: o dano alveolar causado pelo vírus associa-se a microtrombos na circulação pulmonar. 

Patogênese da hipercoagulabilidade na COVID-19

Ainda não compreende-se totalmente a hipercoagulabilidade observada na COVID-19. No entanto, como mencionado, pode ser interpretada à luz da Tríade de Virchow, que contempla três pilares da formação de trombos: lesão endotelial, estase e estado de hipercoagulabilidade.

Lesão Endotelial

O SARS-CoV-2 tem a capacidade de invadir diretamente as células endoteliais, o que pode causar danos celulares.

Hipóteses sugerem que inflamação microvascular, exocitose endotelial e endotelite desempenham papel relevante na forma grave da COVID-19. Além disso, há evidências de que a ativação do sistema complemento, potencialmente iniciada pela proteína spike do vírus, contribua para essa lesão. Marcadores como o C5b-9 estão aumentados em pacientes com COVID-19 grave, sendo mais elevados em comparação a pacientes com outras causas de insuficiência respiratória.

Outros fatores que podem agravar a lesão endotelial incluem o uso de cateteres, citocinas inflamatórias e proteínas de fase aguda.

Estase

A imobilização dos pacientes, especialmente os hospitalizados em unidades de terapia intensiva, favorece a estagnação do fluxo sanguíneo, contribuindo para a formação de coágulos.

Estado de Hipercoagulabilidade

Observam-se diversas alterações hemostáticas em indivíduos com COVID-19 grave:

  • Elevação do dímero D e do fibrinogênio: níveis aumentados do dímero D indicam ativação da coagulação e fibrinólise, correlacionando-se com gravidade, embora não sejam específicos da COVID-19.
  • Formação de NETs (armadilhas extracelulares de neutrófilos): estruturas liberadas pelos neutrófilos durante a morte celular, que facilitam a formação de trombos.
  • Hiperviscosidade: em alguns pacientes críticos, observou-se viscosidade plasmática aumentada, relacionada ao excesso de fibrinogênio e imunoglobulinas.
  • Ativação plaquetária: há indícios de que as plaquetas estejam hiperativadas, o que favorece trombose, apesar das evidências ainda serem limitadas.
  • Desequilíbrio entre o fator von Willebrand (VWF) e a enzima ADAMTS13: alterações nessa proporção podem contribuir para o estado protrombótico.

Essas alterações variam conforme o estágio da doença e a precocidade do tratamento, o que pode explicar variações entre diferentes ondas da pandemia.

Coagulopatia associada à COVID-19 (CAC)

Descreve-se essa condição como uma forma de tromboinflamação, com características próprias e distintas da coagulação intravascular disseminada (CIVD) clássica. Os principais achados laboratoriais incluem:

  • TP e TTPa normais ou levemente prolongados;
  • Contagem de plaquetas normal ou elevada;
  • Fibrinogênio significativamente elevado;
  • Dímero D aumentado;
  • Aumento da atividade do fator VIII e do antígeno do VWF;
  • Alterações discretas nos anticoagulantes naturais (leve queda da antitrombina e proteína S livre, aumento discreto da proteína C).

Alterações no TTPa e Anticorpos Antifosfolipídeos

Durante as fases iniciais da pandemia, relatos indicaram TTPa prolongado e trombocitopenia mais frequentes. Posteriormente, observou-se que muitos pacientes com TTPa prolongado apresentavam anticoagulante lúpico (LA), um achado comum em infecções virais agudas e geralmente transitório.

Diferenças em relação à coagulação intravascular disseminada (CIVD)

Embora haja sobreposição laboratorial com a coagulação intravascular disseminada (CIVD) — como aumento do dímero D —, o estado hipercoagulável associado à COVID-19 se diferencia por níveis elevados de fibrinogênio e fator VIII, sugerindo ausência de consumo coagulatório significativo.

Além disso, na COVID-19, o quadro clínico predominante é trombótico, ao contrário da CIVD descompensada, em que o sangramento é mais comum.

Uma vasculite sistêmica, não apenas pulmonar

A COVID-19 tem sido também entendida como uma vasculite, justamente por provocar inflamação nos vasos sanguíneos sistêmicos, não apenas pulmonares. 

A vasculite decorre de diversos fatores como metabolismo anormal do óxido nítrico, estresse oxidativo que é exacerbado pela supressão dos mecanismos antioxidantes do endotélio. 

Essa vasculite sistêmica e generalizada está relacionada ao acometimento de múltiplos órgãos extrapulmonares na COVID-19. 

Conclusões: endotelite é característica marcante da COVID-19

Vale ressaltar que a fisiopatologia apresentada acima é compartilhada por algumas outras pneumonias virais, e algumas dessas manifestações estão presentes em qualquer paciente em estado crítico.

No entanto, tem sido cada vez mais reconhecido que a endotelite pulmonar e sistêmica causada pela infecção pelo vírus SARS-CoV-2 é tão proeminente, que pode ser considerada uma característica marcante da COVID-19, que a diferencia das demais infecções respiratórias. 

Dados da literatura serão necessários para elucidar ainda mais a fisiopatologia por trás da vasculite associada à COVID-19. 

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Referências

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