Encefalopatia de hashimoto: tudo o que você precisa saber para sua prática clínica!
A encefalopatia de Hashimoto (EH) é uma condição neurológica rara e complexa, associada à tireoidite de Hashimoto, uma doença autoimune que afeta a glândula tireoide. Apesar de não ser diretamente causada por alterações nos hormônios tireoidianos, a encefalopatia está fortemente correlacionada com os processos autoimunes característicos da tireoidite de Hashimoto.
Embora seja pouco conhecida, a encefalopatia de Hashimoto pode ser devastadora, afetando significativamente a qualidade de vida dos pacientes.
O que é a encefalopatia de Hashimoto?
A encefalopatia de Hashimoto é uma condição neurológica rara caracterizada por uma inflamação autoimune no sistema nervoso central (SNC). Apesar de estar associada à tireoidite de Hashimoto, não está diretamente relacionada aos níveis hormonais da tireoide. Assim, pacientes com EH podem estar eutireoidianos (com função tireoidiana normal), hipotireoidianos ou até hipertireoidianos.
A principal característica da EH é a presença de autoanticorpos contra a tireoide, como o antiperoxidase tireoidiano (anti-TPO) e o anti-tireoglobulina, que estão elevados em pacientes com tireoidite de Hashimoto. No entanto, o papel exato desses anticorpos no desenvolvimento dos sintomas neurológicos ainda não é totalmente compreendido.
Quais são as causas da encefalopatia de Hashimoto?
A fisiopatologia da encefalopatia de Hashimoto não é completamente elucidada, mas os pesquisadores acreditam que ela envolva um processo autoimune que afeta o cérebro. As hipóteses principais incluem:
- Autoimunidade do SNC: acredita-se que os autoanticorpos tireoidianos, em alguns casos, possam atacar tecidos ou desencadear respostas inflamatórias no cérebro, levando à disfunção neurológica
- Inflamação cerebral: a inflamação nos vasos sanguíneos cerebrais (vasculite) pode comprometer o fluxo sanguíneo para diferentes áreas do cérebro, resultando assim nos sintomas neurológicos e cognitivos característicos da EH
- Alterações neuroquímicas: desequilíbrios em neurotransmissores ou mecanismos imunológicos podem desempenhar um papel na manifestação dos sintomas.
Embora a tireoidite de Hashimoto seja muito mais comum em mulheres, especialmente na faixa etária de 40 a 50 anos, a encefalopatia de Hashimoto pode ocorrer em qualquer idade e em ambos os sexos.
Quais são os sintomas da encefalopatia de Hashimoto?
Os sintomas da encefalopatia de Hashimoto podem variar amplamente entre os pacientes, tornando o diagnóstico um desafio. Esses sintomas podem ser divididos em categorias principais:
Sintomas cognitivos e psiquiátricos
Dentre os principais sintomas, podemos citar:
- Confusão mental (“brain fog”): dificuldade de concentração, esquecimento e sensação de “lentidão mental”
- Mudanças de humor: ansiedade, irritabilidade e episódios de depressão
- Psicose: alucinações e delírios podem ocorrer em casos mais graves.
Sintomas neurológicos
- Convulsões: episódios epilépticos, incluindo convulsões generalizadas ou focais
- Mioclonias: movimentos musculares involuntários, como espasmos ou contrações bruscas
- Ataxia: dificuldade de coordenação motora, afetando a marcha e o equilíbrio
- Tremores: tremores finos ou grosseiros nas extremidades.
Outros sintomas
- Cefaleia persistente: dores de cabeça que não respondem bem ao tratamento convencional
- Alterações no sono: insônia ou sonolência excessiva
- Estado de coma: em casos extremamente graves e raros, a encefalopatia pode progredir para um estado de coma.
Esses sintomas podem surgir gradualmente ou de forma aguda, variando em intensidade ao longo do tempo.
Diagnóstico da encefalopatia de Hashimoto
O diagnóstico da encefalopatia de Hashimoto é desafiador devido à sua raridade e à ausência de marcadores diagnósticos específicos. Assim, ele se baseia em uma combinação de critérios clínicos, laboratoriais e resposta ao tratamento.
Histórico clínico detalhado
O médico deve investigar os sintomas neurológicos e psiquiátricos, além de um histórico de tireoidite de Hashimoto ou presença de disfunção tireoidiana.
Exames laboratoriais
- Autoanticorpos tireoidianos: níveis elevados de anti-TPO e/ou anti-tireoglobulina são um indicativo importante, embora não sejam exclusivos da EH
- Hormônios tireoidianos: TSH, T3 e T4 são avaliados para determinar a função tireoidiana, mas alterações não são obrigatórias para o diagnóstico de EH.
Exclusão de outras causas:
- Ressonância magnética (RM) cerebral: pode mostrar alterações inespecíficas, mas é útil para descartar outras condições, como tumores, esclerose múltipla ou AVC
- Análise do líquido cefalorraquidiano (LCR): pode revelar pleocitose linfocitária (aumento de glóbulos brancos) ou elevação de proteínas, indicando inflamação.
Resposta ao tratamento
Um dos critérios diagnósticos mais confiáveis é a resposta rápida à terapia com corticosteroides, que confirma a natureza autoimune da encefalopatia.
Quais são as opções de tratamento para a encefalopatia de Hashimoto?
O tratamento da encefalopatia de Hashimoto é direcionado para controlar a inflamação no SNC e tratar os sintomas associados.
Corticosteroides
A terapia de primeira linha envolve altas doses de corticosteroides, como a prednisona, para reduzir a inflamação. Os pacientes geralmente respondem rapidamente, com melhora significativa dos sintomas em dias ou semanas.
Imunossupressores
Em casos resistentes ou recorrentes, medicamentos como azatioprina ou ciclofosfamida podem ser utilizados para suprimir a resposta imunológica.
Imunoglobulina intravenosa (IVIg)
A IVIg é uma alternativa eficaz para pacientes que não toleram ou não respondem aos corticosteroides.
Plasmaférese
Para casos graves ou refratários, pode-se empregar a plasmaférese para remover autoanticorpos do sangue.
Tratamento da função tireoidiana
Embora a função tireoidiana nem sempre esteja alterada na encefalopatia de Hashimoto, qualquer disfunção deve ser tratada para evitar complicações adicionais.
Qual é o prognóstico da encefalopatia de Hashimoto?
O prognóstico da encefalopatia de Hashimoto varia entre os pacientes. A maioria responde bem ao tratamento, com melhora significativa ou completa dos sintomas. No entanto, recidivas são comuns, especialmente em casos onde interrompe-se o tratamento precocemente.
Pacientes que recebem diagnóstico e tratamento precoces têm melhores chances de evitar sequelas neurológicas permanentes. No entanto, é importante manter um acompanhamento regular com uma equipe multidisciplinar, incluindo neurologistas e endocrinologistas.

Por que é importante conhecer a encefalopatia de Hashimoto?
Embora rara, pode-se confundir a encefalopatia de Hashimoto com outras condições neurológicas ou psiquiátricas, como demência, epilepsia, doenças neurodegenerativas ou transtornos de ansiedade. Assim, é crucial que os profissionais de saúde estejam atentos a essa possibilidade, especialmente em pacientes com tireoidite de Hashimoto ou sintomas inexplicáveis.
Para os pacientes, compreender essa condição pode ser um passo importante para buscar ajuda médica e evitar atrasos no diagnóstico e tratamento.
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