Historicamente, a relação médico-paciente (RMP) passou
a se estreitar, de fato, por meio da medicina hipocrática, ainda na Antiguidade
Clássica, caracterizada pela mudança de foco da doença para o doente, para
benefício humano exclusivo. Desde então, a busca pela valorização de um
envolvimento entre médicos e pacientes que transcendesse a gentileza e o
exercício cru da ciência tem se tornado cada dia mais alvo de discussões e de
estudos científicos, em razão dos diversos ganhos comprovados para ambas as
partes.
Entretanto, por mais que se trate de mais uma forma de
relação humana, ainda há profissionais que não conseguem efetivar uma interação
com os seus pacientes capaz de criar um ambiente propício para o diálogo e para
uma anamnese adequada, o que acaba muitas vezes comprometendo o diagnóstico,
haja vista que mais de 70% das identificações das doenças são oriundas de um
bom exame clínico (PORTO 1992).
Nesse processo, o desenvolvimento da empatia na
RMP é importante, porque deixa o paciente mais seguro e disposto a informar com
mais desenvoltura seus problemas, sintomas e dúvidas. A confiança e a
colaboração do paciente são fundamentais para a efetividade dos processos
diagnósticos e terapêuticos, indispensáveis ao encontro clínico.
Todavia, com o avanço dos exames de imagem e da
tecnologia no processo de diagnóstico, por vezes, o aprofundamento da
humanização da relação médico-paciente fica comprometido, haja vista a forma
como esse progresso acaba sendo encarado: não apenas como um meio facilitador,
mas como único método para a identificação de doença.
Essa relação se torna ainda mais evidente em
diagnósticos de casos psiquiátricos, como na síndrome do pânico, quando os
exames não apresentam nenhuma anormalidade, mas o mal-estar é verdadeiramente
descrito pelo paciente, havendo a necessidade de uma boa comunicação entre os
dois atores para a identificação do quadro.
Sob essa ótica, estudos como o de Caprara e Franco
(1999) abordaram tal contexto, com uma epígrafe de Cassel, um artigo relevante
para analisar a RMP: “A tarefa da medicina no séc. XXI será a descoberta
da pessoa […]”. Resumidamente, os estudos convergiram também para a
problemática do aparato técnico científico da medicina moderna, para a
necessidade da empatia da prática médica e dos aspectos comunicacionais como
fatores preponderantes do encontro clínico.
Nesse sentido, é importante que o médico consiga equilibrar
a medicina como ciência e como arte, ao estabelecer uma relação com pacientes
de diferentes formações sociais e culturais, tendo que extrair o máximo de
descrição das suas falas e, ao mesmo tempo, conseguindo transmitir informações
sobre o quadro clínico e sobre à adesão ao tratamento. Assim, fazer um questionário direcionado, obtendo informações
importantes sobre a história atual e pregressa do paciente e conjecturar hipóteses diagnósticas, com excelência, sem partilhar do estado emocional
e cognitivo do outro, é praticamente impossível.
Diante do exposto, urge uma formação acadêmica que
treine sistematicamente qualidades humanísticas em seus estudantes, posto que a
RMP é constituída de complexos processos psicossociais, que envolvem diversas
complicações. Assim, tem sido uma tendência que muitas instituições, inclusive
no Brasil, promovam uma abordagem curricular diferenciada, a qual garanta,
entre outras características, um aprendizado de como os alunos podem
estabelecer vínculos de empatia com seus futuros pacientes.
Aos profissionais já formados, cabe a constante busca
por acompanhar os avanços da medicina humanizada, que já vem demonstrando, há
séculos, sinais do seu sucesso no universo clínico.