Define-se a hiperplasia prostática benigna (HPB) como um aumento anormal no número total de células estromais e epiteliais glandulares prostáticas dentro da zona de transição da próstata.
A prevalência mundial estimada de HPB é de acima de 80% em homens acima dos 70 anos de idade, sendo que destes, cerca de 25% são acometidos por sintomas moderados e graves dos sintomas do trato urinário baixo (LUTS), impactando negativamente na qualidade de vida.
Diagnóstico da embolização arterial
O diagnóstico é realizado através dos sintomas típicos de LUTS (abordados posteriormente), sendo imprescindível a realização do exame digital da próstata para estimação do volume prostático e busca por neoplasia.
Além disso, a realização de um exame de urina, creatinina sérica e PSA se faz necessário, tanto para o diagnóstico quanto para descartar outras patologias.
Por fim, a ultrassonografia é um exame tecnicamente simples e de fácil acesso que pode favorecer informações importantes relacionadas ao resíduo pós-miccional bem como medição do volume prostático.
Anatomia prostática

Fonte: UpToDate
Sintomas do trato urinário inferior (LUTS)
O termo abreviado LUTS (Lower Urinary Tract Symptoms) pode ser relatado pela população masculina como sendo uma mistura de sintomas urinários inferiores, relacionados ao armazenamento de urina, esvaziamento e pós-miccional, geralmente com flutuação ao longo do tempo, podendo ocorrer até mesmo remissão espontânea.
- Sintomas de armazenamento: urgência miccional, polaciúria, noctúria, incontinência e sensação anormal da bexiga
- Sintomas de esvaziamento: fluxo lentificado ou reduzido, fluxo intermitente, hesitação, esforço miccional, disúria
- Sintomas pós-miccional: sensação de esvaziamento incompleto, perda involuntária da urina após micção
Devido a grande variedade dos sintomas possíveis, para melhor compreensão e estratificação do quadro clínico em leve/moderado/grave, foi criado o escore International Prostate Symptom Score (I-PSS) que estratifica a sintomatologia conforme o somatório dos pontos. Veja mais sobre o I-PSS clicando aqui[GAG1] .
Tratamentos possíveis para HPB
- Tratamento farmacológico:
– Bloqueadores dos receptores alfa-adrenérgicos: doxasozina, tansulosina
– Inibidores da fosfodieterase tipo 5 (PDE-5): Tadalafila (cialis)
– Inibidores de 5-alfa-redutase (5-ARIs): finasterida e dutasterida
– Agentes colinérgicos: oxibutinina
– Terapias medicamentosas combinadas
- Cirurgia minimamente invasiva:
– Terapia térmica de vapor de água
– Elevação uretral prostática
- Terapias de ablação:
– Ressecção transuretral monopolar da próstata
– Ressecção transuretral bipolar da próstata
– Vaporização transuretral da próstata
– Incisão transuretral da próstata
– Vaporização fotoseletiva da próstata
– Enucleação a laser da próstata
– Tratamento robótico de jato d’água
– Terapia de micro-ondas transuretrais
– Prostatectomia simples
- Terapias emergentes:
– Embolização arterial prostática
Definição e indicação para realização de EAP
A embolização arterial prostática (EAP), abreviada em inglês por PAE (Prostate Artery Embolisation), surgiu como uma nova técnica endovascular que pode vir a ser utilizada como alternativa às técnicas mais invasivas no tratamento dos sintomas baixos do trato geniturinário.
Não existe uma indicação formal para a realização do procedimento, mas por ser minimamente invasiva, torna-se uma opção naqueles pacientes idosos e com maior risco cirúrgico que contraindiquem a realização de uma terapia mais invasiva, como por exemplo a Ressecção Uretral da Próstata (RTUP) ou a prostatectomia.
Técnica do procedimento de EAP
- Realizada sob anestesia local
- 400mg IV de Ciprofloxacino antes do procedimento e 500mg VO 12/12 horas durante 7 dias após o procedimento
- Analgesia e anti-inflamatórios após o procedimento se necessário
- De modo a promover uma boa orientação na localização prostática e nas estruturas pélvicas relacionadas, um balão da sonda Foley 16 é introduzido na bexiga e insuflado com uma mistura de 30% de iodo contrastado e 70% de solução salina. Essa etapa visa evitar a embolização de outras artérias que não as prostáticas.
- Assepsia e antissepsia da região a ser realizada a punção (inguinal bilateral)
- Anestesia local
- Pode ser realizada a abordagem por via femoral unilateral
- Faz-se a punção e cateterismo da artéria femoral comum unilateral com introdutor valvulado 5 French, e após é realizado o cateterismo seletivo da artéria ilíaca interna com outro cateter específico
OBS: O conhecimento da anatomia vascular da próstata é fundamental para o procedimento. A nomenclatura arterial, utilizada pela maioria dos urologistas, para o local do procedimento é a Artéria Vesical Inferior (AVI) que geralmente surge do segundo ou terceiro ramo do tronco anterior da artéria ilíaca interna.
- Uma angiografia da região pélvica, nas posições PA, oblíqua esquerda e direita é realizada após infusão de contraste par avaliação da irrigação local através do cateter alocado dentro da AVI e injeta o contraste no óstio da artéria prostática
- A embolização é realizada utilizando microesferas do tipo Embospheres® de 300-500um até que seja obtida a estase dos vasos que nutrem a próstata
- Por último se realiza uma arteriografia das artérias ilíacas internas para avaliar a desvascularização da próstata buscando possíveis efeitos colaterais.
- Após o procedimento o paciente fica 4-6 horas em observação, sem se movimentar, para evitar sangramentos ou complicações no local da punção.
- A sonda Foley é removida após 2-4 horas do procedimento

Fonte: adaptado de Gonçalves, 2017, pg. 36.
Vantagens da EAP, critérios de sucesso e seguimento
- Não necessita de internação hospitalar, somente algumas horas de observação após
- Realizado sob anestesia local
- Sem manipulação uretral (somente passagem de sonda vesical para manter o débito urinário)
- Pode ser realizada para próstatas de qualquer tamanho
- Dificilmente causa alterações na função sexual
- Utilizada em paciente considerados de alto risco e com baixa performance para cirurgias convencionais
- Pode ser feita em pacientes que estão utilizando medicamentos do tipo anticoagulantes ou antiagregantes plaquetários
- Baixo risco de sangramento
- Critérios de sucesso técnico: embolização das artérias prostáticas bilateral
- Critérios de sucesso clínico: retirada da sonda vesical Foley nos pacientes com retenção urinária aguda, melhora dos sintomas de LUTS de acordo com o IPSS e QoL, sem presença de distúrbios sexuais, sem eventos adversos graves após procedimento
Ponto importante: após a embolização pode ocorrer uma inflamação da próstata somada à isquemia, que é vista através do aumento dos níveis do PSA, cerca de 10-20x o valor de base após 24hs da embolização. Porém, após 1 mês, o valor tende a decrescer e estabilizar nos valores normais.
Considerações finais
A embolização arterial prostática surgiu como uma alternativa ao tratamento convencional para HPB e suas limitações técnicas estão relacionadas principalmente a alterações da vascularização prostática nos pacientes idosos, como por exemplo a tortuosidade dos vasos, arteriosclerose, variações anatômicas que dificultam a abordagem correta da irrigação prostática, dentre outras.
Embora o padrão-ouro para o tratamento da HPB seja a RTUP, aqueles que não se enquadram como candidatos ao tratamento convencional, podem ser beneficiados e tratados seguramente com a EAP, melhorando os sintomas de LUTS e diminuindo consideravelmente as dimensões prostáticas.
Referências
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[GAG1]https://www.ufrgs.br/telessauders/documentos/protocolos_resumos/urologia_escore_internacional_sintomas_prostaticos_TSRS.pdf
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