A elefantíase, também conhecida como filariose linfática, é uma doença parasitária crônica causada por vermes nematóides transmitidos por mosquitos.
Caracteriza-se pelo comprometimento do sistema linfático, que leva ao acúmulo progressivo de linfa nos tecidos e ao consequente inchaço deformante, especialmente em membros inferiores, genitais e mamas. Trata-se, portanto, de um agravo de grande relevância para a saúde pública em regiões tropicais e subtropicais, como o Brasil, onde ainda persiste em áreas endêmicas.
Além do sofrimento físico, a elefantíase provoca impacto psicológico, social e econômico nos indivíduos acometidos, exigindo uma abordagem terapêutica ampla e medidas eficazes de prevenção e controle.
Epidemiologia da elefantíase
Estima‑se que cerca de 120 milhões de pessoas ainda vivam com a infecção em 72 países, concentradas nos climas tropicais e subtropicais da Ásia, África, Pacífico Ocidental, América do Sul e Caribe.
Do ponto de vista demográfico, homens são afetados mais que mulheres, e metade dos casos ocorre entre 30 e 40 anos, a fase mais produtiva da vida. Além disso, nas áreas endêmicas, até um terço das crianças já apresenta infecção subclínica por W. bancrofti antes dos cinco anos, o que sugere exposição precoce e possível influência de fatores maternos.
Ademais, o impacto socioeconômico é marcante: cerca de 36 milhões de pessoas sofrem incapacidades graves (linfedema, hidrocele), resultando em perda anual significativa de dias de trabalho e produtividade. Mesmo após a interrupção da transmissão, as sequelas crônicas persistem, sublinhando a necessidade de vigilância, reabilitação e apoio psicossocial contínuos.
Agentes etiológicos e formas de transmissão da elefantíase
A elefantíase é provocada por parasitas nematóides, principalmente das espécies Wuchereria bancrofti, Brugia malayi e Brugia timori.
A transmissão, por sua vez, ocorre por meio da picada de mosquitos infectados, pertencentes a diversos gêneros, como Aedes, Anopheles, Culex, Mansonia e Ochlerotatus, cuja distribuição varia de acordo com a região geográfica.
Fisiopatologia da elefantíase
A fisiopatologia da elefantíase tem início quando larvas do parasita, introduzidas na corrente sanguínea pela picada de mosquitos vetores, migram para os linfonodos, especialmente os femorais, onde amadurecem e transformam-se em vermes adultos.
No ambiente linfático, ocorre a reprodução sexuada entre os vermes, e as fêmeas liberam microfilárias em grande quantidade, que circulam no sangue com padrão geralmente noturno. Esses parasitas adultos podem sobreviver por até nove anos, e as fêmeas continuam produzindo ovos por cerca de cinco anos, o que mantém a infecção ativa por longos períodos.
Com a multiplicação dos vermes adultos, ocorre obstrução progressiva dos vasos linfáticos, o que compromete a drenagem da linfa e favorece o aparecimento de linfedema crônico. Essa estase linfática predispõe o paciente a infecções bacterianas e fúngicas recorrentes, principalmente por estreptococos ou fungos, que intensificam a inflamação.
A combinação de processos inflamatórios agudos e crônicos provoca fibrose dos vasos linfáticos e remodelamento tecidual, agravando ainda mais a disfunção do sistema linfático.
Manifestações clínicas da elefantíase
As manifestações clínicas da elefantíase variam amplamente de acordo com o estágio da infecção e a resposta imunológica do hospedeiro.
Enquanto muitos indivíduos em áreas endêmicas permanecem assintomáticos por longos períodos, outros desenvolvem sintomas agudos ou evoluem para formas crônicas e debilitantes da doença.
Forma subclínica
A maioria dos moradores de regiões endêmicas são assintomáticos, mas exames podem revelar alterações silenciosas, como dilatação e disfunção dos vasos linfáticos, linfangiectasia escrotal ao ultrassom, micro‑hematúria ou proteinúria, além de eosinofilia e IgE elevadas.
Quadro agudo
Quando sintomática, a fase inicial caracteriza-se por episódios autolimitados que duram poucos dias:
- Adenolinfangite aguda (ADL): febre súbita, linfadenopatia dolorosa e linfangite retrógrada, sendo os linfonodos inguinais e as extremidades infeiores os principais locais envolvidos.
- Dermatolinfangioadenite (DLA): placas cutâneas edemaciadas acompanhadas de febre, calafrios e mialgia, geralmente precipitada por infecção bacteriana superficial em pele lesionada.
- Febre filarial: picos febris isolados, sem linfadenite evidente.
- Eosinofilia pulmonar tropical: tosse e sibilância noturna decorrentes de resposta imune exagerada a microfilárias retidas no pulmão.
Complicações crônicas
As complicações crônicas resultam da obstrução linfática persistente e da inflamação repetida e incluem:
- Linfedema: edema progressivo dos membros, que inicia-se depressível e evolui para edema endurecido e não depressivo, com hiperqueratose e hiperpigmentação.

- Hidrocele: aumento volumoso do escroto por acúmulo de linfa, podendo ultrapassar 30 cm de diâmetro, o que causa desconforto significativo.
- Envolvimento renal: quilúria (urina leitosa pela perda de linfa), hematúria e proteinúria podem ocorrer em pacientes com elefantíase.
Diagnóstico da elefantíase
Considera-se o diagnóstico da elefantíase em pessoas com exposição epidemiológica em áreas endêmicas, especialmente aquelas que apresentam sintomas agudos (como febre, adenolinfangite e eosinofilia) ou complicações crônicas (como linfedema, hidrocele ou quilúria).
No entanto, a presença de estigmas sociais e a natureza discreta de certos sintomas podem dificultar o relato e a identificação precoce dos casos, o que reforça a importância da capacitação dos profissionais de saúde para o reconhecimento clínico precoce.
O diagnóstico definitivo pode ser feito por diferentes métodos:
- Testes de antígeno filarial circulante (CFA): são específicos para Wuchereria bancrofti e detectam antígenos liberados pelos vermes adultos, mesmo na ausência de microfilárias no sangue.
- Esfregaço de sangue: permite a visualização direta das microfilárias, preferencialmente com amostras coletadas entre 22h e 2h, quando a parasitemia é mais alta.

- Testes moleculares (PCR): detectam DNA específico do parasita, mas ainda não são amplamente disponíveis comercialmente.
- Sorologia (anticorpos antifilariais): úteis em viajantes, mas não distinguem infecção ativa de exposição prévia, sendo de valor limitado em áreas endêmicas.
- Exames de imagem: o ultrassom pode identificar vermes adultos em movimento nos vasos linfáticos (sinal da “dança filarial”). Já a linfocintilografia avalia alterações na drenagem linfática e pode detectar lesões precoces.
Abordagem terapêutica da elefantíase
O tratamento da filariose linfática tem como objetivo principal a eliminação dos parasitas responsáveis pela doença, visando tanto a redução da carga microfilarial quanto a destruição dos vermes adultos, prevenindo assim a progressão das complicações clínicas.
Além do manejo etiológico, é fundamental abordar as sequelas crônicas, como linfedema e hidrocele, por meio de cuidados específicos que melhoram a qualidade de vida dos pacientes.
Avaliação pré-tratamento
Antes de iniciar o tratamento da filariose linfática, é essencial investigar a presença de coinfecção por loíase e/ou oncocercose, já que a administração de certos medicamentos antiparasitários pode desencadear reações inflamatórias graves, incluindo risco de encefalopatia em casos de coinfecção.
Tratamento etiológico
Institui-se o tratamento antiparasitário da filariose linfática mesmo na ausência de sintomas clínicos, pois alterações linfáticas precoces podem ser reversíveis com a eliminação do parasita.
Portanto, recomenda-se a dietilcarbamazina (DEC) por 12 dias nos casos de monoinfecção por Wuchereria bancrofti, Brugia malayi ou B. timori. O fármaco possui efeito tanto sobre as microfilárias quanto, parcialmente, sobre os vermes adultos. Entre os efeitos adversos, destacam-se febre, cefaleia, náusea, artralgias e mal-estar geral, sintomas geralmente relacionados à resposta imunológica desencadeada pela morte dos parasitas.
Nos casos em que a DEC não está disponível ou é contraindicada, há duas opções eficazes:
- Doxiciclina, que atua indiretamente sobre os vermes ao eliminar a Wolbachia, bactéria simbiótica essencial para a sobrevivência das filárias
- Albendazol, anti-helmíntico da classe benzimidazol, que age sobre os vermes adultos, levando à redução progressiva da microfilaremia.
Manejo das complicações crônicas
As manifestações tardias da elefantíase, como linfedema, hidrocele e quilúria, exigem abordagens específicas associadas ao tratamento etiológico.
Linfedema
A base do cuidado inclui higiene rigorosa das extremidades afetadas (duas vezes ao dia), uso de cremes antibacterianos em escoriações, manutenção das unhas limpas, uso de calçados adequados, além de exercícios regulares e elevação do membro à noite. Além disso, em alguns casos, a fisioterapia descongestiva pode ser benéfica.
Hidrocele
A hidrocele filarial, que pode alcançar grandes volumes, pode ser tratada com drenagem escrotal, embora haja alta taxa de recorrência. Nesse contexto, a hidrocelectomia é considerada o procedimento de escolha quando disponível, proporcionando alívio mais duradouro, dependendo da experiência da equipe cirúrgica.
Quilúria
Nos casos de eliminação de linfa pela urina (quilúria), que pode causar perdas proteicas significativas e deficiências nutricionais, recomenda-se uma dieta com baixo teor de gordura e alto teor proteico, complementada com triglicerídeos de cadeia média.
Prevenção da elefantíase
A prevenção da elefantíase baseia-se principalmente em duas estratégias: a administração massiva de medicamentos e o controle dos mosquitos transmissores.
A administração em massa busca reduzir a quantidade de microfilárias no sangue a níveis que impeçam a transmissão sustentada da doença, especialmente visando Wuchereria bancrofti, pois não há reservatórios animais para essa espécie. Esse método envolve o uso de combinações de medicamentos como dietilcarbamazina (DEC), ivermectina e albendazol, aplicados anualmente em áreas endêmicas, e tem sido amplamente implementado em dezenas de países com sucesso significativo na redução da transmissão.
Paralelamente, o controle dos vetores, por meio do uso de repelentes e mosquiteiros tratados com inseticidas, complementa a prevenção ao reduzir o contato humano com os mosquitos que transmitem a filariose.
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Referências
- Klion, A. D. Lymphatic filariasis: Epidemiology, clinical manifestations, and diagnosis. UpToDate, 2024.
- Klion, A. D. Lymphatic filariasis: Treatment and prevention. UpToDate, 2025.
- Newman, T. E.; Juergens, A. L. Filariose. National Library of Medicine, 2023.