Confira no artigo da Dra. Gabriela Noronha com as principais informações sobre o tratamento do eflúvio telógeno.
Introdução e fisiopatologia
“Dra. meu cabelo está caindo muito!” Esta queixa é extremamente recorrente e a sua principal causa é o efluvio telógeno agudo. O eflúvio telógeno é uma forma comum de alopecia não cicatricial, caracterizada pela perda difusa de fios devido à alteração do ciclo capilar.
Em condições normais, o folículo piloso passa por três fases distintas: anágena (crescimento), catágena (transição) e telógena (repouso). Aproximadamente 85-90% dos folículos capilares encontram-se na fase anágena, enquanto cerca de 10-15% estão na fase telógena. O eflúvio telógeno ocorre quando um número anormalmente alto de folículos entra prematuramente na fase telógena, resultando em queda capilar difusa.
A fisiopatologia do eflúvio telógeno envolve uma série de eventos que desencadeiam a transição precoce dos folículos da fase anágena para a telógena. Esses eventos podem incluir fatores endógenos e exógenos que causam uma interrupção no ciclo capilar normal.
O mecanismo exato é complexo e multifatorial, frequentemente relacionado ao impacto do estresse no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, que influencia a síntese de cortisol e outras citocinas inflamatórias, afetando diretamente a saúde dos folículos capilares.
Mecanismo de queda
Os cinco mecanismos propostos pelos quais a queda de cabelo pode ocorrer no eflúvio telógeno são:
- Liberação anágena imediata: Isso é devido a uma causa subjacente. Os folículos deixam a fase anágena e entram na fase telógena prematuramente, levando ao aumento da queda dois a três meses depois
- Liberação anágena retardada: Isso é devido à prolongação da fase anágena resultando em queda intensa na fase telógena
- Síndrome do anágeno curto: Isso é devido ao encurtamento idiopático da fase anágena, levando ao eflúvio telógeno persistente. A patogênese da maioria dos casos de eflúvio telógeno crônico é considerada a síndrome do anágeno curto
- Liberação telógena imediata: Isso é devido ao encurtamento da fase telógena, resultando em uma liberação massiva de cabelos
- Liberação telógena retardada: Isso é devido à fase telógena prolongada e uma transição retardada para a fase anágena.
Eflúvio telógeno crônico
O eflúvio telógeno crônico é uma condição que dura mais de seis meses. O distúrbio afeta principalmente mulheres de meia-idade, tendo um curso prolongado e flutuante.
Eflúvio telógeno agudo
O eflúvio telógeno agudo é definido como a queda de cabelo que dura menos de seis meses. Geralmente, a queda de cabelo ocorre dois a três meses após a exposição ao gatilho.
Em cerca de 33% dos casos, a causa permanece desconhecida.
Quadro clínico do eflúvio telógeno agudo
Os pacientes costumam relatar uma queda de cabelo significativa ao pentear, lavar ou simplesmente passar as mãos pelos cabelos. A quantidade de cabelo perdido pode ser alarmante e tende a assustar o paciente. A duração da queda varia entre 2 a 6 meses com posterior repilação completa em cerca de 95% dos casos.
Os sintomas associados ao eflúvio telógeno agudo incluem:
- Tricodinia: em alguns casos o paciente queixa-se de sensibilidade, dor, queimação, coceira, ardor e alopecia difusa.
- Perda de cabelo difusa e espontânea: afeta todo o couro cabeludo, porém a percepção de rarefação costuma ser maior na região frontal e temporal.
- Ausência de inflamação ou cicatrização: o couro cabeludo apresenta sinais de inflamação ou descamação.
- Ausência de outras alterações capilares: não há miniaturização dos fios ou formação de placas, como visto em outras condições de alopecia.
Teste de tração (pull test)
Ao tracionar o fio, ele se destaca facilmente do couro cabeludo e se apresenta como telógeno.
Tricoscopia
É possível observar um número aumentado de fios na fase telógena. É bem inespecífica. Diferente da alopecia androgenética, o padrão dos fios da região anterior e vértice do couro cabeludo é igual à occipital.
Tricograma
Nos casos de eflúvio telógeno estão presentes mais de 20% de fios telógenos.
Causas do eflúvio telógeno
Estresse Físico e Emocional
O estresse agudo é uma causa bem documentada do eflúvio telógeno. Eventos como cirurgia, trauma, doenças graves ou estresse emocional intenso podem precipitar a queda de cabelo.
O estresse fisiológico leva ao aumento de citocinas pró-inflamatórias e hormônios do estresse, como o cortisol, que podem interferir no ciclo capilar, promovendo a entrada precoce dos folículos na fase telógena.
Distúrbios hormonais
Alterações nos níveis hormonais são causas comuns de eflúvio telógeno. Mulheres podem apresentar eflúvio telógeno no período pós-parto devido à queda abrupta dos níveis de estrogênio.
Distúrbios da tireoide, como hipotireoidismo e hipertireoidismo, também estão associados à condição, devido ao impacto direto dos hormônios tireoidianos no ciclo capilar.
Deficiências nutricionais
Deficiências de ferro, zinco, vitamina D e proteínas estão fortemente associadas ao eflúvio telógeno. O ferro é crucial para a síntese de DNA e RNA nos folículos capilares, enquanto o zinco desempenha um papel na divisão celular e na função imunológica.
Deficiências nutricionais resultam em um ambiente desfavorável para o crescimento capilar, promovendo a entrada dos folículos na fase telógena.
Uso de medicamentos
Diversos medicamentos podem induzir eflúvio telógeno, incluindo pílulas anticoncepcionais orais, andrógenos, retinoides, beta-bloqueadores, inibidores da ECA (enzima conversora de angiotensina), anticonvulsivantes, antidepressivos e anticoagulantes (heparina).
Tratamentos médicos agressivos, como quimioterapia e radioterapia, também causam queda de cabelo significativa ao interromper o ciclo celular dos folículos capilares.
Doenças sistêmicas
Doenças agudas, como a Dengue e a COVID 19; ou crônicas, como lúpus, insuficiência renal e hepática, HIV, sífilis secundária e dermatomiosite podem contribuir para o eflúvio telógeno.
Estas condições frequentemente envolvem inflamação sistêmica e desequilíbrios metabólicos, que afetam negativamente o crescimento capilar.
Diagnósticos diferenciais de eflúvio telógeno
Alopecia androgenética
Alopecia androgenética é caracterizada pelo afinamento dos fios e redução do volume capilar. A queda pode estar associada, mas costuma ser em menor monta e em padrão característico.
Alopecia areata
Alopecia areata é uma doença autoimune que resulta na queda de cabelo em áreas bem delimitadas; em alguns casos poder ser generalizada. Diferente do quadro de eflúvio telógeno, onde a queda não leva a placas alopeciais.
Tricotilomania
Tricotilomania é um distúrbio psiquiátrico que envolve a compulsão de arrancar o próprio cabelo, resultando em padrões irregulares de alopecia.
A observação de cabelos de diferentes comprimentos e fios fraturados pode ajudar a diferenciar esta condição do eflúvio telógeno.
Tinea capitis
Infecções fúngicas do couro cabeludo, como a tinea capitis, podem causar perda de cabelo em áreas específicas.
Manifestações como eritema, descamação e prurido são características importantes para o diagnóstico.
Eflúvio anágeno
Eflúvio anágeno ocorre quando o bulbo capilar é danificado durante a fase anágena, geralmente devido a exposições tóxicas ou quimioterapia. A queda de cabelo é mais abrupta e severa em comparação com o eflúvio telógeno.
Investigação diagnóstica
A investigação diagnóstica do eflúvio telógeno deve ser abrangente e sistemática, visando identificar a causa subjacente e excluir outras condições que causam queda de cabelo.
Atendimento do paciente com eflúvio telógeno
Anamnese
Uma história clínica detalhada é fundamental, você precisa ajudar o paciente a recordar dos acontecimentos dos últimos meses. Perguntas devem abranger:
- Eventos estressantes recentes (cirurgia, trauma, doenças graves, maratona, estresse emocional)
- Alterações hormonais (pós-parto, mudança de anticoncepcional, distúrbios da tireoide)
- Mudanças na dieta e hábitos alimentares (restrições alimentares, perdas de peso significativas)
- Uso de novos medicamentos ou tratamentos médicos
- Sintomas associados a doenças sistêmicas (fadiga, perda de peso, alterações cutâneas)
Exame físico
O exame físico deve incluir uma inspeção cuidadosa do couro cabeludo e do cabelo. Aspectos a serem observados incluem:
- Padrão e distribuição da queda de cabelo
- Presença de inflamação, eritema ou descamação
- Inspeção de outras áreas pilosas do corpo para sinais de perda de cabelo
Exames laboratoriais
Neste caso, testes laboratoriais são essenciais para identificar causas subjacentes:
- Hemograma completo
- Dosagem de ferritina
- TSH e hormônios tireoidianos
- Zinco, 25 hidroxi vitamina D, vitamina B12
- VDRL, FTA ABS IgG / IgM
Tricoscopia
A tricoscopia é uma ferramenta útil para visualizar o couro cabeludo e os folículos capilares em maior detalhe. No eflúvio telógeno agudo, a tricoscopia é bem inespecífica:
- Folículos pilosos curtos e finos: Indicativos de regeneração capilar.
- Número aumentado de fios em fase telógena
- Ausência de miniaturização capilar: Diferenciação de alopecia androgenética.
- Hastes capilares sem alterações significativas: Diferenciação de outras condições inflamatórias ou cicatriciais.
Biópsia do couro cabeludo
Não costuma ser necessário, pois o diagnóstico é clínico. A histopatologia é inespecífica e se assemelha à do couro cabeludo normal. Pode-se observar uma razão anágeno:telógeno normal ou um pouco aumentada. Miniaturização folicular e infiltrado peribulbar não são encontrados.
Tratamento do eflúvio telógeno
O tratamento do eflúvio telógeno envolve abordar a causa subjacente e fornecer suporte ao paciente durante a recuperação capilar. A eliminação ou manejo do fator desencadeante, como o estresse, deficiências nutricionais ou ajuste de medicamentos, é fundamental.
Pode-se indicar a suplementação com vitaminas e minerais essenciais para corrigir deficiências nutricionais. Receitar vitaminas que o paciente não possui déficit não reduz o tempo de doença ou acelera a recuperação.
Medidas de suporte
Deve-se informar aos pacientes sobre a natureza temporária e reversível do eflúvio telógeno, o que alivia a ansiedade e promove a adesão ao tratamento.
Em alguns casos, pode-se prescrever medicamentos tópicos como o minoxidil para estimular o crescimento capilar, embora seu uso no eflúvio telógeno não seja amplamente respaldado por evidências robustas.
Monitoramento e seguimento
O seguimento regular é interessante para monitorar a resposta ao tratamento e ajustar as intervenções conforme necessário. A maioria dos pacientes apresenta melhora significativa dentro de seis meses após a eliminação do fator desencadeante, com recuperação completa do crescimento capilar.

Conclusão
O eflúvio telógeno é uma condição que requer uma avaliação clínica abrangente para identificar a causa subjacente e distingui-la de outras formas de queda de cabelo e alopecias. Com uma abordagem diagnóstica cuidadosa e tratamento direcionado (quando necessário), o paciente tende a evoluir com repilação completa. A educação do paciente sobre a natureza temporária e reversível do eflúvio telógeno é crucial para aliviar a ansiedade e promover a adesão ao tratamento.
Prontos para diferenciarem o eflúvio telógeno de outras afecções capilares agora? Caprichem sempre na investigação!
Autoria
Dra. Gabriela Noronha, médica dermatologista
CRM/SP 177979
RQE 80095
Referências bibliográficas
- Asghar F, Shamim N, Farooque U, Sheikh H, Aqeel R. Telogen Effluvium: A Review of the Literature. Cureus. 2020 May 27;12(5):e8320.
- Rebora A. Telogen effluvium: a comprehensive review. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2019 Aug 21;12:583-590.
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