O que são opioides
O ópio é uma substância alcaloide extraída da Papaver Somniferum, conhecida como papoula do oriente. Esta planta já era cultivada antes de Cristo e, devido aos seus efeitos fisiológicos e psíquicos, já foi motivo de guerra (Guerra do Ópio – século XIX); ainda hoje é considerada, em países como os EUA, uma emergência de saúde pública.
Durante a história, há muitos dados sobre seu uso, tanto terapêutico, quanto entorpecente. Na Guerra do Ópio, por exemplo, já a usavam para causar dependência com intuito final do comércio e obtenção de lucro. Na Inquisição, a Igreja Católica condenava seu uso, por acreditarem que estava ligada ao inferno, por causa de seus efeitos hipnóticos e soníferos. Na medicina, nosso foco, esteve presente e ligada a respeitados nomes, como Hipócrates e Paracelsus, que estudaram seus efeitos terapêuticos e até os dias atuais utilizamos essas substâncias e alguns de seus derivados na prática médica.
Curiosidade: os opiáceos são as substâncias naturais derivadas diretamente da papoula e os opioides são qualquer substância, endógena ou sintética, que apresente propriedades semelhantes às da morfina. Portanto, podem ser naturais (morfina, codeína), semi-sintéticos (meperidina, propoxifeno, fentanil) e sintéticos (heroína, metadona).
O ópio é a substância leitosa obtida da cápsula da papoula quando ainda está verde e não floresceu.

A ação do opioide
Os opioides não agem apenas em receptores de opioides no SNC, mas também nos sistemas de mensageiros intracelulares distais e canais iônicos regulados pelos receptores. Desse modo, os receptores cerebrais, neurônios e vias são afetadas por estes agonistas.
A ativação destes receptores ocorre pela ligação às proteínas G e mecanismo de fechamento dos canais de cálcio/abertura dos canais de potássio, resultando em redução da liberação de neurotransmissores e depressão na excitabilidade neuronal.
A diferença entre os opioides é, principalmente, a dose – por exemplo, enquanto 1 dose de morfina produz efeito x, outra droga precisaria de 5 doses para o mesmo efeito.
O uso crônico de opioides altera a função neuronal e provoca adaptações na plasticidade sináptica, ativando o sistema de recompensa. Portanto, causa uma sensação de bem‑estar que gera reforço positivo no uso (um perigo para os pacientes em tratamento de dor crônica).
Quando são indicados?
Sua indicação é, principalmente, para o tratamento de dor crônica ou aguda. Mas também podem ser indicados conforme os efeitos que a droga provoca (antitussígeno e hipnótico) – a codeína é muito utilizada no controle da tosse, enquanto a morfina é indicada no caso de dores intensas, e a heroína não é prescrita (droga ilegal) por ter efeitos mais maléficos que benéficos, induzindo o indivíduo a altíssima dependência.
Neste sentido, é relevante discutir a prescrição destas drogas, sendo preciso acompanhamento médico da analgesia e efeitos colaterais. É ideal tratar a dor apenas enquanto a dor existe, tomando cuidado para não prolongar o tratamento além do necessário, evitando aumentar, assim, a exposição do paciente. Estima-se que quase 25% dos pacientes tratados com opioide criam um grau de dependência, recorrendo ao mercado ilegal ou remédios de alguém de seu núcleo familiar quando sua receita médica acaba. Assim, ganha espaço o tráfico de heroína, devido aos seus efeitos semelhantes e fácil acesso na ilegalidade.
Mecanismo de tolerância e dependência
Nos EUA, o uso indiscriminado é considerado uma epidemia. O consumo, por exemplo, de fentanil gera grandes custos à saúde. Uma das teses que justificam este evento nos EUA e também na Europa está relacionada aos seus envolvimentos em guerras – os soldados se viciavam e, quando retornavam ao seu país, já estavam dependentes.
Curiosidade: a heroína foi sintetizada no final do século XIX e comercializada pela farmacêutica Bayer por vários anos, até seu uso ser proibido nos anos 1910, o que abriu brechas para o comércio ilegal e tráfico.
- Tolerância: diminuição do efeito da droga por meio da adaptação a uma exposição contínua, sendo necessário aumentar a dose da droga para obter o mesmo efeito. Exemplo: para obter efeito x, o indivíduo precisava consumir y da droga. Agora, para obter o mesmo efeito x, precisa consumir 2y e assim gradativamente.
- Dependência: a síndrome de dependência de opioides é também chamada de adicção. Trata-se da necessidade de consumo da droga para evitar sintomas de abstinência, caracterizada por uma gama de sinais e sintomas que definem a dependência química. Os opioides e opiáceos são substâncias muito aditivas e com alto potencial para dependência. A exposição continuada e a adaptação a essas substâncias iniciam um processo de habituação, cerebral e comportamental. Os grupos de maior risco para dependência são os usuários de heroína, os pacientes com dor crônica e os profissionais da saúde.
Abstinência
Podem ser observados sintomas após uso regular de um opioide por apenas alguns dias, incluindo os receitados como analgésicos. São reações fisiológicas e psicológicas que ocorrem devido à interrupção ou diminuição da dose da substância. São eles: humor deprimido, ansiedade, disforia, piloereção, lacrimejamento ou rinorreia, hiperalgesia, dores articulares e musculares, diarreia, bocejos, cãibras, náusea ou vômitos, dilatação pupilar, fotofobia, insônia, hiperatividade autonômica etc.
Os efeitos da heroína duram entre 3 a 5 horas e os sintomas de abstinência já surgem após 8 horas sem uso. A abstinência pode ter curso agudo (7-10 dias) e fase secundária (até 30 dias), ainda bastante sintomática.
Overdose
Uma superdosagem pode gerar, frequentemente, um quadro agudo de estimulação cerebral seguida de depressão do SNC, podendo ser fatal.
Podem ser efeitos: pupilas puntiformes ou midríase, depressão respiratória, mucosas azuladas, edema pulmonar e cardíaco, arreflexia, rigidez muscular, coma, hipotermia, hipotensão, bradicardia, choque, aumento da pressão intracraniana, arritmia cardíaca, convulsões, morte.
Em casos de suspeita de overdose, podem ser usados antagonistas dos receptores opioides, como naloxona e naltrexona, evitando um quantitativo assustador de óbitos.
O fármaco naltrexona, com seu metabólito ativo, tem ajudado muitos pacientes a reverterem casos de overdose, por ser um antagonista opioide, competindo pelos mesmos receptores.
Curiosidade: o mesmo fármaco também é utilizado para o tratamento de dependência pelo álcool, diminuindo o prazer em beber e, consequentemente, o ímpeto pelo consumo.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
Ópio e morfina – Ministério da Saúde: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/folder/10006002623.pdf
Projeto Diretrizes – Abuso e Dependência dos Opioides e Opiáceos: ttps://diretrizes.amb.org.br/_BibliotecaAntiga/abuso_e_dependencia_de_opioides.pdf
Capítulo 446 do livro Medicina Interna de Harrison: 20 º edição.
Capítulo 43 do livro Tratado de Farmacologia Clínica de Gilberto de Nucci.
Porque o Brasil escapou ileso da droga que virou epidemia nos EUA e na Europa: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-41753994
Diretrizes para o tratamento de pacientes com síndrome de dependência de opioides no Brasil: https://www.scielo.br/pdf/rbp/v26n4/a11v26n4