O que é um dreno?
Antes de conceituar o que é um dreno pigtail, precisamos estabelecer alguns conceitos que inicialmente podem parecer confusos. Quando dizemos que um determinado instrumental cirúrgico é uma sonda, um dreno ou um cateter, você sabe exatamente o que isso significa? Vamos lá.
- Uma sonda é um instrumento que introduzimos através de um orifício natural, podendo ser maleável ou rígida. Ela terá a função de extração ou inserção de um determinado conteúdo. Por exemplo, a sonda vesical tem a finalidade de extrair a urina em casos de retenção ou incapacidade de urinar espontaneamente, sendo introduzida através da uretra. A sonda nasoenteral, por outro lado, é introduzida a partir da cavidade nasal até a porção proximal do intestino, e tem como uma de suas funções suprir uma via alimentar alternativa para pacientes que não podem se alimentar por via oral.

Figuras 1 e 2 – Sonda vesical (acima) e sonda nasoenteral (abaixo).
- Cateteres são tubos que podem tanto ter a função de retirada quanto de infusão de fluidos (soro, sangue, medicamentos), e também podem ser usados em hemodiálise e quimioterapia. Para isso, eles são introduzidos em vasos sanguíneos ou dutos, de forma geral.
- Drenos são tubos com a finalidade de drenagem de fluidos, sendo conectados, em sua maioria, de uma cavidade para um sistema de coleta localizado exteriormente. Podem ter finalidade terapêutica, como iremos abordar a seguir, ou de monitorização de possíveis complicações do pós-operatório, como infecções e sangramentos.
O que é o dreno pigtail?
Veja só, agora que conceituamos esses termos, podemos falar propriamente do pigtail. Aqui, iremos abordá-lo como um dreno, com as características que citamos anteriormente. No entanto, não é incomum encontrar na literatura referências como o “cateter pigtail”, isso porque este tubo também pode ser inserido em dutos ou vasos, como na angiografia coronária, quando o inserimos através de um caso para infundir contraste e avaliar se há alguma obstrução ou oclusão ao fluxo das artérias coronárias no coração.
Mas vamos ao que interessa: o que é então o dreno pigtail?
O pigtail é um tubo fino, com um orifício final e outros orifícios paralelos, que tem este nome devido à sua terminação, que se assemelha a um rabo de porco (pigtail, do inglês). Sua aplicabilidade clínica principal é a drenagem de tórax, que será discutida na próxima sessão.


Aplicação Clínica: Drenagem de tórax
Vamos propor um caso clínico: criança de 5 anos, previamente hígida, é trazida pela mãe ao pronto-socorro com história de febre aferida de 39°C, tosse produtiva, cansaço e dor no corpo há 5 dias. Chegou a buscar outro pronto atendimento 2 dias atrás, onde foram prescritos somente remédios sintomáticos para dor e febre. A mãe está preocupada, dizendo que o cansaço do seu filho está piorando e que desde ontem ele está mais ofegante.
Ao examinar esse paciente, você percebe uma discreta redução da expansão do tórax ao lado direito. A percussão da porção inferior do lado direito do tórax também parece mais maciça, diferentemente das outras regiões em que o som é característico de ar (som claro pulmonar). Ao auscultar o paciente, você percebe que os murmúrios vesiculares (sons fisiológicos da respiração) também estão mais abafados nessa região (como se algum anteparo mais sólido dificultasse a transmissão desse som) e que no restante do hemitórax direito há estertores crepitantes, ruídos que indicam a presença de secreção nas vias aéreas de menor calibre (bronquíolos, por exemplo).
Você opta por realizar uma ultrassonografia breve no leito, e na região é constatada a presença de uma coleção líquida entre as pleuras (tecidos que recobrem a superfície do tórax e dos pulmões), com uma coluna (distância entre as pleuras) de 25mm. Ou seja, devido à presença de líquido, as pleuras, que normalmente ficam em contato, se encontram afastadas por uma coluna do que chamamos de derrame pleural. Nesse caso, é optado por realizar uma drenagem pleural.
A drenagem pleural é um procedimento que consiste na retirada de líquido (pus, sangue) ou ar da cavidade pleural através da criação de um canal de comunicação entre ela e o meio externo (através de um dreno, como mencionamos anteriormente). Para realizar a drenagem pleural, são necessários:
- Materiais para limpeza do local
- Materiais para paramentação do profissional
- Anestésico local
- Agulhas, gaze estéril, seringas, micropore
- Bisturi
- Tubo de drenagem ou kit com dreno pigtail
- Sistema de drenagem
O dreno de pigtail apresenta menor calibre quando comparado ao tubo de drenagem, e, por isso, seu uso é mais indicado para drenagem de ar (em casos de pneumotórax), tendo em vista que haveria maior risco de obstrução se houvesse drenagem de líquidos.

Drenagem com pigtail pela técnica de Seldinger
Para realizar a drenagem efetiva do tórax, devemos seguir passos específicos. Existe mais de uma técnica para se realizar esse procedimento, nesse caso iremos ilustrar a técnica de Seldinger utilizando o dreno pigtail.
- Explicação da técnica ao paciente e verificação de consentimento.
- Posicionar para punção: paciente em decúbito dorsal, com um dos braços atrás da cabeça.
- Local da punção: quinto espaço intercostal (região entre a quinta e a sexta costela), na borda superior da sexta costela, para evitar lesão de vasos e nervos.
- Com material de acesso venoso central, puncionar com a agulha, enquanto aspira com a seringa acoplada, o local da drenagem, de modo que aparecerá o conteúdo do derrame pleural.
- Retirar a seringa.
- Introduzir um fio guia por dentro da agulha.
- Retirar a agulha e manter o fio guia na cavidade pleural.
- Delimitar uma incisão maior com auxílio do bisturi para passagem do tubo dilatador.
- Inserção do pigtail pela incisão e com auxílio do fio guia.
- Fixação do dreno e introdução no sistema de drenagem.
Após o procedimento, é realizada uma radiografia para checagem do posicionamento certo do dreno. Finalmente, no momento em que for julgado adequado com base nos sintomas e parâmetros clínicos e laboratoriais do paciente, o dreno pode ser removido.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
- Utiyama, EM et al. Cirurgia Geral – Manual do Médico-Residente do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. 1ª edição. Rio de Janeiro: Atheneu, 2019.
- Velasco IT et al. Medicina de Emergência – Abordagem Prática. 15ª edição. BarueriÇ Manole, 2021.
- Gretch, ED. Pathophysiology and investigation of coronary artery disease. British Medical Journal, vol 326, 1027-1030, 05/2003.
- https://www.drakeillafreitas.com.br/infeccao-urinaria-associada-a-sonda-vesical/
- https://intranet.hc.unicamp.br/manuais/manual_paciente_enteral.pdf
- https://www.researchgate.net/figure/Pigtail-catheter-allows-less-tension-on-the-chest-tube-to-decrease-kinking-of-the_fig1_228106440
- https://europepmc.org/article/med/10323171